Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

MBL reage a possível ida de Bolsonaro para o Patriota e deve romper com partido

'Não existe a possibilidade de estarmos juntos no mesmo projeto político', diz Arthur do Val, o Mamãe Falei; em BH, vereador da sigla é expulso por criticar presidente

Pedro Venceslau, Bruno Ribeiro e Caio Sartori/RIO, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 13h12

Após assumir o comando do Patriota em São Paulo com "porteira fechada", em 2020, a cúpula do Movimento Brasil Livre (MBL) vai se reunir na noite desta terça-feira, 1, para definir o seu destino caso a legenda confirme a intenção de abrigar a família Bolsonaro nas eleições de 2022.

"Vamos ver como agir. Não existe a possibilidade de estarmos juntos no mesmo projeto político. A entrada do Flávio ao partido foi terrível", disse ao Estadão o deputado estadual Arthur do Val, mas conhecido como Mamãe Falei, referindo-se à filiação do filho "01" do presidente, anunciada nesta segunda.  

Do Val obteve 522.210 votos (9,79%) na disputa pela Prefeitura, no ano passado, e se credenciou para disputar o governo paulista no ano que vem. Pelo acordo firmado em fevereiro de 2020, Arthur do Val e o vereador Fernando Holiday migraram do DEM para o Patriota e receberam carta branca para montar o diretório municipal da legenda. O coordenador nacional do MBL, Renato Battista, assumiu a presidência do partido na capital paulista. 

Grupo que atuou na linha de frente do movimento pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), o MBL apoiou Bolsonaro no 2° turno em 2018, mas depois rompeu com o presidente. Holiday já deixou o Patriota e entrou no Novo. 

Segundo a Coluna do Estadão, o vereador Rubens Nunes (Patriotas), que é um dos líderes do MBL, chamou de "golpe" a articulação entre o partido e Flávio Bolsonaro. 

"Eles dizem que são de direita, então por que sairiam do Patriotas? Flávio Bolsonaro é direita, somos da mesma família. Se depender de mim, eles (MBL) não sairão. Mas, se ficarem, vão ter de fazer campanha para o Bolsonaro", respondeu ao Estadão o presidente nacional do Patriota, Adílson Barroso.

Questionado sobre a decisão de uma ala da sigla de recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a mudança no estatuto que abriu caminho para o clã Bolsonaro, Barroso minimizou. "O estatuto do partido é sustentado pela Constituição", afirmou. 

Na convenção nacional do Patriota realizada ontem, Barroso conseguiu aprovar um novo estatuto que abriu caminho para a candidatura própria à Presidência. Ele  anunciou o aumento dos integrantes do diretório e da Executiva e a filiação de Flávio como “líder do Patriota na Câmara dos Deputados”. Alertado de que o filho “01” de Bolsonaro era senador, ele se corrigiu: “Aliás, no Senado. Ele é nosso grande líder no Senado. Não estou rebaixando, não”.

Flávio participou da convenção nacional do Patriota por videoconferência. Na semana passada, ele deixou o Republicanos,  partido ligado à Igreja Universal do Renio de Deus, dizendo que se filiaria ao mesmo partido a ser escolhido pelo pai. Em seu discurso, o senador elogiou o Patriota e disse ter certeza de que vão “caminhar juntos” para a campanha de 2022, construindo “o maior partido do Brasil”.    

"Não teve isso de porteira fechada,  mas se antes tinha o meu o grupo, o do Fred (Costa , deputado federal - MG) e do Ovasco (Costa, vice presidente) no Patriotas, agora tem também o grupo do meu amigo Flávio Bolsonaro", disse Barroso. Fred e Ovasco são os dirigentes que se rebelaram contra a manobra do presidente da sigla. "Se depender de mim, ninguém sairá do partido. Não sou ditador. Vai ser tudo pela convenção", afirmou o presidente da sigla. 

Nesta terça, 1, o senador publicou postagem no Twitter em que afirma que o partido fez convite para que seu pai, o presidente Bolsonaro, também se filiasse ao Patriota. Bolsonaro está sem partido e precsia se abrigar em alguma sigla até abril do ano que vem para poder disputar a reeleição.

Estranheza.  A filiação do senador Flávio Bolsonaro ao Patriota causou estranheza no ex-deputado Cabo Daciolo, que concorreu à Presidência da República pela legenda em 2018. “Bolsonaro não tem nada de patriota. Entregou a nação para o mercado estrangeiro”, afirmou ao Estadão. “Espero que na próxima eleição ele participe dos debates.”

O bombeiro do Rio de Janeiro ainda não revela por qual partido pretende novamente disputar o Planalto. Diz apenas que tem mais de um convite e que deve tomar uma decisão em breve. A ideia, segundo ele, é se contrapor tanto a Bolsonaro quanto ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ambos são considerados “muito fracos” pelo ex-deputado, que teve 1,2% dos votos na última eleição presidencial.  

Assim que Flávio anunciou a filiação ao Patriota, nesta segunda-feira, internautas lembraram da campanha de Daciolo, que ficou marcada por episódios que viralizaram nas redes sociais. Um deles, inclusive, já havia sido recordado na semana passada, quando uma estátua da loja Havan - criticada pelo bombeiro como símbolo do imperialismo dos Estados Unidos - foi derrubada pelo vento no Rio Grande do Sul.

“Eu visualizei (essa cena). Foi o início da libertação do País das mãos dos Estados Unidos e da China”, garante Daciolo.

Depois da eleição de 2018, o bombeiro se desfiliou do Patriota. No ano passado, chegou a ingressar no PL para tentar concorrer à prefeitura do Rio, mas desembarcou quando o partido decidiu compor a chapa do atual prefeito, Eduardo Paes, que foi eleito pelo DEM e hoje está no PSD. Apoiou a candidata Glória Heloiza (PSC), ex-juíza que obteve 0,5% dos votos.

Curiosamente, Daciolo entrou na política pelo PSOL. A sigla de esquerda viu potencial político nele durante uma greve dos bombeiros fluminenses. O cabo foi eleito deputado federal pelo partido em 2014, mas foi expulso após contrariar o estatuto. Entre as atitudes citadas para justificar a expulsão, estava a proposta de inserir na Constituição que “todo o poder emana de Deus”, em vez de “todo o poder emana do povo”.

Vereador de BH é expulso por críticas a presidente

Em Belo Horizonte, o vereador Gabriel Azevedo, até aqui filiado ao Patriota, recebeu nesta terça-feira comunicado da direção estadual da sigla comunicando sua expulsão do Patriota por críticas que vinha fazendo, na internet, ao presidente Jair Bolsonaro.

"Estava na Comissão de Legislação e Justiça quando recebi da minha assessora a informação", disse o vereador, que manterá seu mandato. Ele foi o quarto parlamentar mais votado na capital mineira nas últimas eleições. 

O comunicado da expulsão, assinado pelo presidente do partido no Estado, Hércules Marques de Sá, cita a "atitude beligerante" do vereador diante do presidente da República.  "Não conversei com ninguém, não sei de quem partiu essa decisão", afirmou. Azevedo disse que a notícia era positiva e que vai continuar a criticar o presidente. "Eu tinha assinado com o partido uma cláusula de independência", disse. 

 

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