Dida Sampaio/Estadão (24/2/2021)
Dida Sampaio/Estadão (24/2/2021)

Flávio Bolsonaro se filia ao Patriota e indica que Bolsonaro também irá para o partido

Anúncio foi feito pelo dirigente Adilson Barroso; mudanças em diretórios estaduais já sofrem resistência interna

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 13h38
Atualizado 31 de maio de 2021 | 18h17

O senador Flávio Bolsonaro se filiou nesta segunda-feira, 31, ao Patriota e indicou que o presidente Jair Bolsonaro, em campanha pela reeleição, seguirá o mesmo caminho. Embora o presidente não tenha anunciado seu novo partido, a filiação é dada como praticamente certa e já provocou racha interno. Integrantes do Patriota entraram com ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alegando que mudanças promovidas às pressas no estatuto da legenda tiveram como único objetivo beneficiar a família Bolsonaro.

Flávio participou da convenção nacional do Patriota por videoconferência. Na semana passada, ele deixou o Republicanos,  partido ligado à Igreja Universal do Renio de Deus, dizendo que se filiaria ao mesmo partido a ser escolhido pelo pai. Em seu discurso, o senador elogiou o Patriota e disse ter certeza de que vão “caminhar juntos” para a campanha de 2022, construindo “o maior partido do Brasil”.

O senador afirmou que o PSL, antiga sigla da família Bolsonaro, tinha apenas um deputado federal antes da disputa de 2018. “Após as eleições, fizemos uma bancada com 52 deputados. Agora, com o presidente Bolsonaro na Presidência da República, não tenho dúvida de que a gente pode construir um partido maior ainda, até maior que o próprio PSL. Tem espaço para todo mundo”, avaliou ele.

Durante a convenção, o  presidente do Patriota, Adilson Barroso, comemorou a filiação de Flávio e falou como se Bolsonaro já tivesse assinado a ficha. “Vamos ser grandes. Ele (Bolsonaro) vem hoje para o partido sem pedir uma bala. Aqui no Patriota ele confia em mim, e não quer nada de nós”, afirmou Barroso.

Apesar da declaração de que Bolsonaro não fez exigências, Barroso pretende fazer uma espécie de intervenção para mudar o comando de diretórios estaduais, com o objetivo de abrigar o grupo político de Bolsonaro. A ação conta com forte resistência do deputado federal Fred Costa (Patriota-MG) e do vice-presidente do partido, Ovasco Costa. "Sou contra o golpe rasgando o regimento", disse Fred ao Estadão.

Em uma reunião rápida e desorganizada, Barroso pôs em votação a possibilidade de filiação de Bolsonaro. “Alguém aqui tem alguma coisa contra ou todos são a favor?”, perguntou ele para a cúpula do partido. Uma parte dos dirigentes do Patriota estava de pé e outra, sentada. Não houve discussão.  “Isso não é forma de votação, Adilson”, disse um dos dirigentes. “É golpe”. 

Logo em seguida, parecendo muito apressado, Barroso conseguiu aprovar o novo estatuto do Patriota, que abre caminho para a candidatura própria à Presidência,  anunciou o aumento dos integrantes do diretório e da Executiva e a filiação de Flávio como “líder do Patriota na Câmara dos Deputados”. Alertado de que o filho “01” de Bolsonaro era senador, ele se corrigiu: “Aliás, no Senado. Ele é nosso grande líder no Senado. Não estou rebaixando, não”.

O TSE recebeu ação para suspender a mudança do estatuto do partido, mas ainda não julgou o pedido. Flávio ignorou o racha interno e elogiou o comando do Patriota. “Fico feliz de ver que muitos estão deixando a vaidade de lado, o posicionamento dentro do partido de lado em prol realmente dos princípios que estão escritos no estatuto que ajudei a colocar", destacou.

Desde que saiu do PSL, em novembro de 2019, Bolsonaro sofreu vários reveses. Após ter anunciado a criação de um novo partido, o Aliança pelo Brasil, o presidente não conseguiu as 491.967 assinaturas necessárias para tirar a legenda do papel. Após uma ruidosa briga com o PSL, ele negociou a entrada em nove partidos – entre os quais o PTB, PRTB, Republicanos e Progressistas –, mas até agora nenhum havia aceitado lhe dar carta branca.

Para se filiar, Bolsonaro exige o controle dos diretórios e do caixa do partido. Foi por isso que rompeu com o PSL e depois não conseguiu voltar para a sigla. Bolsonaro também cobrava do PSL um “alinhamento ideológico” com pautas do governo e a expulsão de deputados que o atacam, como Júnior Bozzella (SP), Julian Lemos (PB), Joice Hasselmann (SP) e Delegado Waldir (GO).O presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), não aceitou essas condições e as negociações emperraram.

A nova legenda de Flávio e provável partido de Bolsonaro ficou em 22º lugar no ranking das siglas que receberam fundo eleitoral nas disputas municipais de 2020, com R$ 24,5 milhões. De acordo com o orçamento de 2021, aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente, o Patriota terá R$ 22,4 milhões de fundo partidário para usar neste ano, valor que o coloca em 19º na lista de 22 siglas com direito à verba. No Congresso, o Patriota conta apenas seis deputados federais e, com a ida de Flávio, agora terá um senador.

Antes da campanha de 2018, Bolsonaro chegou a ser apresentado como candidato à Presidência pelo Patriota, então chamado de Partido Ecológico Nacional (PEN). A única ligação entre o então deputado e a sigla, porém, era uma ficha “pré-datada”. A filiação nunca foi consumada.

“Fiz das tripas coração para tê-lo com a gente, mudei o nome do partido, mexi no nosso estatuto, dei mais de 20 diretórios para o grupo dele. Mas você não pode ser convidado para entrar em uma casa e depois querer tomar ela inteira para você, expulsando seus moradores originais”, lamentou Adilson Barroso, em janeiro de 2018. O presidente do Patriota tem dito que, desta vez, Bolsonaro não lhe pediu nada. Em várias ocasiões, porém, o presidente disse a apoiadores, no Palácio da Alvorada, que quer ser  “dono” de um partido. “Ninguém quer entregar o osso aí para a gente. Querem entregar só o casco do boi”, afirmou ele, recentemente.

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