Ilustração de Farrell sobre foto de Ford do Brasil
Ilustração de Farrell sobre foto de Ford do Brasil

Marechal Rondon defendeu povos indígenas que não detinham poder

Descendente de índios, Cândido Rondon dedicou a vida a dar voz a quem não tinha

Larry Rohter, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Fui chefe de sucursal do New York Times aqui no Brasil durante dez anos. Deixei o jornalismo diário há quatro anos para me dedicar em tempo integral a escrever livros. O primeiro produto desse empreendimento é a biografia do marechal Cândido Rondon (1865-1958), recentemente publicada pela Companhia das Letras. É possível ligar Rondon ao poder, tema do Estadão Summit Brasil, em vários sentidos. Como o poder da superação: Rondon nasceu órfão, filho de indígenas, na província mais remota e pobre do Império e com força de vontade chegou a ser marechal do Exército Brasileiro. É o único brasileiro que tem um Estado que leva o nome dele – Rondônia –, foi um grande cientista e estadista. O que ele conseguiu, em um época na qual não se falava de mobilidade social, é uma façanha incrível e única na história da Primeira República. 

O segundo sentido é o poder nos meios de comunicação. A atuação de Rondon durante a Primeira República, como explorador e político, centrava-se sobre os desprotegidos e desfavorecidos, principalmente indígenas e caboclos. Ele orgulhosamente se denominava caboclo, e os caboclos naquela época não tinham representação nenhuma no poder. Portanto, ele tomou para si a missão de atuar em prol do interesse desses grupos. 

Mas como ele fazia isso? Afinal, caboclo e índio não votavam. Rondon usou como ferramenta os novos meios de comunicação de sua época. Fez fotografias que foram publicadas em jornais e revistas de cidades grandes do litoral; em 1911, gravou músicas de nhambiquaras e parecis – as primeiras gravações de músicas em campo, não apenas na história do Brasil, mas do mundo –, e também falou da cultura desses povos por rádio. Afinal, Edgard Roquette-Pinto, pai da radiodifusão no Brasil, foi integrante da comissão Rondon. 

Entretanto, a principal ferramenta usada foi o cinema (mudo, é claro). Também em 1911, Rondon fez os primeiros filmes etnográficos na história do Brasil, exibindo-os nos cinemas em Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Mostrou aos moradores dessas cidades que o índio e o caboclo também são brasileiros. Isso criou simpatia entre o habitantes do litoral e o do interior. 

Costuma -se dizer que o primeiro a utilizar a multimídia foi Lawrence da Arábia, logo após a I Guerra Mundial, quando fez apresentações na Inglaterra e nos EUA, conjugando palestras, fotografias e filmes. Não é verdade: Rondon começou a fazer apresentações nesses moldes a partir de 1915, portanto, quatro anos antes. Ele sempre foi atento ao poder das mídias e dos novos meios de comunicação como forma de proteger os desfavorecidos. 

Durante uma conferência de imprensa, em meados do governo de Eurico Gaspar Dutra, Rondon, ainda no posto de general, disse em determinado momento: “Se eu fosse branco, eu faria o seguinte…”. Um dos repórteres o interrompeu: “O senhor está dizendo que não é branco?” “Claro que não sou branco!” Rondon, descendente de três povos indígenas – bororós, terenas e guanás –, assumiu o fato de ser indígena, o que era muito raro naquela época e talvez seja ainda hoje. 

Hoje, os povos indígenas vivem um momento difícil. Estão sob ataques, sofrendo insultos e enfrentando desafios à própria identidade. O atual presidente diz que índio não tem cultura, mas Rondon escreveu dezenas de documentos e estudos provando o contrário, mostrando um caminho que faz parte da história brasileira. O povos indígenas, segundo Rondon, têm o direito de decidir qual grau de aproximação querem com a sociedade, seja integração plena ou afastamento total. A política do governo atual parece querer a integração forçada, excluindo o fator de autonomia. 

A relevância de Rondon reside hoje na causa dos direitos de povos indígenas, mas também na questão ambiental, pois os dois assuntos estão sempre ligados. Rondon acreditava que o índio é o melhor sentinela da floresta.

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