Joédson Alves/ EFE
Joédson Alves/ EFE

Mandetta ‘força’ saída da Saúde, avaliam aliados do ministro

Participação do ministro no programa ‘Fantástico’, da TV Globo, é criticada na forma e no conteúdo por auxiliares de Bolsonaro

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - As últimas atitudes do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, elevaram a temperatura do confronto com o presidente Jair Bolsonaro e podem acelerar sua saída da equipe, vista até por seus aliados como uma questão de tempo. O estopim da nova crise foi a entrevista dada por Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo, 12. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Na ocasião, Mandetta afirmou que o governo carece de um discurso unificado sobre o enfrentamento à pandemia e dirigiu cobranças a Bolsonaro, que tem ignorado recomendações de isolamento social e defendido o retorno ao trabalho. Nos bastidores, não apenas a ala ideológica do governo como até alguns apoiadores do titular da Saúde já acreditam que, com essa estratégia, ele força uma situação para sair do governo.

“O brasileiro não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta”, disse Mandetta ao Fantástico, um dia depois de Bolsonaro ter visitado, ao seu lado, um hospital de campanha, em construção, na cidade de Águas Lindas (GO). Naquele sábado, como de outras vezes, o presidente foi ao encontro de eleitores, que se aglomeraram para cumprimentá-lo.

Mandetta também criticou o comportamento de quem tem quebrado a quarentena. “Quando você vê as pessoas entrando em padaria, supermercado, fazendo fila, piquenique isso é claramente uma coisa equivocada”, destacou. Na quinta-feira, Bolsonaro foi a uma padaria em Brasília. “Ninguém vai tolher meu direito de ir e vir”, afirmou.

Questionado na segunda-feira,13, sobre a cobrança de Mandetta, Bolsonaro desconversou. “Não assisto à Globo, tá ok? Vou perder tempo da minha vida assistindo à Globo agora?”, disse ele, pela manhã, ao deixar o Palácio da Alvorada. 

No Planalto, porém, não foi apenas a referência de Mandetta à “dubiedade” do governo que causou contrariedade. O fato de o ministro ter dado entrevista para a emissora vista como “inimiga” também foi classificado como uma afronta. Não passou despercebido, ainda, o local da gravação: o Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás. O governador Ronaldo Caiado rompeu com Bolsonaro, no mês passado, após ele ter incentivado a população a retomar suas atividades para evitar um colapso econômico.

Ao contrário do que estava previsto, Mandetta não participou da entrevista coletiva de segunda ao lado dos ministros Sérgio Moro (Justiça) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), no Planalto, sobre as medidas de combate ao coronavírus. A explicação oficial para a ausência foi a de que ele estava em outro compromisso e não conseguiu chegar a tempo.

Hierarquia

Na avaliação de militares ouvidos pelo Estado, Mandetta tenta montar uma espécie de “ministério técnico autônomo” para se dissociar das ações de Bolsonaro e ganhar os holofotes. Há nas Forças Armadas a percepção de que o ministro desrespeita não apenas a hierarquia como acordos firmados. Mandetta tem confrontado o presidente, quando havia combinado com os militares que agiria para acalmar os ânimos.

Interlocutores de Bolsonaro também afirmam que áreas técnicas do governo já detectaram falhas na execução de medidas por parte do Ministério da Saúde, como a distribuição de equipamentos que não estavam em perfeito estado.

Respiradores enviados ao Amazonas, Amapá e Ceará, por exemplo, teriam sido entregues com defeito, necessitando de reparos. O secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, admitiu o problema, mas afirmou que soluções já estão sendo dadas para amenizar as dificuldades. Segundo ele, de 100 equipamentos enviados para Manaus, 20 já estão em funcionamento.

Na outra ponta, embora secretários estaduais da Saúde estejam se manifestando a favor de Mandetta, há insatisfação com critérios para repasses de recursos e pedidos para que o governo também leve em conta municípios com pequena população, mas grande número de atendimento de pessoas da região, procurando os hospitais.

Sob alegação de que está preocupado com os empregos diante do prolongamento da quarentena, Bolsonaro continua travando uma queda de braço com governadores, especialmente com João Doria (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio), seus adversários políticos.

Apesar das queixas, porém, todos evitam uma manifestação mais dura contra Mandetta, pois temem que ele seja substituído pelo deputado Osmar Terra (MDB-RS), até agora o nome mais cotado para o cargo, no caso da saída do ministro. / MATEUS VARGAS, JUSSARA SOARES e TÂNIA MONTEIRO

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