Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Mandetta diz que fica no cargo e pede ‘paz’ para trabalhar

Sem citar Bolsonaro, ministro da Saúde afirma que críticas ‘não construtivas’ trazem dificuldade ao ambiente de trabalho

Julia Lindner e Rafael Moraes Moura., O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 20h41
Atualizado 06 de abril de 2020 | 22h47

BRASÍLIA – O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou na noite desta segunda-feira, 6, que permanece no cargo, pediu “paz” para chefiar a pasta e, sem citar diretamente o presidente Jair Bolsonaro, reclamou de críticas que, em sua visão, criam dificuldades para o seu trabalho. O ministro também destacou que possui uma equipe técnica à frente do Ministério da Saúde e sinalizou que, se for embora, o seu time vai junto.

“Aqui nós entramos juntos, estamos juntos e quando eu deixar o ministério a gente vai colaborar de outra forma a equipe que virá. Entramos juntos e vamos sair juntos”, afirmou o ministro “Não vamos perder o foco: ciência, disciplina, planejamento, foco. Esses barulhos que vêm ao lado, Fulano falou isso, Beltrano falou aquilo, esquece. Foco aqui.”

No pronunciamento, Mandetta testou seu capital político. Além das milhares de pessoas que acompanharam a transmissão ao vivo nas redes sociais, Mandetta contou com o apoio presencial de secretários, servidores e parlamentares para defender os seus posicionamentos e fazer frente a Bolsonaro. 

Ao chegar, o ministro foi aplaudido de pé. “Não é hora de aplaudir ninguém, porque não terminou nada”, reagiu, na entrada. Pouco antes, Mandetta passou cerca de três horas reunido com Bolsonaro e outros ministros no Palácio do Planalto, em momentos decisivos para saber se permaneceria ou não na função. Ele contou que estava apreensivo e que parte dos funcionários chegou a limpar a sua gaveta considerando que o ministro seria demitido ainda nesta segunda.

Mandetta acumulou uma série de desgastes com o presidente Bolsonaro ao defender um amplo distanciamento social da população como enfrentamento do novo coronavírus.  Em reação a Bolsonaro, Mandetta, afirmou à equipe da pasta, na noite desta segunda-feira, que “não é para parar (o trabalho) enquanto ele não disser que é para parar”. Mandetta indicou que, por ora, fica no cargo, mas não descartou ser substituído eventualmente por outra pessoa. “Nós vamos continuar para enfrentar o nosso inimigo. Nosso inimigo tem nome e sobrenome, é a covid-19”, disse.


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O ministro também aproveitou a declaração à imprensa para evidenciar o descontentamento ao longo do dia devido aos rumores de que poderia ser demitido “Hoje foi um dia emocionalmente mais duro do que os outros. Eles (da equipe) me viram um pouco mais apreensivo. Porque eu falei: ‘poxa vida, era uma coisa tão importante para fazermos’”, relatou, sem dar mais detalhes. Em seguida, completou que é preciso “tocar em frente”

Ministros, Alcolumbre e Toffoli agiram para impedir saída de Mandetta 

Segundo o Estado apurou, ministros do governo e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, agiram nos bastidores para impedir a saída de Mandetta do governo.

Criticado pelo presidente da República, Mandetta reclamou de comentários negativos que criam empecilhos para a sua gestão. “O que temos dificuldade é quando em determinadas situações, ou determinadas impressões, as críticas não vêm no sentido de construir, mas para trazer dificuldade no ambiente de trabalho. Isso tem sido uma constante. Vamos continuar, continuando a gente vai enfrentar nosso inimigo. Médico não abandona paciente, eu não vou abandonar”, reiterou, em um recado a Bolsonaro.

“Eu não vou abandonar, agora as condições de trabalho dos médicos precisam ser para todos. A única coisa que pedimos é o melhor ambiente para trabalhar. Começamos a semana com mais um solavanco, esperamos que possamos seguir em paz”, acrescentou.

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