Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Lula diz que Bolsonaro deve governar ‘para o povo, não para milicianos do Rio’

Em 2º discurso desde que foi solto, em São Bernardo do Campo, petista ainda cobra investigação 'séria' sobre envolvimento de presidente na morte de ex-vereadora Marielle Franco

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2019 | 16h11

SÃO PAULO e BRASÍLIA – No segundo discurso desde que deixou a prisão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na tarde deste sábado, 9, que o presidente Jair Bolsonaro deve sua eleição ao ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, e a uma campanha de fake news promovida contra o candidato do PT, Fernando Haddad.

"Tem gente que fala em impeachment. Veja, o cara foi eleito democraticamente e nós aceitamos isso, mas ele (Bolsonaro) foi eleito para governar para o povo brasileiro, e não para os milicianos do Rio de Janeiro", disse. 

A militantes que o aguardavam desde o início da manhã em frente à sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, Lula também cobrou Bolsonaro sobre a morte da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e sobre a investigação que envolve o ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, que trabalhou para Flávio Bolsonaro na Assembleia carioca.

"Não é a gravação do filho dele que vale, uma perícia séria tem de ser feita, para que a gente saiba quem matou a nossa guerreira chamada Marielle."  Em seguida, disse que Bolsonaro precisa explicar "onde está o Queiroz" e como construiu um patrimônio de 17 casas." 

O petista voltou a afirmar que sua prisão ocorreu para que ele não participasse das eleições do ano passado. Chamou novamente Sérgio Moro de "mentiroso" e disse que o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, "montou uma quadrilha para tomar dinheiro da Petrobras e das empreiteiras" investigadas. Segundo Lula, a expectativa agora é que o Supremo julgue Moro como parcial e anule os processos a que responde ainda na Justiça - são nove no total. 

Assim como na sexta-feira, 8, na saída da cadeia, o ex-presidente afirmou que pretende rodar o País ao lado de Fernando Haddad, da presidente do PT, Gleise Hoffmann, e de "companheiros" de outros partidos, como PSOL e PCdoB. "Estou de bem com a vida e vou lutar por esse País." E já falou em eleição: "Se nós trabalharmos direitinho, em 2022 a chamada esquerda que o Bolsonaro tanto tem medo vai derrotar a extrema direita que nós tanto queremos derrotar".

No momento em que Lula discursava em São Bernardo do Campo, o presidente Jair Bolsonaro tomava sorvete na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Ele usou a oportunidade para posar com apoiadores. Mais cedo, o presidente afirmou que "Lula está solto, mas continua com todos os crimes dele nas costas".

Bolsonaro também chamou o petista, indiretamente, de canalha. "Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa."

Política econômica

A fala teve início com quase três horas de atraso, por volta das 15h. De um caminhão de som estacionado em frente ao sindicato, Lula criticou as políticas econômica e social do governo. "Eu quero saber por que esse cidadão que nunca trabalhou resolveu tirar a aposentadoria do povo?", questionou, ao afirmar que Bolsonaro escolheu a carreira militar para não trabalhar. 

Também comentou sobre a taxa de juros; "Vocês estão percebendo que a taxa de juros está caindo. Todo dia eles falam 'caiu a taxa de juros'. Mas a taxa de juros que cai é a Selic, que é a taxa que paga o juros do governo. Eu quero saber se os juros do seu cartão de crédito caíram". Em seguida, disse que se estivesse no governo, a Ford não teria fechado em São Bernardo. 

E citou os protestos populares que tomaram as ruas do Chile nas últimas semanas contra a política econômica do governo para criticar o ministro da Economia, Paulo Guedes. ""Nós vimos o que está acontecendo no Chile. O Chile é o modelo de país que o  Guedes quer fazer aqui." Lula afirmou que esse modelo liberal é financiado no Brasil pelo o que chamou de "nova classe política", financiada, segundo ele, por empresas e bancos como Ambev, XP, Itaú e Bradesco. 

"Eu duvido que o Bolsonaro durma com a consciência tranquila. Duvido que o ministro dele destruidor de sonhos do povo brasileiro durma bem", disse o ex-presidente

Mas, diferentemente da fala sobre o Chile, o petista destacou como positivo o governo de Evo Morales, da Bolívia, e a vitória da chapa de esquerda na Argentina. Lula ressaltou que Cristina Kirchner e Alberto Fernández deram "uma surra" no atual presidente Maurício Macri. Sobre o presidente americano, Donald Trump, a quem Bolsonaro tanto admira, disse que ele deveria cuidar dos americanos e "não encher o saco" dos latino-americanos. "Ele não foi eleito para ser xerife do mundo."

A primeira noite do ex-presidente fora da sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba após 580 dias preso teve direito a festa e reencontros. Após seis anos, Lula e seu ex-ministro José Dirceu se encontraram e conversaram a sós. Os dois foram soltos depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por 6 votos a 5, que condenados só podem ser presos após o trânsito em julgado, não mais após a segunda instância. /ADRIANA FERRAZ, FELIPE LAURENCE, TULIO KRUSE, VINÍCIUS PASSARELLI e CAMILA TURTELLI

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