Ricardo Stuckert
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'É o pior Congresso que tivemos na história do Brasil', diz Lula sobre atual legislatura

Em discurso para integrantes do MST, o ex-presidente também voltou a criticar a política de preços da Petrobrás

Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 16h52
Atualizado 20 de março de 2022 | 19h59

SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou neste sábado, 19, o Congresso Nacional, a política de preços da Petrobras e o processo de privatização da Eletrobras durante um discurso a membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Segundo o petista, a atual composição da Câmara e do Senado representa "talvez o pior Congresso que tivemos na história do Brasil."

Durante uma visita a um assentamento do MST em Londrina, no Paraná, Lula pediu que seus apoiadores se dediquem à eleição de deputados e senadores que possam dar sustentação a um eventual governo petista. Para Lula, com o esquema do orçamento secreto, a Câmara passou a governar o País no lugar do presidente da República.

A relação de Lula com o Congresso foi marcada, no entanto, pelo escândalo do mensalão, esquema de compra de votos de parlamentares que ameaçou derrubar o primeiro governo do petista, em 2005. A revelação feita pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB) de que deputados recebiam uma espécie de mesada para votarem a favor dos projetos do governo virou ação penal julgada pelo Supremo Tribunal Federal em 2012 - 25 réus foram condenados.

Após a fala de Lula, o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), divulgou nota defendendo a atual legislatura parlamentar.  Ele disse que a declaração de Lula é “deformada, ofensiva e sem fundamento, fruto do início da disputa eleitoral que faz com que seja ‘interessante’ falar mal do Parlamento”. 

No início de março, Pacheco desistiu de se lançar como candidato à Presidência da República pelo PSD. O partido o havia convidado a disputar o cargo em outubro. Mas o presidente do Senado resolveu mirar na campanha pela reeleição no posto, em fevereiro de 2023. Dessa forma, ele levantou a bandeira da reforma tributária e do pacote relacionado aos preços dos combustíveis, sob o discurso de usar o cargo para resolver problemas urgentes do País.

O bom trânsito com setores do PT e o caráter pragmático da legenda presidida pelo ex-ministro Gilberto Kassab chegaram a colocar o senador por Minas como um nome lembrado para a vice na chapa do ex-presidente Lula. Essa possibilidade, entretanto, foi descartada pelo parlamentar e por seus aliados mais próximos.

Durante o encontro com o MST, Lula questionou ainda o estabelecimento de uma comissão para discutir o semipresidencialismo, defendida pelo presidente da Câmara, Arhtur Lira (Progressistas). E criticou o que chamou de "destruição da Petrobras" e a política de preços da petroleira.

"Estamos pagando gasolina em dólar quando recebemos salário em real, os trabalhadores da Petrobras recebem em real, as plataformas são fabricadas em real", disse o ex-presidente. "A Petrobras está tendo lucro exorbitante, não para investir em tecnologia e autossuficiência, mas para dividir entre os acionistas." Lula também afirmou que os deputados deveriam agir para barrar o processo de privatização da Eletrobras, já na sua segunda etapa no Tribunal de Contas da União (TCU).

A crítica feita pelo petista sobre o grupo de trabalho criado na Câmara para debater a adoção do semipresidencialismo também foi rebatida. Segundo o deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), autor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que propõe a mudança, o objetivo do trabalho não é debilitar e restringir as atribuições da gestão de qualquer candidato ao pleito deste ano, como Lula sugeriu.

"Estou convicto de que os interesses da nação brasileira não podem permanecer indefinidamente submetidos às ambições de lideranças carismáticas que preferem subjugar a representação congressual a mero apêndice do Poder Executivo em vez de compartilhar delegações e responsabilidades governamentais", disse o tucano. "Acredito que o semipresidencialismo representa o antídoto ao populismo anacrônico que rejeita a responsabilização do Parlamento na execução orçamentária, tributária e fiscal; mais transparência e a construção legítima de consensos políticos", completou.

Corrupção 

A Petrobras esteve no centro da Operação Lava Jato, que levou o ex-presidente Lula à prisão em 2018. O esquema bilionário de corrupção na estatal, chamado de petrolão, envolvia, segundo as investigações, cobrança de propina de grandes empreiteiras do País, lavagem de dinheiro e superfaturamento de obras, com o objetivo de abastecer políticos, partidos, além de servidores da Petrobras, durante os governos petistas.

No ano passado, Lula teve todos os seus processos da Lava Jato anulados após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir que o ex-juiz Sérgio Moro, atual pré-candidato à Presidência pelo Podemos, foi parcial na condução das ações. 

Na última quinta-feira, 17, o agora rival político provocou o ex-presidente após Lula dizer que a Petrobras é uma empresa que “investe no desenvolvimento do País”.  No Twitter, Moro afirmou que “não teria dia mais infeliz” para o comentário do petista. “Há exatos 8 anos, a Lava Jato prendia um diretor da Petrobras que você nomeou e que recolheu propina por uma década”, escreveu o ex-juiz. “Tem certeza que você quer falar disso justo hoje?”

 

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