André Dusek / Estadão
Gilmar Mendes e Rodrigo Janot em cerimônia de posse de Alexandre de Moraes como ministro do STF em Brasilia, em março de 2017 André Dusek / Estadão

Janot: ‘Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar) e depois me suicidar’

Ex-PGR diz ao ‘Estado’ que foi armado para uma sessão do STF com a intenção de matar a tiros o ministro

Valmar Hupsel Filho, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 21h37
Atualizado 27 de setembro de 2019 | 17h45

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot disse na quinta, 26, ao Estado que, no momento mais tenso de sua passagem pelo cargo, chegou a ir armado para uma sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) com a intenção de matar a tiros o ministro Gilmar Mendes.

“Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar) e depois me suicidar”, afirmou Janot. O caso foi revelado nesta quinta-feira pelo Estado. Deputados e senadores já reagiram às declarações.

Segundo o ex-procurador-geral, logo depois de ele apresentar uma exceção de suspeição contra Gilmar, o ministro difundiu “uma história mentirosa” sobre sua filha. “E isso me tirou do sério.” 

Em maio de 2017, Janot, na condição de chefe do Ministério Público Federal, pediu o impedimento de Gilmar na análise de um habeas corpus de Eike Batista, com o argumento de que a mulher do ministro, Guiomar Mendes, atuava no escritório Sérgio Bermudes, que advogava para o empresário.

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Janot pode ser incriminado?

Saiba se o ex-procurador da República deverá responder à Justiça por revelar plano de matar Gilmar Mendes

Ao se defender em ofício à então presidente do STF, Gilmar afirmou que a filha de Janot – Letícia Ladeira Monteiro de Barros – advogava para a empreiteira OAS em processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Segundo o ministro, a filha do ex-PGR poderia na época “ser credora por honorários advocatícios de pessoas jurídicas envolvidas na Lava Jato”.

“Foi logo depois que eu apresentei a sessão (...) de suspeição dele no caso do Eike. Aí ele inventou uma história que a minha filha advogava na parte penal para uma empresa da Lava Jato. Minha filha nunca advogou na área penal... e aí eu saí do sério”, afirmou o ex-procurador-geral.

Janot encontrou Gilmar na antessala da Corte: ‘Foi a mão de Deus’

Janot disse que foi ao Supremo armado, antes da sessão, e encontrou Gilmar na antessala do cafezinho da Corte. “Ele estava sozinho”, disse.

“Mas foi a mão de Deus. Foi a mão de Deus”, repetiu o procurador ao justificar por que não concretizou a intenção. “Cheguei a entrar no Supremo (com essa intenção)”, relatou. “Ele estava na sala, na entrada da sala de sessão. Eu vi, olhei, e aí veio uma ‘mão’ mesmo”.

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Relembre os papéis de Janot e Gilmar na Lava Jato

Ex-procurador-geral da República e ministro do STF tiveram atuação antagônica durante a operação

O ex-procurador-geral disse que estava se sentindo mal e pediu ao vice-procurador-geral da República o substituir na sessão do Supremo. A cena descrita acima não está narrada em detalhes no livro Nada menos que tudo (Editora Planeta), no qual relata sua atuação no comando da Operação Lava Jato. Janot alega que narrou a cena, mas “sem dar nome aos bois”.

O ex-procurador-geral da República diz que sua relação com Gilmar já não era boa até esse episódio, mas depois cortou contatos. “Eu sou um sujeito que não se incomoda de apanhar. Pode me bater à vontade... Eu tenho uma filha, se você for pai...” 

Gilmar Mendes se pronunciou a respeito das declarações de Janot na manhã desta sexta-feira, 27, e disse lamentar que uma parte do "devido processo legal no país” tenha ficado “refém de quem confessa ter impulsos homicidas". "Recomendo que procure ajuda psiquiátrica", afirmou Gilmar. / COLABOROU AMANDA PUPO

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Ouça o relato de Rodrigo Janot

Ex-procurador-geral da República diz ao ‘Estado’ que chegou a ir armado para uma sessão do STF com a intenção de matar a tiros o ministro

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 23h10

Em entrevista ao Estado nesta quinta-feira, 26, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot afirmou que chegou a ir armado a uma sessão do Supremo Tribunal Federal com a intenção de matar o ministro Gilmar Mendes. “Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar) e depois me suicidar.”  O caso foi revelado nesta quinta-feira pelo Estado.

Leia reportagem completa.

 

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    Relembre os papéis de Janot e Gilmar na Lava Jato

    Ex-procurador-geral da República e ministro do STF tiveram atuação antagônica durante a Operação Lava Jato; relembre

    Redação, O Estado de S.Paulo

    27 de setembro de 2019 | 00h43

    O ex-procurador-geral Rodrigo Janot e o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), voltaram ao noticiário na noite desta quinta-feira, 26, após a revelação pelo Estado de que o então procurador-geral da República chegou a ir armado a uma sessão do tribunal com a intenção de matar Gilmar. No auge da Operação Lava Jato, Janot e Gilmar ocuparam papéis antagônicos. 

    Relembre a atuação de cada um deles.

    Quem é Rodrigo Janot?

    Rodrigo Janot Monteiro de Barros é ex-procurador-geral da República. Ocupou o cargo mais alto do Ministério Público Federal (MPF) de 2013 a 2017, durante dois mandatos consecutivos. 

    Janot se transformou em uma espécie de símbolo da Lava Jato no MPF, após denunciar o então presidente Michel Temer e pedir investigações contra dezenas de políticos implicados em delações premiadas de executivos e outros colaboradores da operação – casos que ficaram conhecidos como "listas de Janot". No cargo de procurador-geral, Janot chegou a apresentar duas denúncias contra Temer, no caso das gravações do presidente com o empresário Joesley Batista, da JBS. 

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    Janot foi responsável pelas denúncias da Operação Patmos da Polícia Federal, que gravaram o ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures carregando uma mala com R$ 500 mil nas ruas de São Paulo, na época em que era assessor especial de Temer no Palácio do Planalto. O dinheiro havia sido oferecido pelo executivo da JBS Ricardo Saud a título de propina. 

    A divulgação das denúncias criaram a maior crise do governo Temer. A Câmara dos Deputados acabou barrando as duas denúncias contra o presidente. Janot, por sua vez, foi substituído por Raquel Dodge em setembro de 2017. 

    Quem é Gilmar Mendes?

    Gilmar Ferreira Mendes é ministro do STF desde 2002, quando se tornou o terceiro indicado à Corte pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Gilmar exercia o cargo de Advogado-Geral da União quando foi indicado.

    No auge da Operação Lava Jato, entre 2016 e 2018, Gilmar se tornou o principal expoente da ala "garantista" do Supremo, que defende de forma mais rígida a presunção de inocência e critica os métodos da força-tarefa de Curitiba. O ministro se tornou alvo de manifestações após conceder a soltura de investigados e réus da operação, revisando decisões de primeira instância.

    Pelas mãos de Gilmar, foram liberados acusados como o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, o ex-dirigente da Dersa Paulo Vieira de Souza, o empresário carioca Jacob Barata Filho (três vezes), o ex-secretário de Saúde do Rio Sérgio Côrtes e o empresário Eike Batistaentre outros. As justificativas muitas vezes citavam falta de provas ou até constrangimento ilegal dos acusados.

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      Nos anos 1980, Janot e Gilmar tomavam cerveja juntos na Europa

      Ex-procurador-geral da República admitiu ao 'Estado' que nos meses finais de seu mandato saiu armado com a intenção de matar a tiros o ministro do STF; os dois trocaram farpas ao longo da Lava Jato

      Tiago Aguiar, O Estado de S.Paulo

      27 de setembro de 2019 | 08h58

      Rodrigo Janot era procurador-geral da República em maio de 2017 quando entrou armado no prédio principal do Supremo Tribunal Federal (STF) com a intenção de matar o ministro Gilmar Mendes, por insinuações que ele supostamente fizera sobre sua filha.

      O então chefe do Ministério Público Federal chegou a ver o ministro, porém desistiu no último segundo. O caso foi revelado nesta quinta-feira pelo 'Estado'. Os hoje desafetos eram amigos nos anos 1980 e chegaram a tomar cerveja juntos na Europa.

      Em 2017, quando a desavença entre os dois já era notória, Janot disse, em entrevista no 12º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo, que todas as vezes em que teve de se dirigir “de uma maneira mais dura foi reagindo a uma agressão”.

      Na mesma ocasião relatou que os dois tomaram posse no Ministério Público Federal no mesmo dia - 1º de outubro de 1984 - e que, nos anos 1980, durante o período de formação acadêmica de ambos, simultaneamente Janot foi para Itália e Gilmar para a Alemanha. “Lá a gente se frequentava, ele nunca veio à Itália, eu fui à Alemanha, nós saíamos, tomávamos cerveja. Nós éramos de um mesmo grupo e depois a vida foi encaminhando cada um para o seu lado. Eu não tenho nada contra ele, é da minha turma de concurso.”

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      Janot pode ser incriminado?

      Saiba se o ex-procurador da República deverá responder à Justiça por revelar plano de matar Gilmar Mendes

      A cena do quase assassinato está narrada, sem detalhes, no livro Nada Menos que Tudo (Editora Planeta), que será lançado na próxima semana. Gilmar e Janot viviam trocando críticas e indiretas em público: o ministro é crítico dos métodos utilizados pela força-tarefa da Operação Lava Jato, que foi comandada por Janot por quase quatro anos. Janot saiu do comando da Procuradoria-Geral da República (PGR) em 17 de setembro de 2017.

      Em 2016, ambos usaram o trabalho do então juiz federal Sérgio Moro para se criticarem diretamente. Janot havia afirmado que os processos da Lava Jato têm ritmo "mais lento" por serem conduzidos por um tribunal, e não pela justiça em primeiro grau. Mendes respondeu dizendo que a atuação de Moro era muito mais rápida. "Eu acho que há morosidade nas investigações na PGR. Curitiba é muito mais célere do que a PGR. Isso é evidente", disse o ministro.

      Em março de 2017 Gilmar Mendes acusou a PGR de divulgar de forma indevida informações de processos sigilosos. “Quando praticado por funcionário público, vazamento é eufemismo para um crime que os procuradores certamente não desconhecem. A violação do sigilo está no artigo 325 do Código Penal (...) Mais grave é que a notícia dá conta dessa prática dentro da estrutura da PGR. Isso é constrangedor.”

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      Ex-procurador-geral da República e ministro do STF tiveram atuação antagônica durante a operação

      No dia seguinte, sem mencionar o ministro do STF em seu discurso, Janot rebateu as críticas de Gilmar. "Não vi uma só palavra de quem teve uma disenteria verbal a se pronunciar sobre esta imputação ao Congresso, ao Palácio e até o Supremo”, disse o ex-PGR.

      Os dois exemplos foram os mais explícitos de trocas de farpas em declarações públicas da dupla. Em citações indiretas há dezenas de casos desde ao menos 2015 no noticiário político brasileiro. O tom estava mais forte nos últimos meses do mandato de Janot, quando a PGR já preparava a primeira denúncia contra o ex-presidente Michel Temer.

      Após a saída de Janot, os dois chegaram a se estranhar até em avião para a Europa. Um mês após sair do cargo, em outubro de 2017, Janot insinuou que Gilmar tivesse algum problema de saúde que o levasse a ter ódio. “Ninguém tem essa capacidade de odiar gratuitamente a várias pessoas a não ser que tenha algum problema, né, de saúde”, disse durante palestra na Universidade Georgetown, em Washington.

      Pouco antes disso Gilmar chegou a sugerir durante sessão no STF que Janot deveria ter pedido a própria prisão diante do malogro das investigações do caso JBS. “Eu sou da turma de 84. Certamente já ouvimos falar de procuradores preguiçosos, de procuradores violentos, alcoólatras, mas não de procuradores ladrões. É disso que se cuida aqui, corruptos num processo de investigação. Essa pecha a Procuradoria não merecia ao fazer investigação criminal”, disse Gilmar em setembro de 2017 em uma das primeiras sessões após a saída de Janot.

      Gilmar não deu trégua na língua afiada durante todo o mandato de Janot e chegou a falar de morte ao se referir ao ex-PGR. Instantes antes da última sessão plenária do Supremo durante o mandato de Janot, o ministro usou erroneamente um trecho de um poema para se referir à despedida. "Eu diria em relação ao procurador-geral Janot uma frase de Bocage: 'Que saiba morrer quem viver não soube'", disse Gilmar em 14 de setembro de 2017, quatro meses depois do episódio que quase tirou sua própria vida. A frase do soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa Du Bocage diz, no entanto: "Saiba morrer o que viver não soube".

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      Janot pode ser incriminado por revelar plano de matar Gilmar Mendes?

      'Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar) e depois me suicidar', disse Janot ao 'Estado'

      Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

      27 de setembro de 2019 | 09h42
      Atualizado 27 de setembro de 2019 | 16h54

      O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot revelou ao Estado na quinta, 26, que chegou a ir armado para uma sessão no Supremo Tribunal Federal (STF) em 2017, quando ainda estava na PGR, com a intenção de matar a tiros o ministro Gilmar Mendes.

      “Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar) e depois me suicidar”, afirmou Janot. De acordo com juristas ouvidos pelo Estado, apesar de revelar a intenção de cometer um crime, essas declarações não constituem crime em si.

      "A declaração dada pelo ex-procurador-geral da República, embora cause perplexidade, não poderá ensejar a sua responsabilização criminal", diz o criminalista Conrado Gontijo. "Não se pune, na ordem jurídica brasileira, a mera cogitação da prática de crime. São situações que antecedem os atos considerados criminosos e, por isso, são irrelevantes do ponto de vista penal", complementa.

      "A declaração é espantosa, ainda mais vinda de quem ocupou o mais alto cargo do Ministério Público, instituição de fundamental relevância e prestígio e que possui como função institucional zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos. No entanto, a lei criminal não pune a mera cogitação", diz Gustavo Neves Forte, também advogado criminalista.

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      Relembre os papéis de Janot e Gilmar na Lava Jato

      Ex-procurador-geral da República e ministro do STF tiveram atuação antagônica durante a operação

      "As declarações não constituem crime", complementa o professor da Escola de Direito do Brasil Fernando Castelo Branco. "O fato descrito enquadraria-se em atos preparatórios de prática criminosa, não puníveis em nosso ordenamento jurídico."

      Para a advogada constitucionalista Vera Chemim, as declarações de Janot são como um desabafo. "Não tem o que incriminar. Trata-se de uma forma comum de as pessoas se expressarem quando estão magoadas com alguém. É um desabafo."

      Ao Estado,  Janot afirmou que planejou o assassinato do ministro porque logo depois de apresentar uma exceção de suspeição contra Gilmar, o ministro teria difundido “uma história mentirosa” sobre sua filha. “E isso me tirou do sério.”

      Em maio de 2017, Janot, na condição de chefe do Ministério Público Federalpediu o impedimento de Gilmar na análise de um habeas corpus de Eike Batista, com o argumento de que a mulher do ministro, Guiomar Mendes, atuava no escritório Sérgio Bermudes, que advogava para o empresário.

      Ao se defender em ofício à então presidente do STF, Gilmar afirmou que a filha de Janot – Letícia Ladeira Monteiro de Barros – advogava para a empreiteira OAS em processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Segundo o ministro, a filha do ex-PGR poderia na época “ser credora por honorários advocatícios de pessoas jurídicas envolvidas na Lava Jato”.

      Nesta sexta, Gilmar disse lamentar que uma parte do “devido processo legal no País” tenha ficado “refém de quem confessa ter impulsos homicidas” e recomendou a Janot que procure um psiquiatra.

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      Gilmar Mendes a Janot: 'Recomendo que procure ajuda psiquiátrica'

      Ministro do STF responde a ex-PGR, que revelou ao ‘Estado’ plano de assassinar Gilmar em 2017, e diz que toda a atuação do ex-procurador-geral ‘tem de ser analisada pelo País’

      Amanda Pupo, O Estado de S. Paulo

      27 de setembro de 2019 | 09h13
      Atualizado 28 de setembro de 2019 | 19h47

      BRASÍLIA - O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), reagiu nesta sexta-feira, 27, à declaração dada pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot em entrevista ao Estado e disse lamentar que uma parte do “devido processo legal no País” tenha ficado “refém de quem confessa ter impulsos homicidas”. 

      Em nota crítica à atuação do ex-procurador, Gilmar também recomenda que Janot procure ajuda psiquiátrica e diz que o combate à corrupção no Brasil se tornou refém de fanáticos. Mais tarde, em entrevista após evento em Brasília, o ministro disse não imaginar que houvesse um "potencial facínora" no comando da PGR.

      O antecessor de Raquel Dodge, que deixou a chefia da PGR recentemente, disse ao Estado nessa quinta-feira, 26, que no momento mais tenso de sua passagem pelo cargo, chegou a ir armado para uma sessão do STF com a intenção de matar Gilmar a tiros. “Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar) e depois me suicidar”, afirmou Janot.

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      Janot pode ser incriminado?

      Saiba se o ex-procurador da República deverá responder à Justiça por revelar plano de matar Gilmar Mendes

      “Dadas as palavras de um ex-procurador-geral da República, nada mais me resta além de lamentar o fato de que, por um bom tempo, uma parte do devido processo legal no País ficou refém de quem confessa ter impulsos homicidas, destacando que a eventual intenção suicida, no caso, buscava apenas o livramento da pena que adviria do gesto tresloucado. Até o ato contra si mesmo seria motivado por oportunismo e covardia”, diz Gilmar na nota (leia na íntegra no fim da matéria).

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      Relembre os papéis de Janot e Gilmar na Lava Jato

      Ex-procurador-geral da República e ministro do STF tiveram atuação antagônica durante a operação

      Na nota, o ministro do STF, crítico aos métodos da Operação Lava Jato, afirma que o combate à corrupção no Brasil, “justo, necessário e urgente”, “tornou-se refém de fanáticos que nunca esconderam que também tinham um projeto de poder”. “Dentro do que é cabível a um ministro do STF, procurei evidenciar tais desvios. E continuarei a fazê-lo em defesa da Constituição e do devido processo legal”, continua.

      O ministro ainda afirma estar surpreso, e que sempre acreditou estar exposto “no máximo” a “petições mal redigidas, em que a pobreza da língua concorria com a indigência da fundamentação técnica”. “Agora ele revela que eu corria também risco de morrer”, afirma.

      “Se a divergência com um ministro do Supremo o expôs a tais tentações tresloucadas, imagino como conduziu ações penais de pessoas que ministros do Supremo não eram. Afinal, certamente não tem medo de assassinar reputações quem confessa a intenção de assassinar um membro da Corte Constitucional do País. Recomendo que procure ajuda psiquiátrica. Continuaremos a defender a Constituição e o devido processo legal”, concluiu Gilmar.

      No Twitter: 'É difícil não imaginar os abusos de Janot'

      Gilmar também foi às redes para contra-atacar. “É difícil não imaginar os abusos cometidos ao acusar e processar investigados", escreveu no Twitter. Lamento que o ex-chefe da PGR tenha sido capaz de cogitações homicidas por divergências na interpretação da Constituição"

      Críticas ao modelo de escolha do PGR

      Em entrevista em Brasília nesta sexta,  Gilmar Mendes insistiu que a atuação de Janot enquanto esteve à frente da PGR precisa ser analisada pelo País. O ministro criticou o modelo de indicação do cargo de procurador-geral, que chamou de “corporativo”, e disse que o sistema político terá de descobrir novos critérios para a escolha. “Modelo deu errado”, afirmou.

      Gilmar disse que imagina que hoje “todos aqueles que foram responsáveis” pela indicação de Janot devem estar “pensando na sua alta responsabilidade em indicar alguém tão desprovido de condições para as funções”. 

      O ministro também afirmou que, por se tratar, em sua “impressão”, de um “problema grave de caráter psiquiátrico”, a atuação do ex-procurador atinge todas as medidas que ele solicitou e foram deferidas na Suprema Corte. “Denúncias, investigações, e tudo o mais. É isso que tem que ser analisado pelo País”, emendou.

      “Eu entendo que, na verdade, elas foram feitas por um tipo de pessoa com essa qualidade psicológica, com essa personalidade e por isso elas precisam ser analisadas a partir dessa perspectiva”, respondeu Gilmar, que disse não cogitar tomar alguma medida judicial contra o ex-procurador.

      Desde 2003, a escolha do PGR pelo presidente da República tem seguido, mesmo que não obrigatoriamente, a chamada lista tríplice, que é votada pela Associação Nacional dos Procuradores da República. Neste ano, ao escolher Augusto Aras para comandar o Ministério Público, o presidente Jair Bolsonaro quebrou essa trajetória, já que Aras nem chegou a concorrer dentro da associação.

      Gilmar criticou o que chamou de “sistema corporativo” de escolha de membros do Ministério Público para a função, e lembrou que, até a Constituição de 1988, a chefia da PGR era ocupada por um notável jurista, normalmente de fora da carreira do MPF. “Depois de 88 é que se tornou essa coisa corporativa e introduziram-se essas escolhas inclusive de figuras como o procurador Janot, com essas qualidades que os senhores viram”, afirmou Gilmar.

      'Crise de abstinência'

      Questionado sobre a motivação de Janot para revelar agora o caso, o ministro afirmou que, a ele, parece que o ex-procurador está passando por uma crise de abstinência após um período de “apogeu” que viveu durante sua atuação na PGR. “Não disponho de elementos para avaliar. A mim me parece, de qualquer forma, que ele viveu, e aí graças também à mídia, um momento de apogeu e agora está vivendo na verdade um momento, está passando por uma crise de abstinência, muito provavelmente. Um problema psicológico muito sério e certamente isso explica um pouco desses desatinos”, disse. 

      Perguntado ainda se a segurança do tribunal precisa passar por algum tipo de mudança, Gilmar disse que a presidência do STF “certamente discutirá” o assunto. “Vamos avaliar isso”, afirmou.

      Leia a nota de resposta de Gilmar Mendes a Janot na íntegra:

      "Dadas as palavras de um ex-procurador-geral da República, nada mais me resta além de lamentar o fato de que, por um bom tempo, uma parte do devido processo legal no país ficou refém de quem confessa ter impulsos homicidas, destacando que a eventual intenção suicida, no caso, buscava apenas o livramento da pena que adviria do gesto tresloucado. Até o ato contra si mesmo seria motivado por oportunismo e covardia.

      O combate à corrupção no Brasil - justo, necessário e urgente - tornou-se refém de fanáticos que nunca esconderam que também tinham um projeto de poder. Dentro do que é cabível a um ministro do STF, procurei evidenciar tais desvios. E continuarei a fazê-lo em defesa da Constituição e do devido processo legal.

      Confesso que estou algo surpreso. Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua concorria com a indigência da fundamentação técnica. Agora ele revela que eu corria também risco de morrer.

      Se a divergência com um ministro do Supremo o expôs a tais tentações tresloucadas, imagino como conduziu ações penais de pessoas que ministros do Supremo não eram. Afinal, certamente não tem medo de assassinar reputações quem confessa a intenção de assassinar um membro da Corte Constitucional do País.

      Recomendo que procure ajuda psiquiátrica.

      Continuaremos a defender a Constituição e o devido processo legal."

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      'Quem vai querer investir num País desse?', diz Maia sobre declarações de Janot

      Em tom de brincadeira, presidente da Câmara também afirmou esperar que PF 'tenha tirado porte' do ex-PGR

      Caio Sartori, O Estado de S. Paulo

      27 de setembro de 2019 | 11h23

      RIO - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), brincou na manhã desta sexta-feira, 27, com as declarações do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, que, em entrevista ao Estado na quinta-feira, disse que pensou em matar o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. "Hoje descobrimos que o procurador-geral queria matar ministro do Supremo. Quem vai querer investir num país desse?", questionou Maia em evento no Rio.

      Ao arrancar risadas da plateia, o parlamentar complementou: "Pelo menos a Polícia Federal já devia ter retirado o porte de arma dele para a gente ficar mais tranquilo."

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      Janot pode ser incriminado?

      Saiba se o ex-procurador da República deverá responder à Justiça por revelar plano de matar Gilmar Mendes

      Após a palestra, a imprensa pediu para Maia analisar mais a fundo as declarações de Janot. "Sei lá", disse o deputado. "Não se pode nem mais brincar..."

      Outro alvo de críticas de Maia foi o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. "O ministro do Meio Ambiente nega os dados técnicos do Inpe, esse é o Brasil que nós temos", disse, também no contexto de crítica à insegurança que o País gera nos investidores.

      O presidente da Casa esteve na Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro com outros parlamentares para um debate sobre parcerias público-privadas (PPPs). Maia afirmou que o trecho restante da PEC da Cessão Onerosa, que garante a divisão dos recursos do leilão do pré-sal entre União, Estados e municípios, deve ser votada até o dia 12 de novembro.

      “Todo mundo sabe da importância de reorganizar esses recursos para Estados e municípios. Tenho certeza de que o texto da Câmara não será muito diferente do texto do Senado”, disse. 

      Um acordo feito por deputados e senadores nesta quinta-feira permite que o governo ressarça a Petrobras, para além do que autorizaria o teto de gastos, pela atualização dos valores de petróleo produzido na cessão onerosa. O Tribunal de Contas da União (TCU) considerava esse ponto como um empecilho para o leilão.

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