Governo de SP/Divulgação
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Doria enfrentava isolamento no partido e indefinições na pré-campanha

Governador desmarcou reunião da pré-campanha sem justificativa prévia no mesmo dia em que Eduardo Leite renunciou ao cargo de governador e virou opção no PSDB; marqueteiro deixou pré-campanha semana passada

Adriana Ferraz e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2022 | 10h10
Atualizado 31 de março de 2022 | 13h39

Fatos envolvendo a pré-campanha do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), indicaram um processo de isolamento do presidenciável tucano nos últimos dias. O projeto de Doria enfrentava fortes resistências no próprio e entre potenciais legendas aliadas. Além disso, o entorno do governador passou a cobrar um posicionamento contundente da direção do PSDB em defesa do resultado das prévias realizadas no ano passado.

Doria surpreendeu aliados e auxiliares na manhã desta quinta-feira, 31, ao comunicar que havia desistido de deixar o governo do Estado para concorrer à Presidência pelo PSDB.  O tucano cancelou todas as agendas externas nas quais faria sua “despedida” do governo paulista.  Horas depois, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, enviou uma carta aos principais líderes do partido na qual defendeu o resultado das prévias pela primeira vez.  “O governador tem a legenda para disputar a Presidência da República. E não há, nem haverá qualquer contestação à legitimidade da sua candidatura pelo partido”, diz a carta. 

Reconhecido pela obstinação, o governador, segundo aliados, já demonstrava uma mudança de comportamento nos últimos dias. Na segunda-feira, 28, por exemplo, o tucano desmarcou, sem justificativa prévia, a reunião semanal que realizava com sua equipe eleitoral após o expediente. Um dos integrantes relatou surpresa pela proximidade da renúncia e posterior início das viagens da pré-campanha. No mesmo dia, Doria não compareceu à abertura do 64º congresso realizado pela Associação Paulista de Municípios (APM), em Campos do Jordão, marcado para esta semana justamente para que Doria se despedisse dos prefeitos da região de forma mais próxima. 

Ainda na semana passada, o marqueteiro anunciado por Doria deixou a pré-campanha. O que se sabe nos bastidores é que Guilhermo Raffo teria pedido para sair após não ser oficialmente contratado pelo PSDB - ele estava trabalhando de forma extraoficial. Os desencontros entre o grupo de Doria e a direção nacional do PSDB sobre a pré-candidatura atrapalhavam o planejamento da equipe do governador, que também estava se desentendendo.

Aliados também relatam que nos últimos dias foi difícil manter contato com o irmão do governador, Raul Doria, de quem ele é muito próximo. O tucano teria, portanto, tomado a decisão praticamente de forma isolada e, não por acaso, depois que Eduardo Leite renunciou ao cargo de governador do Rio Grande do Sul, colocando-se publicamente como opção dentro do PSDB. Isso apesar de ter perdido para Doria o processo de prévias.

O fato de Leite estar agora livre para ser alçado ao posto de pré-candidato a presidente ou a vice - possibilidade tratada como mais provável pelos próprios tucanos - aumentou não só a pressão sobre o desempenho de Doria nas pesquisas (o tucano tem apenas 2% de intenção de voto), mas como seu isolamento dentro do partido. Para piorar, o deputado Aécio Neves (PSDB), seu principal desafeto interno, foi absolvido pela Justiça da acusação que respondia desde 2017 por supostamente ter recebido R$ 2 milhões em propina da JBS.

Com o grupo de Aécio fortalecido dentro do partido, e apoiando as pretensões de Leite, havia o temor de que o resultado das prévias não fosse homologado na convenção do PSDB, que deve ser realizada até agosto. Com a prorrogação do mandato do presidente nacional, Bruno Araújo, também os dirigentes regionais foram mantidos em seus respectivos cargos e Doria não tem maioria na executiva.

Aviso

As primeiras pessoas a serem comunicadas da desistência, antes mesmo do jantar organizado pelo empresário e amigo Marcos Arbaitman começar, foram o vice-governador, Rodrigo Garcia (que viraria governador com a renúncia de Doria); o presidente da Assembleia Legislativa, Carlão Pignatari (deveria receber a renúncia); e os secretários estaduais da Casa Civil, Cauê Macris; e de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi. Todos do PSDB.

Com agendas públicas canceladas até às 16h desta quinta, quando é esperado um pronunciamento oficial de Doria, aliados ainda tentam reverter a decisão ou amenizar os impactos dela sobre a pré-candidatura de Garcia ao Estado. Mas ainda sob o impacto avassalador da notícia.

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