Joedson Alves/EFE - 28/2/2019
Joedson Alves/EFE - 28/2/2019

Imprensa é alvo de Bolsonaro no Twitter a cada 3 dias

Desde a posse, presidente utiliza sua conta na rede social para 29 publicações nas quais ataca ou questiona a imprensa; entidades criticam episódio envolvendo o ‘Estado’

Matheus Lara, Paulo Beraldo e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2019 | 05h00

Em pouco mais de dois meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro usou sua conta no Twitter para publicar ou compartilhar mensagens nas quais critica, questiona ou ironiza o trabalho da imprensa brasileira. Foram 29 publicações desde a posse até esta segunda-feira, 11, uma média de uma vez a cada quase três dias na rede social que o presidente tem utilizado como principal meio de comunicação com a população.

Quase metade das críticas e acusações contra a imprensa que aparecem na conta de Bolsonaro é feita por meio de retuíte de aliados e familiares, como dos filhos Carlos e Eduardo e as páginas que costumam reunir simpatizantes do presidente.

Foi o caso do site Terça Livre, que neste domingo, 10, publicou texto que falsamente atribui à repórter do Estado Constança Rezende a declaração “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”, ao tratar da cobertura jornalística das movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador e filho mais velho do presidente. 

Na noite de domingo, o próprio Bolsonaro escreveu no Twitter: “Constança Rezende, do ‘O Estado de SP’ diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otavio, profissional do ‘O Globo’. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos”.

A gravação do diálogo, porém, mostra que Constança em nenhum momento fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados.

O texto publicado no Terça Livre tem como origem uma postagem no site francês Mediapart, que disse nesta segunda-feira que as informações que serviram de base para o tuíte de Jair Bolsonaro “são falsas”. O texto original é assinado por Jawad Rhalib, que se apresenta como “autor, cineasta, documentarista e jornalista profissional”. A publicação no site brasileiro é assinada por Fernanda Salles Andrade, que ocupa cargo no gabinete do deputado estadual Bruno Engler (PSL), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Entidades. O caso envolvendo a repórter do Estado ganhou repercussão internacional e enfática reação de entidades que representam empresas de comunicação, jornalistas profissionais e a liberdade de expressão.

Nesta segunda-feira, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) emitiram nota conjunta em que lamentam o ataque do presidente ao Estado e à repórter Constança Rezende.

As entidades afirmaram que os ataques à repórter têm o objetivo de desqualificar o trabalho jornalístico. “Abert, Aner e ANJ assinalam que a tentativa de produzir na imprensa a imagem de inimiga ignora o papel do jornalismo independente de acompanhar e fiscalizar os atos das autoridades públicas”, diz a nota.

Para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o episódio mostra por parte do presidente o “descompromisso com a veracidade dos fatos” e se caracteriza como “o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas”.

Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga afirmou que o ataque é um atentado à liberdade de imprensa. “O presidente e seus seguidores tentam intimidar os profissionais jornalistas por meio de agressões verbais e ameaças”, declarou.

Procurados nesta segunda-feira, integrantes do governo Bolsonaro não quiseram comentar o caso.

Ao eleger a imprensa e veículos de comunicação como alvo, o presidente costuma fazer comentários em tom irônico e acusações de fake news. Em quatro postagens, consideradas em levantamento anterior do Estado, Bolsonaro também divulgou entrevistas que concedeu à TV Record e a um canal italiano, e um discurso seu em que fala sobre liberdade de imprensa.

Veja, cronologicamente, todos os ataques do presidente Jair Bolsonaro à imprensa no Twitter:

1º de janeiro - Acusação de fake news contra a Revista Veja

2 de janeir0 - Ataque contra a revista Época:

3 de janeiro - Ironia contra a Globo News

3 de janeiro - Retweet de Carlos Bolsonaro sobre 'fim da mamata' para a 'imprensa marrom'

3 de janeiro - Replicação de fala de General Heleno sobre 'o que a mídia omite' sobre a questão indígena

4 de janeiro - Retweet do 'Isentões' citando a jornalista Leilane Neubarth, da Globo News

5 de janeiro - Acusação de fake news contra O Globo

5 de janeiro - Ataque ao portal Metrópoles

Não há nenhum limite de alguns setores da mídia para inventarem mentiras 24h por dia sem a menor preocupação com a informação: pic.twitter.com/MLNBIRHJoz — Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 5 de janeiro de 2019

5 de janeiro - Retweet de publicação de Donald Trump sobre fake news

There is great anger in our Country caused in part by inaccurate, and even fraudulent, reporting of the news. The Fake News Media, the true Enemy of the People, must stop the open & obvious hostility & report the news accurately & fairly. That will do much to put out the flame... — Donald J. Trump (@realDonaldTrump) 29 de outubro de 2018

8 de janeiro - Sarcasmo a respeito de publicações da Folha de S. Paulo

Um universo paralelo onde a Folha faz as sátiras e a Falha faz o jornalismo sério. https://t.co/UBzvlUIdrH — Falha de S.Paulo (@foIha_sp) 8 de janeiro de 2019

9 de janeiro - Ataque ao 'Estado' por denúncia sobre mudanças em livros didáticos

É notório o nível de desinformação nas manchetes deste jornal. A referida medida foi feita pelo governo anterior e corrigida por nós. A credibilidade jornalistica se constrói com a verdade e não com a integralidade de seu tempo tentando ludibriar o leitor. Lamentável! — Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 9 de janeiro de 2019

11 de janeiro - Comentário sarcástico após publicações sobre indicação de amigos para cargos

Peço desculpas à grande parte da imprensa por não estar indicando inimigos para postos em meu governo! — Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 11 de janeiro de 2019

13 de janeiro - Crítica a respeito de publicação da coluna da jornalista Eliane Cantanhêde no Estadão

Lamento a postura contínua deste jornal diante das boas ações ocorridas nos últimos 13 dias e as melhores que estão por vir! A liberdade de imprensa é necessária e algo que governos anteriores tentavam burlar. Bom trabalho aos senhores e que a verdade sempre prevaleça! — Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 13 de janeiro de 2019

15 de janeiro - Retweet de afirmação que 'armas da grande imprensa são a mentira e a desinformação'

O decreto sobre a posse armas serviu para mostrar que as armas da grande imprensa são a mentira e a desinformação.https://t.co/aiiaHBWIQw — Crítica Nacional (@criticanac) 15 de janeiro de 2019

22 de janeiro - Retweet para ironizar crescimento de hashtag que acusa Estadão de fake news

Estadão diz que bolsonaristas perderam fôlego nas redes e hashtag #EstadaoFakeNews fica em primeiro lugar no Twitter: https://t.co/M77wufmKAt pic.twitter.com/A5r388SnJF — Senso Incomum ⚓ (@sensoinc) 21 de janeiro de 2019

 22 de janeiro - Retweet de publicação de Eduardo Bolsonaro criticando O Globo

A primeira surda a ocupar um cargo no Min. Direitos Humanos, bilíngue e vinda de uma família de surdos geneticamente... E é assim que é o título da matériaEntende o porquê não adianta discutir? pic.twitter.com/H23n4iECPv — Eduardo Bolsonaro (@BolsonaroSP) 21 de janeiro de 2019

23 de janeiro - Retweet do 'Isentões' sobre chamadas do El País

24 de janeiro - Retweet de vídeo publicado por apoiador criticando 'extrema-imprensa'

24 de janeiro - Acusação de fake news contra O Globo

Fake News! Referi-me à missão concluída, reuniões produtivas com Chefes de Estado, voltando ao país que amo, Bolsa batendo novo recorde na casa dos 97.000 e confiança no nosso país sendo restabelecida, isso faz de hoje um grande dia! pic.twitter.com/llfyib2RKC — Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 24 de janeiro de 2019

27 de janeiro - Retweet de ironia sobre conteúdo do 'Jornal Nacional', da TV Globo

31 de janeiro - Acusação de manipulação da mídia em geral

26 de fevereiro - Crítica de que mídia omite informações propositalmente

5 de março - Críticas a suposta publicação irônica da BandNews FM

6 de março - Resposta a seguidor que reclamou ausência de conteúdo positivo sobre o governo na imprensa

7 de março - Reclamação de Heleno sobre reportagem do 'Estadão' sobre gastos com cartão corporativo

10 de março - Publicação de declarações falsas para atacar Estadão e a repórter Constança Rezende

10 de março - Publicação de vídeo com críticas à imprensa

11 de março - Acusação de fake news contra o portal Uol

11 de março - Acusação de fake news contra a Folha de S.Paulo

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