Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram

Fernanda Salles, que assina fake news sobre repórter do 'Estado', assessora deputado do PSL

Fernanda é assessora do parlamentar Bruno Engler, eleito para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Tulio Kruse e Leonardo Augusto, O Estado de S. Paulo

11 de março de 2019 | 14h27
Atualizado 11 de março de 2019 | 18h41

Fernanda Salles Andrade, que assina texto com informações falsas sobre uma jornalista do Estado no site Terça Livre, ocupa cargo no gabinete do deputado estadual Bruno Engler (PSL), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O site reúne ativistas conservadores e simpatizantes ao governo Jair Bolsonaro e, neste domingo, 10, atribuiu falsamente à repórter Constança Rezende a declaração “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”, ao tratar da cobertura jornalística sobre as movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador e filho mais velho do presidente.

Valendo-se das informações falsas divulgadas pelo Terça-Livre, Bolsonaro atacou a imprensa via redes sociais. A suposta declaração, que aparece entre aspas no título do texto de Fernanda, foi atribuída pelo site à repórter. A gravação do diálogo, porém, mostra que Constança em nenhum momento fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados. Em um deles, a repórter avalia que “o caso pode comprometer” e “está arruinando Bolsonaro”, mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido.

A nomeação de Fernanda para atuar no gabinete de Engler foi publicada no dia 2 de fevereiro. A informação foi publicada pelo blog do jornalista Ruben Berta, e confirmada pelo Estado. Segundo ALMG, ela recebe salário de R$ 6.543,69. Engler é um dos principais apoiadores da família Bolsonaro em Minas. Após a nomeação para o cargo, Fernanda assinou dois textos no site Terça Livre que trataram de atividades ocorridas na Assembleia. Ao Estado, Engler disse que não sabe se as postagens feitas pela funcionária partem de seu gabinete (leia mais abaixo). Mais tarde nesta segunda, o deputado publicou um vídeo em suas redes sociais onde aparece ao lado de Fernanda esclarecendo o caso.

Há duas semanas, ela assinou um texto com o título “Deputado do PT defende ideologia de gênero sob forte protesto na ALMG”, em que descreve a participação do deputado Betão em uma comissão que debatia, segundo o texto, “ensino de gênero e sexualidade para crianças a partir dos 6 anos de idade”. No Dia Internacional da Mulher, outro texto de Fernanda diz que um evento na assembleia promovia "doutrinação ideológica", e registra a entrega de panfletos a crianças e adolescentes.

Fernanda aparece em vários vídeos no Youtube, defendendo o governo Bolsonaro. Em um dos mais recentes, a assessora fala sobre o vídeo pornográfico publicado pelo presidente durante o carnaval. Segundo a funcionária do deputado, com o vídeo Bolsonaro “conseguiu constranger os mais radicais socialistas. Ele os colocou diante de um espelho. Não satisfeito, mostrou para o Brasil e para o mundo aquilo que os autoproclamados socialistas defendem. No seu íntimo, ou não”. Após quatro dias, o vídeo teve 89 visualizações.

Ao Estado, Fernanda afirmou que os textos foram escritos fora de seu horário de trabalho. Ela diz ainda que sua atividade no gabinete de Engler não tem relação com sua colaboração para o site. O site atribui as informações a um jornalista francês, identificado pelo Terça Livre como Jawad Rhalib.

A reportagem conversou com Fernanda por telefone e também pessoalmente, no gabinete de Engler. A assessora confirmou ter feito as publicações, mas negou ser autora dos textos.“O que fiz foi uma reprodução da denúncia feita pelo jornalista francês”. Questionada se sabia falar inglês, a assessora disse que sim.

O jornalista Allan dos Santos, editor do Terça Livre, afirmou ao Estado que Fernanda é uma "jornalista independente" e "abertamente conservadora" e que trabalha no site nos momentos em que não está trabalhando no gabinete do deputado Bruno Engler na Assembleia de Minas. 

"Nós defendemos abertamente políticos de direita, nunca escondemos isso dos nossos seguidores. Nossa independência é financeira. Não recebemos dinheiro da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República responsável pela verba de publicidade do governo federal) como o Estadão recebe", afirmou Allan dos Santos.

Reponsável pela contratação na ALMG, Engler é ligado ao Movimento Direita Minas e gravou vídeos com Bolsonaro durante sua campanha eleitoral. No canal do Direita Minas no Youtube, há também um vídeo de autoria do Terça Livre. Gravado durante a campanha eleitoral, em julho do ano passado, o vídeo traz uma imagem de Fernanda e a gravação de uma entrevista por telefone com Bolsonaro, então candidato à Presidência da República.

'Não é trabalho de deputado ficar vigiando tela de computador', diz Engler

O deputado estadual em Minas Gerais Bruno Engler (PSL) afirmou nesta segunda-feira, 11, não saber se as postagens feitas pela funcionária partem de seu gabinete. “Não sei se a imprensa sabe, mas não é trabalho de deputado ficar vigiando tela de computador para ver o que o funcionário está postando”, disse ele ao Estado.

O parlamentar afirmou ainda não ver problema algum no fato de a assessora trabalhar em seu gabinete e para o site. “É um portal que respeito muito e admiro”. O deputado disse que, quando a contratou, foi feito pedido para que o expediente fosse por seis horas, para que pudesse trabalhar para o Terça Livre.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.