REUTERS/Adriano Machado (10/12/18)
REUTERS/Adriano Machado (10/12/18)

Governo Bolsonaro se afastou do combate à corrupção, diz Santos Cruz

Em entrevista, ex-ministro também criticou política externa do governo e mudanças no Coaf

Gabriel Caldeira, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2020 | 12h35

O general de reserva do Exército e ex-ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz criticou o governo de Jair Bolsonaro em relação ao combate à corrupção, bandeira eleitoral do presidente na campanha de 2018 e que, segundo o ex-ministro, foi ponto de "desilusão para muita gente".

Santos Cruz falava à BBC Brasil sobre as bandeiras que Bolsonaro defendia em campanha. "Houve algumas mudanças. A primeira delas: a reeleição. Ele dizia que não iria continuar com a reeleição etc, com quatro meses estava aberta a campanha de reeleição. Outra coisa: o combate à corrupção, que foi o carro-chefe, digamos assim, junto com o antipetismo, o combate à corrupção não ficou tão caracterizado e acho até que em alguns pontos se afastou, se afastou disso aí. E isso aí eu acho que trouxe desilusão para muita gente."

Para ele, as mudanças no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) - órgão que foi rebatizado de Unidade de Inteligência Financeira (UIF) e repassado ao Banco Central - e as pressões sobre o diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, contribuíram para o enfraquecimento do combate à corrupção. "O Coaf, quando foi para o Banco Central, muitos percebem que ele trocou de nome e reduziu atividade".

Em constantes viagens desde que deixou o governo, Santos Cruz também foi crítico à política externa do governo, comandada pelo chanceler Ernesto Araújo. Ele a classificou como "completamente ideológica" e responsável por afetar negativamente a percepção de nações estrangeiras sobre o Brasil.

"Desde o discurso de posse do ministro das Relações Exteriores, quase transformando a Bíblia num plano de governo, e outras como a parte de mudar nossa embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, a maneira como se aproximou dos Estados Unidos. (Quero dizer,) Não se aproximou, porque nós somos próximos dos Estados Unidos, mas a maneira como mostrou essa prioridade sem nenhum cuidado."

Santos Cruz foi demitido em junho por Bolsonaro. Era vinha sendo alvo de ataques do escritor Olavo de Carvalho e do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente. O então ministro integrava o núcleo duro do Palácio do Planalto e foi o terceiro ministro a deixar o governo.

Amigo de longa data de Bolsonaro, Santos Cruz integrou sua equipe de pentatlo militar, nos anos 80, e exerceu papel de comandante das tropas de paz da ONU no Congo e no Haiti. 

Dias depois de ser demitido, Santos Cruz classificou o governo Bolsonaro como um "show de besteiras".  "Se você fizer uma análise das bobagens que se têm vivido, é um negócio impressionante. É um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante", afirmou Santos Cruz à época.

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