Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Governo Bolsonaro é um 'show de besteiras', diz Santos Cruz a revista

Em entrevista, ex-ministro critica governo por perder tempo com 'bobagens' e acredita 'não ter chances' de cultivar amizade com o presidente

Paulo Roberto Netto, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2019 | 16h00

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido na semana passada da Secretaria de Governo da Presidência da República, criticou a gestão Bolsonaro por perder tempo com "bobagens" e "fofocagem" quando deveria priorizar ações relevantes do governo para o País. As declarações foram dadas em entrevista à revista Época na última terça, 18, e publicada nesta quinta, 20.

"Se você fizer uma análise das bobagens que se têm vivido, é um negócio impressionante. É um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante", afirmou Santos Cruz. "Tem muita besteira. Tem muita coisa importante que acaba não aparecendo porque todo dia tem uma bobagem ou outra para distrair a população, tirando a atenção das coisas importantes". O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira, 20, que a demissão é "página virada".

Sem mencionar nomes, o general afirmou que "essas brigas por Twitter" não são o que interessa para o Brasil e que o País "não pode continuar discutindo esse nivelzinho de coisa". 

"Se você tem alguma coisa contra a pessoa, você tem de falar individualmente. O que acontece é que os recursos todos de tecnologia estão fazendo muita gente esquecer que a melhor maneira de você se comunicar, principalmente entre pessoas públicas, não é de maneira pública. É pessoalmente", afirmou.

Apesar do relacionamento de longa data, Santos Cruz disse que "não tem chance de cultivar essa amizade" com o presidente. “Ele está no governo como presidente da República. Não tem nem oportunidade de que isso seja cultivado porque a pessoa está em outras atribuições que tomam muito a vida da pessoa. Deixa governar. Tomara que dê tudo certo”. 

Santos Cruz afirmou não ter falado com Bolsonaro desde a demissão e, apesar de considerar a substituição "uma coisa normal", disse que não perguntou o motivo da demissão. "A partir da hora que decidiu, não vou ficar gastando tempo para discutir o porquê. É mais uma obrigação da pessoa explicar. Não é só direito meu saber, como também é obrigação da pessoa explicar. Ele não explicou", disse.

O general também evitou comentar fatos anteriores à sua demissão. "Tem de saber, nesta vida, a hora em que fala e a hora em que não fala", afirmou. "Mas, quando passar essa fase, vou escrever alguma coisa”.

Ataques. Santos Cruz foi substituído pelo general Luiz Eduardo Ramos, que é amigo de Bolsonaro. Antes da demissão, havia sido alvo de uma série de ataques dos filhos do presidente e de Olavo de Carvalho, guru do governo federal.

Em 4 de maio, Olavo disparou uma série de críticas ao general em sua conta do Twitter. "Santos Cruz e Ciro Gomes são aqueles tipos de bandidinhos que não podem receber um elogio sem respondê-lo com insultos, para mostrar que são gostosões. B... em toda a extensão do termo", escreveu em um dos posts. 

"Vocês acham que o Santos Cruz tem capacidade para ler e analisar uma só página da minha filosofia? O que ele tem, sim, é a capacidade de fofocar e difamar pelas costas", acrescentou em outro.

Ex-comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas saiu em defesa do colega. Chamou Olavo de "Trótski de direita", em referência ao revolucionário bolchevique, figura central da guerra civil russa. 

"Mais uma vez o sr. Olavo de Carvalho a partir de seu vazio existencial derrama seus ataques aos militares e as Forças Armadas demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de mínimo de humildade e modéstia", escreveu em uma nota nas redes sociais. 

"Verdadeiro Trótski de direita, não compreende que substituindo uma ideologia pela outra não contribui para a elaboração de uma base de pensamento que promova soluções concretas para os problemas brasileiros", disse.

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