Reprodução/Brazil Forum UK
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Não se deve pressupor que as instituições vão sempre funcionar, diz FHC: 'Momento preocupante'

Ex-presidente tucano foi o primeiro entrevistado na edição 2020 do Brazil Forum UK, transmitido pelo Estadão

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 16h50

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse que o Brasil vive um momento preocupante com ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e que não se pode dar como certo que, na democracia, as insituições vão sempre funcionar. "Risco depende das circunstâncias de quem fale em nome da democracia e de quem a defenda", afirmou em entrevista no Brazil Forum UK 2020, evento da comunidade de estudantes brasileiros no Reino Unido.

"Na questão da democracia, não se deve dar por assente que as instituições vão funcionar. Não estamos nos Estados Unidos ou na Inglaterra, onde as instituições provavelmente funcionam. É verdade que há liberdade de imprensa, Congresso assumindo posições, mas tem um problema: o povo está em casa com medo por causa do coronavírus, não se sente reação popular", disse o tucano. 

FHC disse que o Brasil pode cair no autoritarismo se não houver reação a fatos como os ataques contra o STF no domingo, 14. Perto da meia-noite de domingo, cerca de 30 manifestantes bolsonaristas autodenominados “300 do Brasil” simularam com fogos de artifício um ataque ao STF. Os fogos foram disparados às 21h30 na direção do edifício principal do STF, na Praça dos Três Poderes, enquanto os manifestantes xingavam ministros da Suprema Corte. Nesta segunda, uma das líderes do grupo, a ativista Sara Winter, foi presa.

"Hoje vivemos um momento preocupante, com atentado simbólico ao STF sem reação de autoridades maiores. Há um clima em que você sente que as instituições estão com vigor, querendo reagir", analisou FHC. "Mas nessa horas de dificuldade, não tenhamos dúvida, a instituição fundamental são as Forças Armadas. Nunca se sabe muito bem, mas não creio que eles tenham, como tinham em 64, um projeto, (como foi em 1964) de segurar a esquerda. Eles estão, acredito eu, com a Constituição. O terreno é escorregadio. Você pode sem querer cair no autoritarismo, se não houver reação. Não vejo sinais na sociedade um sinal de apoio a um possível fechamento, à perda de liberdade."

O tucano elencou sinais de um possível rompimento institucional com rumo ao autoritarismo: para ele, é o fim do apoio no Congresso, a existência de mobilizações nas ruas e a tomada de medidas com viés autoritário.

"A retórica do presidente vai no sentido do autoritarismo, mas na mão dele não se sente a espada. Estamos na zona cinzenta, ainda bem. Vai depender da reação. O STF reagiu bastante fortemente em função do que ocorreu ontem (no domingo). O que não vejo ainda é o caminho definido, o rumo. Mesmo (Bolsonaro) não tendo esse projeto (de autoritarismo), ele pode chegar lá. É um momento perigoso."

FHC disse ver o presidente Bolsonaro tão perdido quanto os brasileiros em meio à crise do coronavírus. "A sensação que temos é que estamos perdidos e o presidente também. O governo está um pouco sem rumo. O rumo era reorganizar a questão fiscal, mas com a crise sanitária tem que gastar mais, não menos. Numa crise, a primeira coisa é chamar quem entende do assunto. Depois, explicar à população, dizer os rumos, os caminhos."

O Brazil Forum UK continua até o dia 10 de julho, todos com transmissão exclusiva no Estadão. O evento é gratuito e não necessita de inscrição. É possível acompanhar as discussões no portal estadao.com.br, nas redes sociais Twitter (@estadao) e Facebook e no canal do Estadão no YouTube. Assista abaixo.

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