Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Em reunião televisionada de Bolsonaro e ministros, palavrões dão lugar a apresentações de Powerpoint

Os ministros considerados mais polêmicos, como o da Educação, Abraham Weintraub, ficaram longe dos discursos

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2020 | 13h20

BRASÍLIA - Se a discussão sobre o novo coronavírus ficou à margem da polêmica reunião ministerial do dia 22 de abril, a pandemia foi o principal tema do encontro desta terça-feira, 9, no Palácio da Alvorada, que, desta vez, contou com transmissão ao vivo. Diante dos holofotes, os mais de 40 palavrões ditos pelo presidente Jair Bolsonaro e seus auxiliares na reunião tornada pública pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, foram substituídos por intervenções polidas e uma apresentação de PowerPoint sobre as ações de combate à covid-19.

Bolsonaro questionou ali orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e defendeu, mais uma vez, o fim do isolamento social. O ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello lamentou, por sua vez, as milhares de mortes no País e tentou justificar a mudança na contagem de casos e óbitos, mas virou meme nas redes sociais ao mencionar o inverno no Nordeste.

“Para efeito da pandemia, nós podemos separar o Brasil em Norte e Nordeste, que é a região que está mais ligada ao inverno do Hemisfério Norte (...) e ao Centro-Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que é o restante do País, que está ligado mais ao inverno do Hemisfério Sul”, disse Pazuello.

Não tardaram fotos de pessoas com casacos pesados invadindo as mídias digitais. “Com o dólar alto, esse ano não vou poder ir para Aspen! Estou pensando em esquiar no Brasil mesmo, ainda estou em dúvida entre Teresina e Fortaleza. Aceito sugestões”, ironizou no Twitter um usuário que se identificou como Coronel Siqueira.

Embora tenha feito referência ao inverno de forma genérica, o que provocou confusão nas redes sociais, Pazuello mencionou as diferenças entre as regiões do País que marcam o período de maior sazonalidade da gripe. Na região Norte, que inicia em dezembro o período conhecido como "inverno amazônico", por exemplo, a transmissão de vírus respiratórios é maior entre março e maio, meses marcados por períodos chuvosos. Neste caso, especialistas costumam falar em período chuvoso e não chuvoso, e não em inverno e verão.

Ao contrário do que ocorreu no encontro de abril, marcado por xingamentos, pitos de Bolsonaro e até bate-boca entre ministros, apenas alguns auxiliares foram selecionados ontem para falar. Ao vivo, eles aproveitaram para fazer um balanço de suas pastas, arquivando posições de confronto.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, que na reunião de abril havia defendido a prisão de ministros do Supremo, chamando magistrados de “vagabundos”, ficou longe do microfone.

Bolsonaro usou dados da OMS de forma distorcida, ao dizer que os pacientes assintomáticos possuem chance de transmissão “próximo de zero”. O presidente bateu nessa tecla para defender a retomada das atividades econômicas. O Brasil possui mais de 700 mil casos da covid-19 e mais de 37 mil mortes decorrentes da doença.

"Isso não é um dado comprovado, nós sabemos, mas é um dado bastante importante porque todas as observações da OMS conduzem para isso. É algo que tem que ser debatido, porque tem reflexo imediato no futuro do nosso Brasil", disse ele. A OMS, no entanto, alertou que há perigo de pessoas pré-sintomáticas transmitirem o vírus.

Sem ser contestado em nenhum momento, Bolsonaro relembrou que quebrou o isolamento social ao visitar recentemente comerciantes no Distrito Federal e, mesmo admitindo que a saída representava risco, disse que outros líderes deveriam fazer o mesmo. "Eu fui ver como esses informais estavam sobrevivendo, é de cortar o coração. Eu tinha que estar na ponta da linha até colocando em risco a minha saúde tendo em conta a minha idade, estando no grupo de risco", afirmou.


 

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