Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Em cultos para 6 mil pessoas, pregação contra o aborto

Futura ministra também critica a discussão da ideologia de gênero e diz que só igreja evangélica vai ‘mudar a nação’

Renan Truffi e Leonardo Augusto, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 05h01

Correções: 07/12/2018 | 12h39


Pastora e advogada, Damares Alves, de 54 anos, é conhecida no meio evangélico por ser crítica à chamada “ideologia de gênero” e ao feminismo. Também já disse que é a igreja evangélica, e não a política, que “vai mudar a nação”, e que “ninguém nasce gay”. Nas palestras disponíveis na internet ou nas entrevistas que costuma conceder a sites, Damares costuma criticar ainda a “guerra” entre homens e mulheres. 

“As feministas promovem uma guerra entre homens e mulheres. Me preocupo com a ausência da mulher de casa. Hoje, a mulher tem estado muito fora de casa. (Me preocupam) funções que a mulher tinha no passado, principalmente em relação às crianças”, afirmou em entrevista a um veículo identificado como Expresso Nacional. “Eu costumo brincar o seguinte: como eu gostaria de ficar em casa, toda tarde, numa rede, me balançando, e meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de joias e presente. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas, infelizmente, não é possível, temos de ir para o mercado de trabalho.”

Na mesma entrevista, ela chama a ideologia de gênero de “morte”. Desconhecida entre movimentos de direitos humanos ou de mulheres, Damares está na política há três anos. Desde 2015, ela ocupa o cargo de auxiliar parlamentar júnior, cuja remuneração é, atualmente, de R$ 5.488,95, sem os descontos, e está lotada no gabinete do senador Magno Malta (PR-ES). 

Lagoinha. Pastora voluntária na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), uma comunidade evangélica que reúne cerca de 30 mil pessoas na capital mineira, Damares costuma reunir 6 mil pessoas nos cultos que ministra na cidade. “A visão dela é dentro dos princípios bíblicos”, diz o assessor na Assembleia de Minas Ricardo Coutinho, que há trinta anos frequenta a igreja. A futura ministra é contra o aborto e defende a chamada Escola Sem Partido.

Damares tem forte atuação na área da proteção à criança e adolescente. Em seus cultos, afirma ter sido violentada aos seis anos de idade por um integrante da igreja que frequentava. “Isso a impediu de ter filhos”, afirma o pastor Washington Sá. Em suas aparições públicas, Damares aborda ainda a questão indígena. A futura auxiliar de Bolsonaro apoia a atuação de missionários que trabalham em aldeias tentando acolher crianças banidas de tribos por terem nascido com algum tipo de deficiência.

Em uma pregação de 2013 na Igreja Primeira Batista, em Campo Grande (MS), disse que não é verdade que o aborto é questão de saúde pública, como defendem especialistas. 

Numa palestra em 2016 Damares usou um livro do autor Zep, “Aparelho sexual e cia.”, com mais de 2 milhões de cópias vendidas na Europa, como exemplo de como professores estariam tentando “erotizar” as crianças brasileiras. “Esse é terrível”, disse a pastora, que garante que o livro é oferecido “para ensinar para crianças de dois anos como é uma relação sexual”, disse. O livro, jamais foi indicado para crianças de dois ou três anos. Seu autor, Philippe Chappuis, disse ao Estado que não se trata de erotizar a infância. / COLABOROU MARIANNA HOLANDA E JAMIL C HADE

Correções
07/12/2018 | 12h39

Diferentemente do publicado, quem declarou que a pastora e futura ministra não teve filhos por ter sido violentada na infância foi o pastor Washington Sá e não Fernando Borja, como publicado na versão anterior.

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