'É um assunto extremamente sério, precisa ser verificada a responsabilização', diz Santos Cruz

Ministro da Defesa enviou um interlocutor para falar ao presidente da Câmara, Arthur Lira, que não haveria eleições sem voto impresso

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 14h29

BRASÍLIA - O general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro, criticou o fato do ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, enviar um interlocutor para falar ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), que não haveria eleições sem voto impresso. A informação foi revelada em reportagem do Estadão publicada nesta quarta-feira, 22.

"É um assunto muito sério fazer uma ameaça de não haver eleição. Eleição é um dos fundamentos da democracia, é uma coisa que não pode ser ameaçada", afirmou Santos Cruz ao Estadão. "Uma coisa é o aperfeiçoamento do sistema eleitoral, você pode discutir. Agora, a existência da eleição, não. A existência da eleição não pode ser contestada", criticou o general, que era aliado de Bolsonaro, mas saiu do governo após entrar em conflito com os filhos do presidente.


Para o ex-ministro Santos Cruz, o Ministério da Defesa não pode tratar de assuntos eleitorais. "Esse tipo de assunto não é assunto do Ministério da Defesa. O ministério da Defesa trata da operacionalidade das tropas, da capacidade das instituições militares, tem uma série de assuntos que são próprios do Ministério da Defesa. Eleição é um assunto mais do Poder Legislativo", disse.

Além do recado enviado a Arthur Lira por meio de um interlocutor, Braga Netto subiu, em maio, em um palanque político ao lado de Jair Bolsonaro. Na ocasião, o presidente defendeu justamente o voto impresso e acusou o sistema eleitoral de fraude.

A proposta de emenda à Constituição (PEC) do voto impresso é uma das principais bandeiras políticas do presidente Jair Bolsonaro, que já deu declarações consideradas golpistas ao dizer que “ou fazemos eleições limpas ou não temos eleições”. Por articulação de presidentes de partidos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o texto está sem apoio para ser aprovado na Câmara.

Bolsonaro afirma, seguidamente, que sem esse mecanismo as eleições serão fraudadas. Ele também repete, sem nunca ter apresentado qualquer prova, que teria vencido a eleição de 2018 já no primeiro turno e que o deputado Aécio Neves (PSDB) venceu a disputa de 2014, algo que o próprio tucano disse não acreditar.  

O ex-ministro da Secretaria de Governo afirmou que o recado enviado ao presidente da Câmara precisa ser mais aprofundado. "É um assunto extremamente sério, precisa ser verificada a responsabilização. Pela natureza do assunto, precisa de maior aprofundamento".

De acordo com o general, a cultura institucional dos militares não compactua com o discurso do presidente de questionamento das eleições. "A cultura militar não se encaixa com esse tipo de coisa. A cultura militar é muito institucional, é muito constitucional", declarou.

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