Divulgação/ Partido Novo
Divulgação/ Partido Novo

Disputas internas devem afetar posição do Novo em 2022

Alas do partido defendem estratégias diferentes para se apresentar como ‘terceira via’ no pleito

José Fucs, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 04h59

As divergências políticas e partidárias que atingem o Novo já afetaram o seu desempenho nas eleições municipais do ano passado e devem ter repercussão também no pleito de 2022. A campanha já está decolando, mas o Novo, perdido em disputas internas, patina, sem saber ainda como vai se posicionar no pleito.

Hoje, diante do racha em relação ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro e à posição do partido sobre o governo, ficou difícil dizer se a legenda vai marchar unida para a disputa ou se haverá uma ruptura definitiva entre as duas correntes em que se dividiu. "A grande preocupação da maioria das lideranças do partido – e eu me incluo nisso – é ser confundido como uma linha auxiliar ou como um partido bolsonarista", diz Eduardo Ribeiro, presidente do Novo. "Isso não é verdade."

Ironicamente, as duas correntes defendem que o Novo se apresente como uma "terceira via", ou seja, como uma alternativa à polarização entre Bolsonaro e a esquerda. A diferença entre elas neste quesito é a estratégia que cada uma pretende adotar para a legenda se posicionar como tal.

A ala liderada por João Amoêdo, fundador, ex-presidente do partido e ex-candidato à Presidência em 2018, aposta que a melhor estratégia para se mostrar como terceira via é se colocar claramente como uma força de oposição a Bolsonaro, de acordo com a diretriz aprovada pelo Diretório Nacional no dia 6 de março.

Já a ala que reúne o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a bancada federal do partido e boa parte de seus deputados estaduais e vereadores, quer que o Novo se mostre acima da polarização que contagiou o País e se apresente como uma opção independente, que possa atrair quem votou em Bolsonaro, ainda que no segundo turno, e tenha se decepcionado com ele.

"O que nós vamos fazer em 2022? É isso que vai enterrar o partido ou fazê-lo renascer", afirma o cientista político Christian Lohbauer, candidato a vice na chapa de Amoêdo em 2018 e um dos signatários da ata de fundação do Novo, em 2011, que faz parte da ala que defende uma posição de independência. "O nosso discurso deve ser de que nós somos a alternativa viável. Não precisa bater em ninguém. O pensamento binário nos coloca numa posição igual a todos."

"Acredito que o partido deve ter um posicionamento claro de oposição ao governo. Na minha ótica, o Novo deve se comprometer a respeitar as instituições, o Congresso, o Supremo, a imprensa e a ter uma postura de diálogo. Deve se comprometer a cuidar do meio ambiente, cortar privilégios e benefícios, retomar uma operação como a Lava Jato, ser contra a impunidade", diz Amoêdo. "Se não, nós vamos acabar endossando a tese de que se você é contra a esquerda é porque está com o governo."

Da definição do posicionamento do Novo, dependerá a escolha de seu candidato em 2022 e até se o partido vai lançar candidato próprio ou apoiar o de outra sigla.  Embora Amoêdo esteja afastado de qualquer cargo na direção partidária desde março de 2020, ele trabalha para ser novamente o candidato à Presidência do Novo. Sonha em ter o apoio do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua, que adotaram posições semelhantes às suas e até organizaram juntos com ele um abaixo-assinado pelo impeachment, que conta com cerca de 315 mil assinaturas.

"As pessoas querem saber quem estão elegendo, o que o candidato pensa, o que se propõe a fazer. Ninguém quer mais surpresa", afirmou recentemente o fundador do Novo. "Isso me favorece dentro do partido, porque tenho sido muito enfático naquilo que defendo."

A ala ligada aos mandatários do partido ainda não tem um nome para ser o candidato da sigla, mas já sabe que não quer que seja Amoêdo. "Se ele quiser ser presidente a chance do partido cai demais", diz Lohbauer. "Acredito que o Amoêdo não será nosso candidato à Presidência da República", afirma Mateus Simões, secretário-geral do governo de Minas e homem de confiança do governador, Romeu Zema, que deverá ser candidato à reeleição. "Isso seria um erro. Agora, de qualquer forma, nós vamos chegar em 2022 sem ninguém estar pedindo voto para Bolsonaro, mas com algumas pessoas sendo lidas como tendo um perfil mais próximo do atual governo e outras, como mais distante."

Os representantes da corrente que inclui a bancada federal e a maior parte dos mandatários do Novo falam no nome do empresário Salim Mattar, ex-secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia, mas ele está envolvido na tentativa de criação de um novo partido de centro-direita, com viés liberal-conservador no País, a partir de uma das legendas já existentes.

Outro nome cogitado pelo grupo é o de Bernardinho, ex-técnico da seleção brasileira de vôlei e hoje treinador da equipe de vôlei do Flamengo. Bernardinho chegou a ser cotado para disputar uma vaga ao Senado ou o governo do Rio de Janeiro em 2018, mas acabou decidindo não participar do pleito em razão da resistência de sua mulher na época, a ex-jogadora Fernanda Venturini, a que ele se candidatasse a algum cargo político. Separado de Fernanda desde o fim do ano passado, Bernadinho poderia estar mais aberto, no entender das lideranças da "ala independente", a participar das eleições do ano que vem. Procurado pelo Estadão para falar sobre uma eventual candidatura e sobre os conflitos no partido, ele não deu retorno à reportagem. 

A questão é que, com tantas incertezas, o Novo terá de se dedicar por ora a resolver as suas divergências e a pacificar as suas fileiras, para poder se fortalecer para a disputa. Ou, então, deixar a cizânia prevalecer, levando a uma ruptura definitiva entre os dois grupos, e chegar a 2022 com a musculatura enfraquecida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.