João Allbert/ Futura Press (26/06/2019)
Ex-presidente do Partido Novo, João Amoêdo. João Allbert/ Futura Press (26/06/2019)

Racha no Novo vai além de conflitos por impeachment e oposição a Bolsonaro

Em guerra com o fundador João Amoêdo, lideranças e mandatários do partido apontam problemas de governança como origem da discórdia

José Fucs, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

O dia 12 de fevereiro de 2021 tinha tudo para ser comemorado com pompa pelo partido Novo. Fundado pelo financista João Amoêdo e por mais 180 apoiadores sem experiência política, para lutar pelo liberalismo econômico e pela moralização da vida pública, o Novo completava 10 anos de vida.

Mesmo com um desempenho que deixou a desejar no pleito municipal de 2020, no qual elegeu apenas 29 vereadores e um prefeito (Joinville-SC) em todo o País, e com uma queda de 15% no número de filiados no ano passado, de 48.429 para 41.218, não faltavam motivos para celebrar a data.

Único partido a não usar recursos dos pagadores de impostos para sobreviver e financiar as suas campanhas, o Novo tem, hoje, além dos representantes municipais, o governador de Minas Gerais, 8 deputados federais, 12 deputados estaduais e um deputado distrital.

Em 2018, nas eleições para a Presidência, as primeiras que o Novo disputou, Amoêdo ficou em quinto lugar, com quase 2,7 milhões de votos, o equivalente a 2,5% do total, à frente de nomes tarimbados, como o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), a ex-senadora Marina Silva (Rede), o senador Álvaro Dias (Podemos) e o ativista Guilherme Boulos (PSOL).

Mas, exceto por um comunicado oficial no site do partido e algumas manifestações acanhadas nas redes sociais, o aniversário que marcava sua primeira década de atividade passou praticamente em branco – e não só por causa das restrições impostas pela pandemia. O Novo vive uma guerra fratricida e a sua maior crise desde a fundação, em 2011. "O partido passa por um momento delicado, muito delicado", diz um dos principais doadores do Novo, que prefere se manter na sombra.

Polarização

De um lado, está Amoêdo, que ficou sem função na direção partidária depois de ter renunciado à presidência, em março de 2020, para, segundo ele, "ter mais disponibilidade de tempo", "mostrar que o Novo não depende só de uma pessoa" e "ter um pouco mais de liberdade" para expor as suas posições, sem que elas tenham uma conotação institucional. Do outro, estão os políticos do partido, aí incluídos o governador de Minas, Romeu Zema, a bancada federal e a maior parte de seus deputados estaduais e vereadores.

Nas últimas semanas, o conflito entre os dois grupos se acirrou, levando a uma polarização tóxica de lideranças, filiados e simpatizantes da legenda. As divergências chegaram a tal ponto que, de acordo com informações obtidas pelo Estadão, Amoêdo praticamente não fala com Zema, principal mandatário do partido, nem com os deputados federais da legenda, a não ser por uma ou outra mensagem protocolar via WhatsApp.

'Milagre'

Amoêdo defende de forma fervorosa que o Novo apresente um pedido de impeachment de Bolsonaro e estimulou a adoção de uma postura de oposição em relação ao governo, aprovada pelo Diretório Nacional, o órgão máximo do partido, em 6 de março, depois de muita controvérsia. Zema e a maioria dos mandatários se colocam contra as duas propostas e queriam que o partido mantivesse a postura de independência adotada desde a posse do presidente, em 2019, com apoio do próprio Amoêdo, mas foram derrotados nesta questão.

A decisão do Diretório Nacional representou uma espécie de compensação para Amoêdo, que havia amargado um revés no fim de janeiro, com a decisão do partido de não patrocinar por ora um pedido de impeachment de Bolsonaro. Inflamado por Amoêdo, o Diretório Nacional do Novo tentou impor a posição defendida por ele à bancada da Câmara, mas a proposta foi rechaçada por seis de seus oito deputados federais, que ameaçaram se desligar da sigla se ela fosse levada adiante. Zema também se colocou contra a medida.

Para evitar um racha definitivo, de consequências imprevisíveis para o futuro partidário, o órgão teve de recuar. "O partido não acabou por milagre", afirma Christian Lohbauer, que foi candidato a vice-presidente na chapa de Amoêdo, integrante do Diretório Nacional e um dos signatários da ata de fundação do Novo, em 2011.

'Clones do Amoêdo'

Até o atual presidente da legenda, Eduardo Ribeiro, que era considerado um amoedista, como são chamados os seguidores de Amoêdo, e vem adotando uma postura mais independente nos últimos tempos, posicionou-se contra o fundador em relação ao impeachment, para evitar a ruptura, apesar de ter apoiado a decisão do partido de se colocar como oposição ao governo. "O impeachment é um processo muito longo e o Bolsonaro conseguiu comprar um certo tempo ao se aliar com o Centrão", diz. "Acredito que vale mais a pena a gente colocar todas as nossas energias na construção de uma alternativa ao bolsonarismo e ao petismo para 2022."

Amoêdo, porém, parece disposto a "esticar a corda", para forçar o expurgo dos "infiéis" do partido, incluindo algumas de suas principais estrelas, como demonstrou ao estimular a aprovação da postura de oposição do Novo no começo do mês, e poderá voltar à carga para que a sigla se coloque a favor do impeachment. "Acredito que deveria ser um caminho natural para o partido dizer se houve crime de responsabilidade do presidente e se deve haver pedido de impeachment", afirma. "Se isso for feito, pode até haver uma cisão, mas o partido sairá fortalecido, pela coerência."

Guerra de narrativas

Com os ânimos à flor da pele, o conflito ultrapassou os muros partidários e ganhou as redes sociais. Em meados de fevereiro, Amoêdo usou o seu perfil no Twitter para criticar a posição da bancada do Novo contra a prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), que ameaçou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu o AI-5 (leia o quadro abaixo).

Ao menos dois deputados, Alexis Fonteyne (Novo-SP) e Marcel Van Hattem (Novo-RS), reagiram à espetada, fazendo duros comentários em seu post. "Acredito que nem os clones do João Amoêdo iriam se entender com ele. Cada um iria querer ser mais protagonista que o outro", diz Fonteyne. "Seria muito injusto, depois de eu ter trabalhado dez anos para a formação do partido, ter colocado tempo, recursos, não poder dizer que sou contra uma votação da bancada", afirma Amoêdo.

Em meio à guerra de narrativas, os amoedistas passaram a classificar como "bolsonaristas" os mandatários do partido e a ala que os apoia – um rótulo rejeitado de forma veemente pelos atingidos. "Nenhum de nós quis que o Bolsonaro fosse presidente, tanto que lançamos candidato próprio em 2018, e nunca fomos base do governo na Câmara", diz o deputado federal Tiago Mitraud (Novo-MG), que preferiu anular o voto no segundo turno da eleição. 

"Nenhum dos nossos mandatários estará pedindo votos para Bolsonaro quando ele for candidato à reeleição", afirma o secretário-geral do governo de Minas, Mateus Simões, homem de confiança de Zema. "É possível discordar sem ficar tachando os outros de bolsonaristas, para tentar desqualificar as suas posições e os seus argumentos."

'Partido do João'

Como se tudo isso não bastasse, as divergências no Novo, segundo lideranças e filiados, se estendem à organização e ao funcionamento do partido. "As brigas políticas são o reflexo de um problema de governança", afirma Mateus Bandeira, ex-candidato a governador do Rio Grande do Sul pelo Novo e ex-presidente da Falconi, uma das principais consultorias em gestão do País.  Ele se desfiliou da legenda após as eleições e está escrevendo um livro sobre a campanha, no qual dedica alguns capítulos ao partido e a Amoêdo.

Apesar do afastamento do idealizador do Novo da direção, muitas lideranças e filiados dizem que a legenda "tem dono" e continua a ser "o partido do João". Mesmo que seja praticamente unânime a percepção pelo grupo de que o fundador da legenda ainda tenha uma contribuição importante a dar, a visão é de que ele precisa trabalhar mais em equipe e não deve ter a palavra final nas decisões, impondo as suas ideias aos correligionários. "Está todo mundo cansado desse comportamento, O partido não pode se resumir à opinião do João Amoêdo", diz Alexis Fonteyne.

No Diretório Nacional, ao menos dois dos cinco dirigentes são ligados a Amoêdo, de acordo com integrantes do partido, e um flutua para um lado e para o outro, ao sabor dos acontecimentos. Isso acaba inviabilizando a tomada de qualquer decisão que não tenha a bênção de Amoêdo, já que são necessários no mínimo 66,6% dos votos para aprovação de qualquer medida.

Fontes da legenda afirmam que um dos integrantes do Diretório Nacional é amigo de infância de Amoêdo e outros dois trabalhavam em empresas nas quais ele mantinha investimentos pessoais, criando um conflito de interesses que compromete a independência do órgão, embora ele negue os antecedentes das relações com os três. "A informação não é verdadeira", diz.

Aplausos dos amoedistas

Dizem, também, que Amoêdo mantém o controle da Comissão de Ética, apesar de apenas um de seus cinco integrantes ser do tempo em que foi presidente do Novo. O órgão foi o responsável pelas expulsões do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do empresário Filipe Sabará, então candidato à Prefeitura de São Paulo, duas decisões que, apesar dos aplausos recebidos dos amoedistas, geraram desconforto fora do grupo.

Além disso, o órgão foi responsável, entre outras medidas, por repreensões a Fonteyne, porque ele queria usar o auxílio-moradia, por não ser de Brasília, e à vereadora paulistana Janaína Lima, porque ela queria ter nove assessores, em vez dos oito estabelecidos como limite pelo partido, independentemente do número oferecido pela Câmara de Vereadores de São Paulo e outras Casas legislativas.

O fato de a assessoria de imprensa pessoal de Amoêdo ser a mesma do Novo é outra questão que incomoda lideranças do partido, por associar a ele a comunicação partidária e concentrar nele a relação com a mídia. O mesmo acontece em relação à empresa encarregada de cuidar de suas redes pessoais e das redes sociais da legenda. "A informação é pública e está inclusive no site da assessoria", declara Amoêdo.

Ele contesta a afirmação de que ainda tem o controle do partido e diz que, se fosse verdade, a sua posição em favor da apresentação do pedido de impeachment de Jair Bolsonaro teria sido aprovada pelo Diretório Nacional. "Qualquer instituição num primeiro momento depende muito de seu fundador, mas para ter sucesso tem de ficar independente daquela pessoa ou daquele grupo inicial, porque senão não cresce."

Braço político

Há, ainda, uma questão estrutural, relacionada à exclusão dos mandatários das decisões políticas, que costuma causar muito atrito no partido. Como o Novo separa a gestão partidária de seu braço político, não há um canal formal de participação dos mandatários nas decisões, ainda que, eventualmente, eles sejam ouvidos de maneira informal. "Falta comunicação entre o Diretório Nacional e os representantes do partido", diz a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP). 

Para tentar resolver o problema, algumas lideranças passaram a defender a proposta de que o Novo formasse um Conselho Político, que seria composto pelos integrantes do Diretório Nacional e pelos mandatários, mas ela não foi para a frente. "O que está no estatuto do partido é que não deveria haver contaminação das agendas política e administrativa. Mas, na prática, o braço político está sendo subordinado ao braço administrativo, que não leva em consideração o pessoal que está no front, ralando, e isso é um erro crasso", afirma Christian Lohbauer. "O que tem de acontecer é que as orientações, as políticas de ação partidária, para onde nós vamos, o que a gente quer, têm de ser feitas junto com os mandatários."

Por fim, embora a ideia de promover um processo de seleção dos candidatos do Novo, para que eles tenham aderência aos valores e princípios do partido, pareça uma boa solução na teoria, na prática não está funcionando como se imaginava. Lohbauer conta que, no processo seletivo dos candidatos às eleições municipais de 2020, algumas perguntas feitas pelas bancas examinadoras regionais foram "muito mal formuladas". "Quantos votos o João teve nas eleições de 2018?" era uma delas. "Quais são os autores liberais mais conhecidos?", outra.

"Nós não temos pessoas com capacidade de interpretar o ambiente político com a missão de escolher pessoas para serem políticas. Não é que a gente seja idiota. Estamos tentando fazer a coisa certa, mas não temos os entrevistadores mais preparados para ouvir todo mundo pelo Brasil afora", diz. "A gente errou muito em 2020, porque não soube se adaptar, ser maleável, e não se permitiu errar, escolher mais gente, competir em mais lugares. Quis escolher só gente nota 10, na visão sei lá de quem. A sociedade é heterogênea, as pessoas são diferentes, não têm formação política. Não estou dizendo que tem de nivelar por baixo, mas o resultado está aí: lançamos 34 candidatos a prefeito em 5.570 municípios e elegemos apenas um."

Sem solucionar os problemas de governança, os conflitos políticos conjunturais, que envolvem o impeachment de Bolsonaro e a posição partidária em relação ao governo, poderão até ser superados, mas outros, provavelmente, virão mais adiante. As divergências políticas, pelo que representam para o partido e para o País, têm muito mais visibilidade, mas são as questões de governança que acabam, em última instância, por alimentar a discórdia.

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Disputas internas devem afetar posição do Novo em 2022

Alas do partido defendem estratégias diferentes para se apresentar como ‘terceira via’ no pleito

José Fucs, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 04h59

As divergências políticas e partidárias que atingem o Novo já afetaram o seu desempenho nas eleições municipais do ano passado e devem ter repercussão também no pleito de 2022. A campanha já está decolando, mas o Novo, perdido em disputas internas, patina, sem saber ainda como vai se posicionar no pleito.

Hoje, diante do racha em relação ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro e à posição do partido sobre o governo, ficou difícil dizer se a legenda vai marchar unida para a disputa ou se haverá uma ruptura definitiva entre as duas correntes em que se dividiu. "A grande preocupação da maioria das lideranças do partido – e eu me incluo nisso – é ser confundido como uma linha auxiliar ou como um partido bolsonarista", diz Eduardo Ribeiro, presidente do Novo. "Isso não é verdade."

Ironicamente, as duas correntes defendem que o Novo se apresente como uma "terceira via", ou seja, como uma alternativa à polarização entre Bolsonaro e a esquerda. A diferença entre elas neste quesito é a estratégia que cada uma pretende adotar para a legenda se posicionar como tal.

A ala liderada por João Amoêdo, fundador, ex-presidente do partido e ex-candidato à Presidência em 2018, aposta que a melhor estratégia para se mostrar como terceira via é se colocar claramente como uma força de oposição a Bolsonaro, de acordo com a diretriz aprovada pelo Diretório Nacional no dia 6 de março.

Já a ala que reúne o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a bancada federal do partido e boa parte de seus deputados estaduais e vereadores, quer que o Novo se mostre acima da polarização que contagiou o País e se apresente como uma opção independente, que possa atrair quem votou em Bolsonaro, ainda que no segundo turno, e tenha se decepcionado com ele.

"O que nós vamos fazer em 2022? É isso que vai enterrar o partido ou fazê-lo renascer", afirma o cientista político Christian Lohbauer, candidato a vice na chapa de Amoêdo em 2018 e um dos signatários da ata de fundação do Novo, em 2011, que faz parte da ala que defende uma posição de independência. "O nosso discurso deve ser de que nós somos a alternativa viável. Não precisa bater em ninguém. O pensamento binário nos coloca numa posição igual a todos."

"Acredito que o partido deve ter um posicionamento claro de oposição ao governo. Na minha ótica, o Novo deve se comprometer a respeitar as instituições, o Congresso, o Supremo, a imprensa e a ter uma postura de diálogo. Deve se comprometer a cuidar do meio ambiente, cortar privilégios e benefícios, retomar uma operação como a Lava Jato, ser contra a impunidade", diz Amoêdo. "Se não, nós vamos acabar endossando a tese de que se você é contra a esquerda é porque está com o governo."

Da definição do posicionamento do Novo, dependerá a escolha de seu candidato em 2022 e até se o partido vai lançar candidato próprio ou apoiar o de outra sigla.  Embora Amoêdo esteja afastado de qualquer cargo na direção partidária desde março de 2020, ele trabalha para ser novamente o candidato à Presidência do Novo. Sonha em ter o apoio do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua, que adotaram posições semelhantes às suas e até organizaram juntos com ele um abaixo-assinado pelo impeachment, que conta com cerca de 315 mil assinaturas.

"As pessoas querem saber quem estão elegendo, o que o candidato pensa, o que se propõe a fazer. Ninguém quer mais surpresa", afirmou recentemente o fundador do Novo. "Isso me favorece dentro do partido, porque tenho sido muito enfático naquilo que defendo."

A ala ligada aos mandatários do partido ainda não tem um nome para ser o candidato da sigla, mas já sabe que não quer que seja Amoêdo. "Se ele quiser ser presidente a chance do partido cai demais", diz Lohbauer. "Acredito que o Amoêdo não será nosso candidato à Presidência da República", afirma Mateus Simões, secretário-geral do governo de Minas e homem de confiança do governador, Romeu Zema, que deverá ser candidato à reeleição. "Isso seria um erro. Agora, de qualquer forma, nós vamos chegar em 2022 sem ninguém estar pedindo voto para Bolsonaro, mas com algumas pessoas sendo lidas como tendo um perfil mais próximo do atual governo e outras, como mais distante."

Os representantes da corrente que inclui a bancada federal e a maior parte dos mandatários do Novo falam no nome do empresário Salim Mattar, ex-secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia, mas ele está envolvido na tentativa de criação de um novo partido de centro-direita, com viés liberal-conservador no País, a partir de uma das legendas já existentes.

Outro nome cogitado pelo grupo é o de Bernardinho, ex-técnico da seleção brasileira de vôlei e hoje treinador da equipe de vôlei do Flamengo. Bernardinho chegou a ser cotado para disputar uma vaga ao Senado ou o governo do Rio de Janeiro em 2018, mas acabou decidindo não participar do pleito em razão da resistência de sua mulher na época, a ex-jogadora Fernanda Venturini, a que ele se candidatasse a algum cargo político. Separado de Fernanda desde o fim do ano passado, Bernadinho poderia estar mais aberto, no entender das lideranças da "ala independente", a participar das eleições do ano que vem. Procurado pelo Estadão para falar sobre uma eventual candidatura e sobre os conflitos no partido, ele não deu retorno à reportagem. 

A questão é que, com tantas incertezas, o Novo terá de se dedicar por ora a resolver as suas divergências e a pacificar as suas fileiras, para poder se fortalecer para a disputa. Ou, então, deixar a cizânia prevalecer, levando a uma ruptura definitiva entre os dois grupos, e chegar a 2022 com a musculatura enfraquecida.

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'Pode até haver uma cisão no Novo, mas o partido sairá fortalecido', diz Amoêdo

Para o ex-presidente da legenda, que defende o impeachment de Bolsonaro e uma postura de oposição ao governo, as divergências internas em relação às duas questões podem levar a um racha definitivo

Entrevista com

João Amoêdo, fundador do Novo e candidato à Presidência em 2018

José Fucs, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 04h59

O financista João Amoêdo, fundador, ex-presidente do Novo e ex-candidato à Presidência da República em 2018, tornou-se um crítico implacável da maior parte dos mandatários do partido, por eles se posicionarem contra o impeachment do presidente Jair Bolsonaro e resistirem à adoção de uma postura de oposição em relação ao governo.

Afastado de qualquer função partidária desde março do ano passado e sem mandato político, ele passou a usar as redes sociais para dar seus pitacos na política e no partido, estimulando a polarização de representantes, filiados e simpatizantes do Novo sobre os rumos da legenda.

Nesta entrevista ao Estadão, resultado de duas conversas mantidas com ele nas últimas semanas, Amoêdo fala sobre o impacto que as divergências podem ter no futuro do Novo e não descarta um racha definitivo entre as duas correntes.

"Acredito que deveria ser um caminho natural para o partido dizer que não houve crime e não deve haver pedido de impeachment ou chegar à conclusão de que realmente houve alguns crimes e o impeachment faria sentido", afirma. "Se isso for feito, tanto para um lado quanto para o outro, em cima dos fatos, do consenso, da racionalidade, pode até haver uma cisão, mas o partido sairá fortalecido pela coerência."

Está havendo uma polarização muito grande no Novo, da qual, de certa forma, o sr. é o pivô. De um lado, o sr. defende o impeachment do presidente Jair Bolsonaro e uma postura de oposição ao governo (aprovada pelo Diretório Nacional do partido em 6 de março). De outro, a bancada do Novo na Câmara e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, são contra o impeachment e a favor de uma posição independente em relação ao governo. O que está acontecendo com o Novo?

Há, realmente, certa divisão dentro do partido. Há pessoas que são anti-Bolsonaro, por tudo o que ele tem feito, e pessoas que entendem que o Bolsonaro tem lá suas qualidades, que, afinal, o PT saiu, e consequentemente adotam uma linha mais pró-governo. O fato de existirem essas duas correntes e de o partido como instituição ter se colocado (até a semana passada) de forma independente, na linha do “olha, nós elogiamos as coisas boas e criticamos as coisas ruins”, é que acabou gerando essa polarização. Agora, eu não tenho mais qualquer participação na gestão partidária. Então, tudo o que eu falo, as posições que tenho colocado em relação ao governo Bolsonaro e ao impeachment, é em meu nome pessoal, como filiado do partido, e não tem um caráter institucional. 

Embora o sr. tenha se afastado de funções partidárias e não esteja exercendo um mandato político, ainda é visto como o grande líder do Novo. Sua opinião influencia muitos filiados e simpatizantes do partido. Isso não acaba gerando certa confusão em relação à posição do Novo?

Na prática, o que acontece é que, por eu ter sido fundador e principalmente o candidato do partido à Presidência em 2018, acabei ganhando alguma relevância, um status de figura pública, pelo número de seguidores que tenho nas redes. O Novo depende muito de voluntários e muitas vezes não é fácil trazer pessoas para o projeto. Então, estou sempre aberto a participar. Se eu puder ajudar um pouco, atrair gente para ser candidato e passar um pouco da experiência desses 10 anos em que fiquei na direção do partido, vou ajudar, informal ou formalmente mesmo. Talvez, lá na frente, eu possa voltar um pouco à gestão partidária. 

Muitas lideranças, gente que participou da fundação do Novo e até doadores do partido dizem que, mesmo sem exercer funções partidárias, o sr. ainda “manda” no partido. Como o sr. encara essa percepção?

É curioso. Muita gente diz “Ah, o João manda no partido”. Mas o partido não adotou ainda nenhum posicionamento em relação ao impeachment, que eu defendo. Não tem sido isso o que o Diretório Nacional tem pregado nem a grande maioria dos mandatários do partido. Uma das principais razões de eu ter deixado a direção do Novo foi porque achei que era importante sair até para mostrar que não tem essa coisa de “o João é quem manda”. Eu acreditava que era importante fazer uma passagem de bastão no partido, para mostrar que a gente é uma instituição que não depende só de uma pessoa e de um pequeno grupo e vai evoluir ao longo do tempo. Achava que, para a saúde da instituição, era importante ter alternância no poder. Qualquer instituição num primeiro momento depende muito do seu fundador, mas para ter sucesso tem de ficar independente daquela pessoa ou daquele grupo inicial, porque senão ela não cresce.

O que o levou a apoiar o impeachment?

Eu já vinha falando do impeachment há algum tempo e voltei a falar mais forte agora. No ano passado, em março, quando o presidente fez o pronunciamento de que a pandemia era só uma “gripezinha”, fiquei muito indignado, porque estava vendo o quadro na Europa e na Ásia. Vi que ele não teria condições de estar à frente do combate à pandemia, que seria bom que renunciasse. Disse que a gente teria de ficar atento, que cada um dependeria muito de si próprio para se cuidar, porque do governo viria muito pouca coisa. Depois, com a saída do (ex-ministro Sérgio) Moro, o aparelhamento das instituições e aquelas participações em algumas manifestações antidemocráticas, contra o Supremo e contra o Congresso, eu falei que valeria a pena estudar a abertura de um processo de impeachment. De lá pra cá, ele vem só cometendo mais crimes, fazendo agressões às nações estrangeiras, tendo uma condução trágica em toda a pandemia, que culminou com a atuação no caso de Manaus, com a falta de oxigênio. Aí voltei mais forte com essa questão do impeachment. Na minha opinião e na de juristas, já há uma quantidade enorme de crimes cometidos pelo presidente. O que não há ainda é o clima político para o impeachment, mas não tenho dúvida de que é o certo a ser feito. 

Hoje, o sr. diz ser oposição ao governo, mas votou em Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018. O sr. não tem também uma parcela de responsabilidade no que está acontecendo?

Em nenhum momento eu quis apoiá-lo. Votei contra o PT. Na minha visão, aqueles que votaram nele como um antídoto contra o PT no segundo turno, porque era a única opção disponível naquele momento, aqueles que são da direita, liberais e apostavam nas reformas mais estruturais, têm a obrigação de cobrar o que não está sendo feito. A questão é que, no jogo político, como ele ainda tem um nível de aceitação razoável e as pesquisas mostram que ainda tem um porcentual elevado das intenções de voto para 2022, pelo recall, por estar na Presidência, e como ele também tem nas redes sociais uma grande quantidade de seguidores e uma operação muito forte, que destrói reputações, agride qualquer um que fala contra, o que me parece é que muitas pessoas ainda ficam reticentes de se posicionar pelo impeachment, porque isso pode ter outras consequências. 

Na sua avaliação, essa é a melhor estratégia para conquistar quem eventualmente votou no Bolsonaro no segundo turno ou nem votou e busca uma alternativa política de centro e centro-direita?

Acredito que esse posicionamento é fundamental para o partido, até para poder tomar uma decisão em relação às eleições de 2022. O Novo vai lançar candidato ou não vai lançar candidato? Vai propor um candidato alternativo que mude isso que está aí? Na minha ótica, o Novo deve se comprometer a respeitar as instituições, o Congresso, o Supremo, a imprensa e a ter uma postura de diálogo. Deve se comprometer a cuidar do meio ambiente, cortar privilégios e benefícios, retomar uma operação como a Lava Jato, ser contra a impunidade. Se não, nós vamos acabar endossando a tese de que a eleição tem de ser polarizada, não pode ter uma terceira via, e se você é contra a esquerda é porque está com o governo. Há uma demanda por uma terceira via na sociedade, que tem de ser contra o governo e contra a esquerda.

Alguns deputados do Novo dizem que adotam uma postura independente e não apoiam o governo, mas sim as propostas que têm correlação com as ideias do Novo. O sr. é contra essa posição?

Em primeiro lugar, quero dizer que, para mim, a independência é uma virtude. Ser um partido independente deixa você com total liberdade para se posicionar contra ou a favor e dar inclusive mais peso ao seu posicionamento, porque você não tem cargo no governo, não está recebendo privilégios e benefícios. Quando começou o governo, eu mesmo dei uma declaração dizendo que a gente iria ser independente e sempre votaria as pautas que fazem sentido. O Novo foi o maior defensor da reforma da Previdência. Também votamos a favor da Lei da Liberdade Econômica. Estamos sempre falando de privatização, redução do tamanho do Estado, melhoria da eficiência, reforma tributária. Na reforma administrativa, o deputado Tiago Mitraud (Novo-MG) está na Comissão pedindo uma reforma que tenha efeito imediato, ao contrário da proposta do governo, cujos efeitos vão levar anos para aparecer. Agora, o meu ponto é que, passada já mais da metade do mandato, devemos ter uma avaliação do governo como um todo. Isso não quer dizer que a gente não deva e não possa continuar votando as pautas que são alinhadas com o que a gente pensa.

A que o sr. atribui o fraco desempenho do partido em 2020?

Eu estive totalmente afastado das eleições de 2020. Praticamente não participei do pleito com nenhum dos candidatos. Fiz apenas algumas lives, com uma meia dúzia. Mas concordo que tivemos um desempenho aquém do que poderíamos ter tido – e eu atribuo isso justamente ao fato de que a gente ficou um pouco no meio do caminho e não definiu um posicionamento mais firme em relação ao governo (antes das eleições). Acho que isso tirou o nosso protagonismo, passou indefinição para alguns eleitores do partido. Alguns não votaram no Novo, porque achavam que era um partido muito próximo ao Bolsonaro. Outros não votaram porque achavam que era um partido antibolsonaro, É claro que nessas eleições houve outros fatores. Foi difícil fazer campanha, por conta da covid. Além disso, a renovação política que foi muito demandada em 2018,  não teve tanto impacto em 2020. Houve uma busca do político mais tradicional, com mais experiência, mas acho que a falta de um posicionamento também desgastou, para um lado ou para o outro. 

Nas últimas semanas, esse conflito no Novo extrapolou os muros do partido. O sr. criticou a bancada federal e o governador de Minas, Romeu Zema, nas redes sociais e houve um bate-boca com alguns parlamentares do Novo, que responderam à sua publicação. Qual a razão de suas críticas?

A gente tem de tomar cuidado para não cair nessa narrativa de que tenho feito críticas àqueles mandatários dentro do Novo que têm posicionamentos a favor do Bolsonaro ou que não contra o Bolsonaro. Não há nenhuma crítica minha ao governador nem à bancada e não há bate-boca em público. Disse apenas que discordava do voto da bancada pela soltura do deputado Daniel Silveira e pelo fato de que o partido não tinha um posicionamento claro em relação ao governo. No caso do Zema, ele disse que era contra a decisão do Novo de apoiar o impeachment e que achava que o Diretório Nacional estava gerenciando o partido muito dentro de gabinete. Eu simplesmente falei que, se fosse verdadeira essa informação, de que o partido tinha resolvido apoiar o impeachment, eu parabenizava o Novo. Mas não me lembro de ter feito nenhuma crítica ao Zema. Sempre digo que ele é um sujeito trabalhador, honesto, que tem feito um bom trabalho. Agora, ele tem uma posição diferente da minha em relação ao governo Bolsonaro. Não vejo isso como uma crítica ou um bate-boca. Foram esses os comentários que eu fiz. O meu ponto como fundador é criticar a falta de posicionamento, mas nunca os mandatários. Não cabe a mim julgar os mandatários. Isso será feito pelos eleitores nas urnas.

Muitos integrantes da ala que apoia o impeachment e até do Diretório Nacional do partido referem-se à bancada do Novo na Câmara, ao governador Zema e a outras lideranças que defendem uma postura independente do partido como “bolsonaristas”. Tem bolsonarista no Novo?

Eu não saberia dizer se tem, mas não está claro para a grande maioria dos filiados se bolsonarista é ou não bem-vindo no Novo. O que eu sinto às vezes é uma cobrança de filiados. Eles dizem que muitas vezes alguns mandatários são muito duros quando é uma coisa contra o Supremo ou algum outro partido e um pouco menos em relação ao governo. Cobra-se muito, eventualmente, de um governo estadual e não se vê o mesmo nível de cobrança do governo federal. Isso é algo que eu já ouvi as pessoas reclamarem, dando exemplos. 

Em sua visão, o governador Zema, que muitas vezes é colocado como integrante da ala que apoia o governo, é bolsonarista? Os parlamentares do Novo são bolsonaristas?

Não sei dizer, mas o fato é que a imprensa fala muito isso. O carimbo que vem da imprensa e consequentemente chega para os filiados é que tem uma aproximação muito grande com o presidente. Às vezes, o pessoal enxerga uma coisa um pouco diferente da gente. Eu, pessoalmente, não os classifico assim, até porque não acredito que seja muito relevante classificar essas pessoas como bolsonaristas. Como eu disse, o que eu acho é que o partido deve ter um posicionamento claro em relação ao governo (como fez agora o Diretório Nacional).  Não podemos nos esquecer de que o Novo é um partido político. Nós não somos comentaristas de política que podem dizer que o governo tomou essas medidas e foi bem e tomou aquelas outras e não foi tão bem. Nesta altura, já é razoável que a gente tenha uma avaliação mais definitiva, para dar mais unidade ao partido. 

Onde isso vai parar? Vai haver um racha no Novo? Todo mundo que tem mandato pelo Novo vai vestir outra camisa e o partido vai perder sua representação política?

Imaginando que não tenham bolsonaristas dentro do Novo nem antibolsonaristas doentes, todas essas decisões deveriam ser em cima dos fatos, tomadas com racionalidade, para que a gente não caia naquele Fla-Flu que temos visto na política, em que cada um toma o seu lado, independentemente dos fatos, e o que importa é a narrativa em que a pessoa acredita. No Novo, a gente sempre se pautou pela racionalidade, pelo consenso, pela coerência. Então, mais uma vez, para encerrar esse assunto, acredito que deveria ser um caminho natural para o partido dizer que não houve crime nenhum e que não deve haver pedido de impeachment ou chegar à conclusão de que realmente houve alguns crimes e que o impeachment faria sentido, não necessariamente para que o pedido partisse do Novo, mas talvez para endossar outros pedidos. Acho que se isso for feito, tanto para um lado quanto para o outro, em cima dos fatos, do consenso, da racionalidade, pode até haver uma cisão, mas o partido sairá fortalecido, pela coerência. O que eu não acho é que a gente possa tomar qualquer decisão para um lado ou para o outro em cima dos desejos das pessoas. Tem de ser em cima dos dados e dos fatos.

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