Evaristo Sá/AFP
Evaristo Sá/AFP

Descreditar sistemas eleitorais é 'vacina' de Bolsonaro contra futuras derrotas

Para analistas, ao falar de 'interferência externa' nas eleições dos EUA e do Brasil, presidente tenta se prevenir de possíveis futuros tropeços seus e de aliados

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 18h00

Ao pôr em dúvidas os processos eleitorais dos Estados Unidos e até do próprio Brasil, o presidente Jair Bolsonaro não só reforça sua narrativa de questionamento de instituições, mas também tenta já se "prevenir" de possíveis derrotas eleitorais suas e de seus aliados, como Donald Trump. Esta é a avaliação de analistas ouvidos pelo Estadão sobre as declarações do presidente a respeito do processo eleitoral americano, que vive nesta terça, 3, seu Dia D. 

Bolsonaro criticou a "ingerência de outras potências" no atual processo eleitoral dos Estados Unidos e já lançou dúvidas sobre possíveis interferências na eleição de 2022 no Brasil, na qual ele pretende tentar a reeleição. "É inegável que as eleições norte-americanas despertam interesses globais", publicou Bolsonaro no Twitter. "Por isso há sempre forte suspeita da ingerência de outras potências no resultado final. No Brasil, poderemos sofrer uma decisiva interferência externa, na busca, desde já, de uma política interna simpática a essas potências, visando às eleições de 2022."

Bolsonaro quer criar uma 'vacina' política para possíveis reveses eleitorais do futuro, tanto de Trump como de Bolsonaro, e já colocando a disputa municipal nesta conta. Os candidatos de Bolsonaro estão indo bastante mal", diz Marco Konopacki, cientista político da Syracuse University, nos Estados Unidos. Ele alerta que o alinhamento a um candidato é ruim para a relação entre os Estados. "Bolsonaro se alinha à política um candidato a presidência e não faz uma relação republicana entre Estados. É algo ruim."

O presidente tem um histórico de críticas ao sistema eleitoral brasileiro, com acusações de fraude e defesa do voto impresso. Mesmo depois de ser eleito presidente pelo sistema, Bolsonaro mantém críticas. Em março deste ano, chegou a afirmar que teria provas de que venceu o pleito de 2018 ainda no primeiro turno. As supostas provas não foram apresentadas até agora. Um dia depois da declaração, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou nota rebatendo as declarações e reafirmando a “absoluta confiabilidade e segurança” do sistema eletrônico de votação. 

Ao alinhar seu discurso ao de Trump, Bolsonaro tenta sinalizar mais uma vez seu apoio incondicional ao presidente norte-americano, de acordo com o analista Creomar de Souza, da consultoria de risco político Dharma. "É uma marcação de território. Gera, na percepção de Bolsoanro, a ideia de que em caso de vitória de Trump, ele possa perceber o presidente brasileiro como um aliado de primeira hora."

"É a continuidade de uma estratégia muito importante na construção do projeto político bolsonaristas, que é o questionamento da legitimidade de mecanismos do processo político", afirma Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria. "O ambiente político internacional é cada vez menos convidadivo para esta estratégia do presidente."

Para José Álvaro Moisés, da USP, Bolsonaro confunde interesses de mercado e posição ideológica. "Bolsonaro tem uma vaga noção do que ocorre no mundo. Ele não aceita a diversidade política que pode levar a esquerda ao poder. Seu conceito de liberdade é restritivo, se refere apenas às correntes que ele defende. Seria interessante saber se ele vai recusar apoio externo a sua candidatura e como faria isso."

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