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Depois de missa, Bolsonaro avalia que governo começa a ‘virar o jogo’ na CPI

Barros ganha sobrevida, mas núcleo duro do governo espera que ele entregue o cargo se crise aumentar

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 17h23

Caro leitor,

O presidente Jair Bolsonaro comemorou, nesta quinta-feira, 1.º, a confusão instalada na CPI da Covid, com o depoimento do vendedor de vacinas Luiz Paulo Dominghetti. Em conversas reservadas, Bolsonaro avaliou que o governo começa a “virar o jogo” para “desmascarar” o deputado Luis Miranda (DEM-DF), delator de um esquema de corrupção no Ministério da Saúde. Até mesmo dirigentes do Centrão, porém, dizem ser muito cedo para cantar vitória. Motivo: há uma guerra de versões na comissão parlamentar de inquérito sobre quem pagou e quem recebeu propina enquanto a pandemia crescia.

Dominghetti mostrou à CPI um áudio de uma conversa na qual Miranda aparece dizendo ter um “comprador com potencial de pagamento instantâneo”. Aos senadores, o policial-vendedor afirmou que a gravação fora enviada ao representante oficial da Davati Medical Supply no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho. O áudio seria a prova de que o deputado do DEM quis negociar vacinas dentro do Ministério da Saúde, local onde trabalha seu irmão, Luis Ricardo Fernandes Miranda, chefe de importação do Departamento de Logística.

“O comentário do Cristiano foi o seguinte: ele está lá fazendo a denúncia, mas aqui faz o inverso”, declarou Dominghetti. Após “invadir” a sessão da CPI para dizer que tudo aquilo era mentira, Miranda garantiu que a conversa se referia à compra de “luvas” por parte de sua empresa, não a imunizantes. O próprio Cristiano contestou a versão apresentada pelo vendedor de vacinas.

A CPI apreendeu o celular de Dominghetti e enviou a gravação para perícia da Polícia Legislativa, mas senadores do G7 – grupo de oposição composto por sete integrantes do colegiado – acreditam em “armação” por parte do Palácio do Planalto.

“Não venha achar que todo mundo aqui é otário nem pateta. Na nossa região, chapéu de otário é marreta e jabuti não sobe em árvore”, protestou o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), dirigindo-se a Dominghetti. “Assim, do nada surge um áudio envolvendo o deputado Luis Miranda?” Presente à sessão, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho mais velho do presidente, imediatamente reagiu: “Mas o áudio é importante. O senhor não quer conhecer a verdade?”.

Bolsonaro e seus discípulos repetem à exaustação trecho do evangelho de João, capítulo 8, versículo 32 – “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” –, sempre que a pressão bate à porta do Planalto. Trata-se de um clássico do governo, na hora do aperto, lembrar de Deus e recorrer às Forças Armadas.

Nesta quinta-feira, 1.º, aliás, pouco antes do espetáculo na CPI, o presidente foi à missa na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, acompanhado de deputados da base aliada. Há um simbolismo no nome da igreja escolhida para que Bolsonaro vestisse o figurino de vítima dos “sete bandidos”, como ele se refere ao G-7.

Diante do avanço das investigações da CPI e de um “superpedido de impeachment” que desembarcou na Câmara, o Planalto montou uma estratégia para circunscrever a crise – a maior até agora no governo – a falcatruas cometidas por “pessoas” do Ministério da Saúde. Foi por isso que o então diretor de Logística, Roberto Dias, acabou demitido.

Dominghetti confirmou à CPI o que disse ao jornal Folha de S. Paulo: Dias lhe cobrou propina de US$ 1 por dose da vacina AstraZeneca, sob a alegação de que, para fechar contrato com o Ministério da Saúde, era preciso pagar pedágio.

Até agora, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), vem ganhando sobrevida nessa história, mas há no Planalto quem admita que sua situação ficará insustentável com o decorrer das investigações. Nos bastidores, ministros do “núcleo duro” do governo dizem que Bolsonaro espera o pedido de demissão de Barros. Para não fraturar ainda mais sua base de sustentação no Congresso, porém, aguarda que o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas, avalize a operação para substituir o líder mais adiante.

Sob suspeita de ser articulador de um esquema de desvio de dinheiro público em contratos para compra da vacina indiana Covaxin, Barros é personagem central das denúncias que atingem o governo e deporá à CPI na próxima quinta-feira, 8. Em 2019, ele apadrinhou a indicação de Roberto Dias, junto com o ex-deputado Abelardo Lupion (DEM-PR).

Ex-ministro da Saúde na gestão de Michel Temer e um dos manda-chuvas do Centrão, Barros também se destaca como rival do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), que muito antes desse escândalo já queria tirá-lo da cadeira de líder do governo. Lira virou o comandante do Centrão e não é de hoje que os dois disputam espaço em administrações. Correligionários dizem que o Progressistas é um partido pequeno demais para abrigar Barros e Lira. 

Na prática, Bolsonaro está diante de uma difícil equação. Barros se reaproximou dele por meio de Flávio Bolsonaro e de Ciro Nogueira. Há relatos de que Flávio participou de negociações para a compra da Covaxin ao levar Francisco Maximiano – dono da Precisa Medicamentos, representante do laboratório Bharat Biotech – para uma reunião por videoconferência com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, em 13 de outubro do ano passado.

Flávio diz que o assunto da reunião não era vacina, mas, sim, um pedido de financiamento para a Xis Internet Fibra, outra empresa de Maximiano. Pouco depois daquele encontro virtual, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello tentou demitir Roberto Dias da Diretoria de Logística do Ministério da Saúde, como informou reportagem da rádio CBN. Não conseguiu porque Bolsonaro vetou.

O Estadão havia revelado, na ocasião, que Dias assinara contrato de R$ 133,2 milhões, com várias suspeitas de irregularidades, para compra de 10 milhões de kits de materiais para testes de covid.

A pedido de aliados, o presidente tentou emplacar Dias, naquele mesmo mês, em uma diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas acabou retirando a indicação, que já tramitava no Senado. No início de fevereiro, Barros afirmou ao Estadão que a Anvisa precisava ser “enquadrada” para eliminar exigências e agilizar a aprovação de vacinas contra a covid. Na avaliação do deputado, os diretores da Anvisa estavam “fora da casinha”

Por “coincidência”, o contrato que o Ministério da Saúde fechou para a compra de 20 milhões de doses da indiana Covaxin, com preço de 1.000% mais alto do que seis antes, foi assinado algumas semanas depois daquela entrevista, em 25 de fevereiro.

Ao deixar o ministério, em março, Pazuello disse a seu sucessor, Marcelo Queiroga, que havia sido “jurado de morte” por políticos insatisfeitos por falta de “pixulé”. “Nós não podemos esquecer que o Ministério da Saúde é o foco, o alvo das pessoas políticas. Quem não sabe disso? A operação de grana com fins políticos acontece aqui”, constatou Pazuello em sua despedida, no dia 24 de março. O “sincericídio” de Pazuello, à época, causou revolta no Planalto. Mas o presidente diz que não sabia de nada.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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