FOTO GABRIELA BILO / ESTADÃO
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PM tenta envolver Miranda em suspeitas de corrupção, é desmentido, e senadores falam em 'armação'

Policial apresenta áudio que teria sido enviado pelo parlamentar à empresa; Miranda mostra mensagem, que foi tirada de contexto, e trata de luvas; ouça o áudio

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 13h07
Atualizado 01 de julho de 2021 | 22h41

BRASÍLIA -  O depoimento do policial militar Luiz Paulo Dominghetti à CPI da Covid, nesta quinta-feira, 1º, levantou suspeitas de senadores de que ele pode ter sido “infiltrado” pelo governo para produzir provas fraudulentas e prejudicar investigações sobre corrupção no Ministério da Saúde. Em sessão tumultuada, que durou mais de sete horas, o policial afirmou que o deputado Luis Miranda (DEM-DF), autor de denúncias sobre irregularidades no contrato para compra da vacina indiana Covaxin, também estava envolvido nas negociações de imunizantes oferecidos pela Davati Medical Supply.

Miranda desmentiu Dominghetti e o celular do homem que se apresentou como vendedor de vacinas da AstraZeneca acabou apreendido pela Polícia Legislativa para que passasse por perícia. Senadores do grupo que detém a maioria na CPI viram “armação” do Palácio do Planalto por trás do depoimento. Representante da Davati, Dominghetti mostrou à CPI um áudio de uma conversa em que Miranda aparece dizendo ter um “comprador com potencial de pagamento instantâneo”.

Aos senadores, o policial afirmou que a gravação havia sido enviada ao CEO da Davati, Cristiano Alberto Carvalho. O áudio seria a prova de que o deputado quis negociar vacinas dentro do Ministério da Saúde, local onde trabalha seu irmão, Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Departamento de Logística.

“O comentário do Cristiano foi o seguinte: ele está lá fazendo a denúncia, mas aqui faz o inverso”, declarou o depoente aos senadores. Furioso, Miranda – que estava no Congresso – “invadiu” a sessão da CPI para dizer que tudo aquilo era mentira e teve de ser contido por colegas. Houve muito bate-boca. 

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), não escondeu a irritação com Dominghetti. “Não venha achar que todo mundo aqui é otário nem pateta. Na nossa região, chapéu de otário é marreta e jabuti não sobe em árvore”, protestou. O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho mais velho do presidente, reagiu: “O senhor não quer conhecer a verdade?”. Mais tarde, Flávio disse que a oposição queria transformar a CPI em “palco” antecipado para a disputa de 2022.

Já do lado de fora, Miranda afirmou que a gravação apresentada pelo policial era de outubro do ano passado e se referia à negociação para venda de luvas a uma empresa americana. Além de parlamentar, Miranda preside a LX Holding Corp., empresa que atua nos Estados Unidos.

“Plantaram um cavalo de Troia nessa CPI”, afirmou ele, sugerindo que Dominghetti foi treinado pelo “gabinete do ódio”, grupo de auxiliares de Bolsonaro. “Mas eu vou provar a corrupção no Ministério da Saúde”. O próprio Cristiano, CEO da Davati, contestou a versão do policial e disse que o áudio era antigo.

“Esse cara foi usado. Mas por que pegar um cara do interior de Minas para armar isso?”, questionou Aziz. “Quem teria colocado esse senhor aqui? Justamente quem se beneficiaria ao desacreditar a denúncia de corrupção no Ministério da Saúde. Obviamente, o próprio governo”, concluiu o senador Rogério Carvalho (PT-SE).

Dominghetti foi convocado pela CPI porque disse, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, cobrou propina de US$ 1 por dose da vacina AstraZeneca para fechar contrato com a Davati, em fevereiro. Não houve acordo. Dias foi demitido na última terça-feira. Antes, o próprio Miranda e o irmão dele, o servidor Luis Ricardo, haviam dito à CPI que Dias fazia pressão para que a compra da Covaxin fosse acelerada. O negócio previa uma antecipação de pagamento de US$ 45 milhões para uma offshore. 

A suspeita de que Dominghetti fazia parte de uma ação orquestrada para provocar confusão apareceu várias vezes na CPI. Cabo da Polícia Militar , ele trabalhou como guarda de guarita na sede do governo de Minas, comandado por Romeu Zema, de 2019 até o ano passado.

Como mostrou ao Estadão, o policial chegou ao então diretor de Logística por meio de um oficial da reserva do Exército da “Abin paralela”, grupo de informantes que Bolsonaro mantém para não depender dos órgãos oficiais. Em nota, Dias negou ter pedido propina a Dominghetti e disse estar sendo usado como “fantoche”. Em live ontem à noite, Bolsonaro ironizou a confusão. “Eu quero saber como (a imprensa) vai reagir com a questão da CPI. Foi bonito, hein?”

‘Estelionato’. O homem que tanta polêmica causou na CPI também já fez postagens simpáticas a Bolsonaro e contrárias ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no

Para a senadora Simone Tebet (MDB-MS), a sessão de ontem mostrou um “bode na sala”. “Estou me referindo a um áudio fraudulento, sacado do bolso do colete por Vossa Senhoria”, afirmou Tebet. Flávio saiu em defesa do policial. “A história tem focinho de estelionato, rabo de estelionato, pé de estelionato. Será que é estelionato? Vamos descobrir, mas chama atenção a repetição do procedimento do governo, cheio de privilégio aos velhos esquemas”, disse o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE). / VERA ROSA, LAURIBERTO POMPEU, DANIEL WETERMAN, AMANDA PUPO e CAMILA TURTELLI

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