Demissão de Milton Ribeiro não deve afastar evangélicos do bolsonarismo, afirma cientista político

Demissão de Milton Ribeiro não deve afastar evangélicos do bolsonarismo, afirma cientista político

Vinícius do Valle vê desgaste com o caso do gabinete paralelo, mas destaca que há um grupo de pastores 'muito profundamente imbricado com o governo Bolsonaro'

Entrevista com

Vinícius do Valle, curador do Observatório dos Evangélicos

Gustavo Queiroz e Gustavo Côrtes, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2022 | 09h50

Com uma bancada de 196 parlamentares no Congresso, os evangélicos consolidaram sua influência na política nas últimas duas décadas, em que mantiveram relações com governos de diferentes espectros ideológicos. Revelado pelo Estadão, o gabinete paralelo comandado por pastores para direcionar a distribuição de recursos do Ministério da Educação (MEC), porém, trouxe um desgaste entre o governo do presidente Jair Bolsonaro e o segmento, ainda que a demissão do ministro Milton Ribeiro não deva afastar os fiéis do bolsonarismo, na avaliação do cientista político Vinícius do Valle.

Curador do Observatório dos Evangélicos, Valle disse que há sinais históricos de embaralhamento de interesses entre agentes públicos e lideranças religiosas, o que ficou mais evidente com a eleição de Bolsonaro em 2018. Por isso, ele acredita que a saída do ministro-pastor não levará a um encolhimento automático do apoio eleitoral ao presidente. “Estamos falando de um grupo de pastores que está muito profundamente imbricado com o governo, e Bolsonaro é muito bem-sucedido nas tentativas de reaproximar grupos que em algum momento se afastaram”, disse o cientista político ao Estadão. Leia os principais trechos da entrevista:

Qual é a real importância dos evangélicos na política?

O discurso predominante entre os pastores é o de que “logo seremos uma maioria de evangélicos no Brasil”. Estão ganhando cada vez mais espaço, principalmente quando se fala das periferias das grandes cidades, onde se tem uma ética evangélica e um tipo de comportamento muito ligado à linguagem e à moral. Os evangélicos são mais influenciados por lideranças pelo simples fato de serem mais engajados religiosamente e estarem mais expostos a esses discursos. Os líderes, nas últimas décadas, estão cada vez mais buscando inserção política. Eles vão se aproximando do poder local e tentando abocanhar uma fatia do poder nacional, algo que ficou bastante facilitado com a eleição de Bolsonaro.

Qual é o impacto da demissão do ministro da Educação para os evangélicos no meio político?

Essa demissão veio com declarações de que os evangélicos próximos ao governo estariam sendo triturados, o que indica que o fato repercutiu muito mal entre as bases evangélicas. É importante observar quem vai assumir a pasta. Pelas informações que chegam, será um nome do Centrão. Isso indica também uma reconfiguração das forças em torno do bolsonarismo. Não necessariamente o escanteamento dos evangélicos vai gerar uma aproximação desse grupo com outros candidatos ou uma redução do apoio eleitoral ao Bolsonaro. Estamos falando de um grupo de pastores que está muito profundamente imbricado com o governo, e Bolsonaro é muito bem-sucedido nas tentativas de reaproximar grupos que em algum momento se afastaram.

Eles atuam de forma homogênea no Congresso?

Existem rivalidades que são levadas ao governo. Esse caso dos pastores mostra que eles querem facilitação para abertura de templos e facilidades para conseguir licenças de mídia. Nessa disputa, obviamente, há a tentativa de boicote ao concorrente. Mas o debate público leva a um discurso comum no plano moral. O que mais deixa esse corpo unido são as questões relativas à educação dos filhos e não é à toa que estão inseridos no Ministério da Educação. Isso toca especialmente nas pautas relativas a gênero e sexualidade. Se aproveitam do reacionarismo que existe na sociedade, muito mais do que eles serem um bolsão conservador dentro de uma sociedade progressista. Quando a gente fala da atuação dos evangélicos, falamos de uma atuação predominantemente conservadora. O que não significa que não existam evangélicos de esquerda, progressistas, liberais e até comunistas. Mas a maioria é conservadora.

Por que percebemos mais a presença de evangélicos próximos a agentes públicos do que lideranças de outras religiões?

Porque a presença católica no espaço público, pela nossa formação, é naturalizada. Até a década de 1960 o catecismo era visto como política pública. Até hoje a gente tem o casamento religioso com caráter civil dentro das igrejas. Outra parte da explicação está na história recente do Brasil. A partir da Constituinte houve uma mobilização das principais igrejas para se inserir na política. Essa categoria de evangélicos em relação às eleições foi construída pelas lideranças, isso a gente não vê em outras religiões.

Ações como as do MEC são casos isolados?

Os evangélicos estão na Comissão de Constituição e Justiça e nas comissões que tratam de telecomunicações. Têm um interesse em torno da regulação e distribuição de recursos na área de comunicação. Na destinação de recursos publicitários do governo federal nós vemos a presença de meios de comunicação evangélicos. Nesse escândalo do MEC, eles deixam as negociações a cargo dos pastores locais. Isso é uma forma de atenuar os pastores da ponta irem em outra direção, de distribuir poder político na cadeia hierárquica das igrejas e envolver esse pastor local na dinâmica política. Isso tende a fazer com que a capacidade de interlocução melhore. Mas os pastores da ponta fazem um filtro do que é possível falar para aquela audiência de onde eles estão. É importante dizer que eles não são simplesmente um rebanho que faz tudo que os pastores dizem. Não é assim, principalmente no Executivo. No Legislativo existe uma tendência maior a seguir a orientação das igrejas.

Esse interesse pela educação é pela agenda dos costumes ou há outra agenda estratégica? Há indícios de uso das estruturas do governo Bolsonaro para expansão das igrejas?

Isso é bastante claro, os pastores falam nos cultos. Sempre perto das eleições há, sistematicamente, o discurso de que ‘precisamos de favorecimento do Estado’, que o Estado facilite a nossa inserção, que a gente chegue nas pessoas e possibilite que abra templos e não crie problemas para expandir a palavra de Deus. Muitos evangélicos não veem isso como problema, pelo contrário, seria bom usar o Estado para levar a fé às pessoas. Inclusive, se procurar no Twitter, vai achar pastores se autodenunciando que falaram com o prefeito para expandir o templo por conta do Bolsonaro.

Como essa presença religiosa na política tende a afetar as eleições de 2022?

Tem uma parcela de fiéis que tem achado ruim o grau de influência que a igreja exerce sobre a política nos últimos anos, inclusive dessas lideranças supermidiáticas aliadas do governo. Na última pesquisa do Exame Idea, a gente viu um crescimento da aprovação do governo Bolsonaro entre os evangélicos. Isso não é à toa. Nesse último mês tivemos uma mobilização de lideranças religiosas próximas ao governo para a eleição. Mas esses escândalos envolvendo os evangélicos têm bastante influência entre os fiéis, ainda não vimos o impacto disso. O que eu estou observando em campo é que as pessoas estão assustadas com o que está acontecendo e estão desconfiadas. Mas vimos isso acontecer várias vezes ao longo do governo Bolsonaro. Uma parte da base do governo desaprova alguma coisa, se afasta e é capturada em seguida. Isso aconteceu quando (Sérgio) Moro rompeu com o governo. Mais para frente podem concluir que esse problema não foi tão significativo e voltam a apoiar o governo. COLABOROU DANIEL REIS

 

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