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Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Representante da Davati confirma pedido de propina

Pedido de 'comissionamento' partiu do 'grupo do coronel Blanco', diz Carvalho sobre negociações do Ministério da Saúde para compra de vacinas AstraZeneca

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 07h38
Atualizado 15 de julho de 2021 | 16h58

O representante oficial no Brasil da empresa Davati Medical Supply, Cristiano Carvalho, confirmou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid que foi avisado sobre o pedido de "comissionamento" (propina) envolvendo a compra de vacinas da AstraZeneca, como relatado pelo policial militar Luiz Paulo Dominghetti Pereira.

Cristiano destacou que não estava presente no momento do pedido da propina e disse ter sido informado que a proposta teria partido do "grupo do Blanco", em referência a pessoas ligadas ao coronel Marcelo Blanco, ex-assessor do Ministério da Saúde. 

Como mostrou o Estadão, o responsável pela Davati Medical Supply nos Estados Unidos, Herman Cárdenas, disse que o nome de Dominghetti  “não é representante ou funcionário” da companhia” e que foi incluído “a pedido” em comunicações com o governo brasileiro sobre oferta de vacinas apresentada pela companhia ao Ministério da Saúde. A AstraZeneca nega que tenha intermediários no Brasil.

Foi Dominghetti, segundo Carvalho, que trouxe a ele a demanda por vacinas do Ministério da Saúde e ele só passou a dar atenção ao assunto quando passou a receber e-mails de telefonemas de integrantes do Ministério da Saúde.

De acordo com Carvalho, Dominghetti se apresentou a ele em fevereiro de 2021 e afirmou que já tinha uma parceria com a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), presidida pelo reverendo Amilton Gomes de Paula. O reverendo teria tido o aval do governo para tratar da compra das 400 milhões de doses da vacina com a empresa. "Ele (Dominghetti) se empenhou muito na venda das vacinas, fez um trabalho grande com o Senah. Os traços de veracidade que chegavam a mim pareciam indiscutíveis quanto ao interesse do Ministério da Saúde (em vacinas)."

Perguntado por Renan, Carvalho disse ainda que nunca fez qualquer outra negociação com o Ministério da Saúde e que foi ao órgão pela primeira vez em função da negociação com Dominghetti. "A insistência e os traços de veracidade que chegavam a mim eram indiscutíveis de que realmente havia uma demanda e uma precisão e uma proposta do Governo Federal brasileiro, através de várias pessoas que o Dominghetti e o reverendo Amilton (Gomes) conversaram dentro do Ministério da Saúde", concluiu.

Ele disse ainda que, na primeira vez que foi ao ministério, em 12 de fevereiro, participaram da reunião o reverendo Amilton, Dominghetti, Coronel Helcio Bruno, do Instituto Força Brasil, o coronel Cleverson Boechat Tinoco Ponciano, coronel Marcelo Pires e coronel Elcio Franco. O relator Renan Calheiros (MDB-AL) classificou como "absolutamente nova" a informação de que Carvalho não tinha relações com o Ministério da Saúde e quem intermediou esse contato foram Dominghetti e o reverendo Amilton.

Conversas com Roberto Dias

Carvalho destacou que foi procurado por Roberto Dias em 03 de fevereiro, e apresentou prints da conversa. O depoente se disse “incrédulo” com o fato de que um funcionário do Ministério da Saúde estivesse lhe procurando, afirmando que o contrato “não fazia muito sentido”. Ele leu diversas mensagens de Dias lhe pedindo contato. Carvalho afirmou que dada a insistência, ele viu os contatos como uma oportunidade.

Carvalho declarou que suas conversas com Dias foram apenas profissionais, sem menção a nenhum pedido de propina para finalizar seu contato, e que Dias lhe procurava apenas para questionar temas relacionados à chegada de vacinas no Brasil.

O líder do governo, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), minimizou as conversas mostradas por Cristiano Carvalho com o ex-diretor do Ministério da Saúde. “A gente constata a falta de credenciamento, de capacidade técnica, de habilidade técnica para que essa empresa pudesse tratar com o governo brasileiro sobre a compra de vacinas. Estou realmente constrangido com os diálogos que estão sendo aqui mostrados”, declarou.

Atuação de Elcio Franco

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), sugeriu a demissão de Elcio Franco, que hoje atua como assessor especial da Casa Civil. Ex-secretário executivo do Ministério da Saúde, o militar foi apontado como o mediador dos contatos envolvendo a representantes da Davati Medical Supply e da Pasta, em tratativas que estão sendo investigado devido ao suposto pedido de propina. 

“Não podemos generalizar, mas não podemos fazer de conta que não está acontecendo nada. O coronel Elcio Franco ainda está no governo, está lá do gabinete do presidente", declarou Aziz. De acordo com o parlamentar, Franco “não pode estar na antessala do presidente” com as acusações que recaem sobre ele. “Você não pode passar a mão na cabeça de quem negociou a vacina fantasma e ainda com indício forte de que pediram propina”, disse.

Entenda a investigação

A Davati entrou na mira da CPI após Dominghetti, que se apresenta como representante da empresa, ter revelado que, em fevereiro deste ano o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pediu propina de U$S 1 por vacina em troca da assinatura de um contrato para compra de 400 milhões de doses da AstraZeneca. O ex-diretor nega que tenha pedido propina.

Inicialmente a proposta da Davati seria vender 400 milhões de vacinas por U$S 3,50. Em seu depoimento, Dominghetti afirmou aos senadores que relatou o pedido de propina a Cristiano e que não foi dado prosseguimento na negociação. Como pró-labore, Cristiano receberia US$ 0,20 por dose comercializada, enquanto a Dominghetti deveria ser pago de US$ 0,03 a US$ 0,05 a unidade. Dominghetti foi ouvido pela CPI em 1º de julho, depois de citar o pedido de propina em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. /CÁSSIA MIRANDA, DANIEL WETERMAN, MATHEUS LARA, MATHEUS DE SOUZA E PAULA REVERBEL

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