Coronel do Exército representa empresa trumpista em Brasília

José Alberto Silveira Ribeiro aparece em site da empresa como diretor regional do Distrito Federal

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2021 | 10h07

Caro leitor,

No dia 3 de março de 2020, o tenente-brigadeiro Francisco Joseli Parente Camelo votou pela absolvição, confirmada por unanimidade pelo Superior Tribunal Militar (STM), do coronel José Alberto Silveira Ribeiro. O oficial havia sido denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) sob a acusação de receber propina para favorecer uma empresa, avisando-a para que ela participasse de 37 pregões eletrônicos promovidos pelo 8.º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC), em Santarém, unidade então comandada pelo oficial. O STM entendeu que o MPF não conseguiu demonstrar a acusação.

Ribeiro é da turma de 1984 da Academia Militar das Agulhas negras. Faz parte da Arma de Engenharia. Diz ser especialista em logística, como o ministro Eduardo Pazuello (Saúde),  e ter trabalhado na construção da BR-163, aquela estrada iniciada pelo presidente Ernesto Geisel que Jair Bolsonaro se orgulha de ter asfaltado. O oficial diz ter formação em “Jogos de Guerra”, além de ter servido no Comando de Operações Terrestres (COTER) e no Comando Logístico (COLOG), em Brasília, distante da selva amazônica e do lodaçal na BR-163.

Ribeiro também serviu no Haiti por “nove meses chefiando a logística da tropa brasileira na missão da ONU, na Minustah”, a força de paz no Caribe que se tornou o denominador comum de 9 entre 10 generais que foram nomeados para cargos no governo de Jair Bolsonaro. Foi ainda Subdiretor de Abastecimento (DAbst) do Exército Brasileiro. Atualmente, ele consta no site da empresa Combat Armor Defense do Brasil como seu diretor regional de Brasília. A empresa se instalou em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 2019, após a eleição de Jair Bolsonaro. 

É conhecido o assédio a militares feito por empresas privadas a oficiais do Exército que passam para reserva a fim de que eles as representem em Brasília. Isso atinge não só os engenheiros formados no Instituto Militar de Engenharia (IME). E não significa que os cargos na indústria bélica transformem esses oficiais em uma espécie de “mercadores da morte”. Eles são procurados porque conhecem os meandros, sabem como a máquina funciona e quais são os atalhos para atingir os escaninhos escorreitos e driblar os humores das repartições. Podem facilitar a vida de muitos. E são pagos para isso. 

Ribeiro foi trabalhar em uma empresa que tem como dono o militante trumpista Dan Beck, um homem que, mais do que fazer campanha para a reeleição de Donald Trump, é adepto de teorias da conspiração. Sem apresentar provas, ele alega que a eleição de Joe Biden foi fraudada. Também afirmava em janeiro em seu Facebook que Trump teria um segundo mandato, apesar de ter sido derrotado nas eleições de 2020. Defendia ainda o uso da ivermectina contra a covid-19 sem nenhuma comprovação científica e dizia que a maior epidemia do mundo hoje é a de pedofilia e não a causada pelo Sars-Cov-2.

Beck é filho do fundador da empresa, Doyle Beck. Ela quer lucrar com a insegurança dos brasileiros, vendendo blindagens para quem pode pagar, mas também para o governo federal e para os Estados. Emplacou quatro vitórias em licitações: duas para vendas para o governo federal – a Polícia Rodoviária Federal e o Ministério Defesa – e duas para governos estaduais: Tocantins e Roraima, este uma administração fortemente influenciada por militares bolsonaristas.

A licitação que venceu na PRF foi um pregão eletrônico em que a empresa não teve concorrentes e, assim, pôde ganhar dois itens que, somados, chegavam a R$ 11,7 milhões. Seu sucesso se explica pelas compras de ocasião, aquelas oportunidades que sempre surgem no fim do ano no governo. Todo gestor público sabe que quando o dinheiro é liberado nos meses finais do ano abre-se uma oportunidade para comprar e emprenhar os recursos antes do dia 31 de dezembro. A ocasião surge muitas vezes do dia para a noite. Para muitos empresários, estar atento a elas pode ser a diferença entre fechar o ano no azul ou no vermelho.

Dan Beck, o dono da empresa, é um homem bem relacionado. Ele esteve presente em Washington, no Trump International Hotel, no dia 5 de janeiro deste ano (véspera da invasão ao Congresso dos EUA) e postou vídeo em seu Facebook dizendo que havia se encontrado com Rudolph Giuliani, então advogado de Trump, e com Michael Lindell, CEO da empresa Mypillow, conselheiro de Trump. Desconhecido dos brasileiros, Lindell é homem importante nos ambientes da extrema-direita americana. Coincidentemente, mantém contatos com o filho do presidente Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), pelo menos desde 2018. Eduardo estava em Washington naquele dia 5 de fevereiro.

Ao ganhar licitações no Brasil, a Combat Armor pode apenas demonstrar sua competência, pois atua em mais de 30 países. A coincidência de datas da chegada ao Brasil de uma empresa ligada à extrema direita trumpista após a eleição de Bolsonaro e os contratos com o governo federal terem sido sacramentados pouco antes da  tentativa de golpe nos Estados Unidos, assim como a presença de Eduardo Bolsonaro naqueles dias em Washington, não autorizam a ninguém a enxergar conspirações na ausência de fatos. Assim como ninguém  pode apontar, sem provar o que quer que seja na compra da mansão - cujo valor declarado é de R$ 6 milhões – em Brasília feita por Flávio Bolsonaro.

Se Eduardo Bolsonaro já fez lobby pela Sig Sauer, qual o problema de uma empresa de blindados de um extremista de direita se instalar no Brasil? Em tese, nenhum. Brasília é assim mesmo. É preciso contatar as pessoas certas, que saibam quais portas podem ser abertas para se encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris. É tudo legal. Mas é moral? Se as pessoas lessem as 70 medidas contra a corrupção encontrariam ali uma que, talvez, mudasse esse jogo. Trata-se da quarentena para funcionários públicos.

O administrador público não deve suscitar suspeitas sobre seus atos. Para tanto, nada melhor do que afastá-lo de qualquer interesse privado. A quarentena para magistrados, generais e procuradores teria esse efeito. Ninguém perguntaria se o juiz condenou um adversário político para tirá-lo da eleição. Ou se um procurador não denunciou um político em troca de um cargo no governo. Ou ainda se o general conduziu sua tropa pensando em obter um ministério. A quarentena impediria quaisquer questionamentos sobre as atuais atividades do coronel Ribeiro. Esvaziaria suspeitas, assim como ministérios e estatais.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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