Capítulo 34

Coronel do caso Trump é exemplo para Brasil de Bolsonaro

Condenação do uso da violência na política e defesa da democracia não devem servir às conveniências partidárias

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 10h14

Caro leitor,

O tenente-coronel Alexander S. Vindman chegou ao Congresso americano para depor no processo de impeachment de Donald Trump trazendo em seu uniforme a Purple Heart, ganha nos campos de batalha do Iraque, e insígnias que o identificavam como combatente da infantaria que servira nos Rangers, além de outras condecorações militares.

Principal especialista em Ucrânia no Conselho Nacional de Segurança, Vindman testemunhou que o presidente americano usou seu cargo para pressionar o governo daquele país a atingir um adversário político, o democrata Joe Biden. Ao ser confrontado por um republicano sobre o uso da farda, Vindman deu-lhe uma lição: “O uniforme que visto hoje é aquele do Exército dos Estados Unidos. Nós não servimos a nenhum partido político em particular; nós servimos à Nação”.

A lição de Vindman devia ser ouvida pelos generais da ativa que tuitaram em 2018 e em 2019 o seu apoio a Jair Bolsonaro. No sábado, o presidente esteve na cerimônia do 74.º aniversário da Brigada de Infantaria Paraquedista, no Rio. O comandante-em-chefe disse à tropa formada e aos seus familiares: “Sempre saltamos da rampa do avião, e agora nós subimos, pela democracia e pela vontade popular, a rampa do Planalto Central”.

Três generais do governo acompanhavam o presidente. Não há notícia de que algum deles tenha advertido o chefe sobre a hipótese de ele ser mal interpretado, pois a frase não deixara claro se era o político ou o Exército que subira a rampa. É verdade que Bolsonaro também dissera à tropa: “Hoje, acima de tudo estão a nossa democracia, a nossa liberdade e o nosso compromisso com o povo brasileiro”.

Foram palavras oportunas. Mas como não consegue terminar o dia sem uma polêmica, Bolsonaro resolveu atacar, diante dos paraquedistas, as manifestações populares do Chile. “O que estou vendo em alguns países... Há um excesso, como no Chile. Aquilo não são manifestações, são atos terroristas.” Resumir protestos no Chile que reuniram de forma pacífica em um dia mais de um milhão de pessoas a atos de vandalismo e equipará-lo ao terrorismo mostra a inadequação de Bolsonaro para tratar das relações com as nações vizinhas.

Sebastián Piñera, o presidente chileno, já se dissociou do bolsonarismo desde que soube que esse movimento político e seu líder insistem em homenagear o ditador Augusto Pinochet. Bolsonaro sabe chamar o ditador Nicolás Maduro do que ele é: um ditador. Mas não faz o mesmo com Pinochet. Nem o repudia. Quem defende a democracia deve fazê-lo por princípio e não por conveniência política.

Seria essa conveniência que levara o presidente a apresentar ao Congresso o projeto do “excludente de criminalidade” para militares em operações de Garantia de Lei e Ordem (GLO)? Seria esse o projeto do tal “AI-5”, citado por Eduardo Bolsonaro, para reprimir manifestações contra o governo? Ou é só uma forma de agradar ao seu eleitorado? A adesão ao bolsonarismo explica o apoio de muitos militares à medida.

É preciso lembrar, no entanto, que o padrão das operações de GLO das Forças Armadas é muito diferente do sonhado pelo bolsonarismo. De 2013 a 2018, quando houve operações como a do Complexo da Maré, no Rio, as Forças Armadas registraram a morte de 19 bandidos em ataques às suas tropas no Estado - a polícia do Rio costuma levar apenas 4 dias para produzir a mesma quantidade de mortos.

A proposta de Bolsonaro esquece que a condenação da violência na política - seja estatal ou não - ou na vida quotidiana não deve servir de desculpa para mais violência. Militares não devem ter o privilégio de poder matar em circunstâncias que um cidadão comum não pode. É o que defende o coronel da PM paulista José Vicente da Silva, para quem o militar deve obedecer a procedimentos operacionais e se comportar com equilíbrio e profissionalismo. "A previsão legal de legítima defesa já é suficiente para cobrir a atividade policial ou das Forças Armadas em GLO."  

As características da profissão não podem servir de desculpa para o descuido assassino que produz vítimas, como a menina Ágatha, de 8 anos. Nem a solidariedade aos companheiros e a aversão aos criminosos deviam levar o general Hamilton Mourão a duvidar da família da menina e comprar a versão de maus policiais: a criança fora morta por traficantes.

Falta de prudência, ingenuidade ou adesão ao bolsonarismo? Quando a perícia mostra que o autor do disparo foi um policial, a farsa do tiroteio revela a indignidade da mentira de quem devia proteger a sociedade. É então que o silêncio dos chefes mostra o quanto o tenente-coronel Vindman tem a ensinar a todos no Brasil de Bolsonaro.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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