Coronel da Força Nacional segue exemplo do capitão Bolsonaro

Silêncio de generais do Planalto contrasta com a reação de militares ao discurso de apoio de coronel a amotinados

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 10h38

Caro leitor,

Era fevereiro de 2012 e o general Marco Edson Gonçalves Dias fazia aniversário em meio à greve dos policiais militares que pôs a Bahia de ponta cabeça. Tentava manter a cautela quando a mulher de um amotinado se aproximou com um bolo. O general se entusiasmou: disse aos rebelados que nada lhes aconteceria. A lenda conta que o militar chorou. Suas lágrimas prenunciaram um futuro amargo.

O poderoso oficial – chamado de “general de Lula” por ter chefiado a segurança do ex-presidente por oito anos – irritou os chefes. Do comandante militar do Nordeste, general Odilon Sampaio Benzi, à presidente Dilma Rousseff. Passados seis meses, foi removido do comando da 6ª Região Militar e foi chefiar uma escrivaninha na Diretoria de Civis, Inativos, Pensionistas e Assistência Social do Exército. Não ganhou a quarta estrela e foi para reserva.

“Eu estava em Brasília e vi que ele sentiu o golpe”, disse um oficial que presenciou a desgraça do general. Na segunda-feira, 2, à noite, um outro general se lembrou do episódio – uma das crises militares da época petista na Presidência– para comentar a conduta do coronel Aginaldo de Oliveira, da Polícia Militar do Ceará e marido da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP).

Fardado e no exercício do cargo de diretor da Força Nacional de Segurança, o coronel decidiu, nas palavras do general, “abraçar o populismo”. Resolveu arengar à legião de amotinados reunidos em assembleia, como se fosse um candidato a César. Ofereceu apoio, um futuro luminoso e enalteceu os rebeldes, cuja coragem fora estampada nos capuzes com os quais escondiam os rostos para aterrorizar a população no carnaval.

Disse o marido da deputada: “Os senhores se agigantaram de uma forma que não tem tamanho. Vamos conseguir. Sem palavras para dizer o tamanho da coragem que vocês têm e estão tendo ao longo dos desses dias”. E, ainda, prosseguiu: “Só os fortes conseguem atingir seus objetivos. E vocês estão resistindo, vocês estão atingido seus objetivos.”

Se a Polícia Militar do Ceará tivesse um comandante como os coronéis Mello Araújo ou Valdir Suzano, ambos da PM paulista, o marido da deputada saía preso do quartel. Sim. Ele estava em um quartel, o do 18.º Batalhão da PM. O general Theophilo Gaspar de Oliveira, secretário nacional de Segurança Pública, a quem a Força Nacional está subordinada, ainda não se manifestou. Mas ninguém pode se render às conveniências da política em detrimento da lei.

A deputada se casou com o coronel em cerimônia à qual compareceu o ministro da Justiça e da Segurança, Sérgio Moro. O general que chefia o marido de Carla disputou o governo do Ceará e acabou derrotado nas urnas por Camilo Santana (PT), candidato ungido pelos irmãos Gomes, aos quais o motim visava emparedar. Quem se atreverá a cobrar o coronel?

O “inacreditável” discurso de apoio aos amotinados – será preciso lembrar que a Força Nacional estava no Ceará para garantir a segurança da população e não a dos rebelados? – não passou em branco. É verdade que alguns generais preferiram manter o silêncio. Um deles, muito educado, disse: “Não é minha área. Não sei o que está acontecendo no Ceará”. Mas a disposição de outros de falar demonstra o tamanho do desconforto com a situação.

“Isso é uma provocação, um populismo do coronel, querendo angariar simpatia para futuras eleições.” O oficial classificou o comportamento de “corporativismo sem compromisso.”  Ele desabafou: “Não se pode exigir disciplina onde nunca teve”. E concluiu: “Vivemos um equilíbrio instável. Não há nada tão ruim que não possa piorar”. O Portal da Transparência mostra que o coronel viajou a Fortaleza a serviço no dia 19 de fevereiro. Estava, portanto, em missão oficial.

Enquanto isso, os militares do Planalto silenciavam. Nenhum tuíte em defesa da disciplina. O desabafo de seus colegas se relaciona com o sentimento de cansaço de setores do País com o clima de leniência com a baderna, com a desordem e o jeitinho. É por confiar nesse estado de coisas que os amotinados almejam a anistia. Parece que as forças políticas do País – a começar daquela que ocupa o Planalto – esqueceram que a lei é para todos e deve ser cumprida.

E a lei diz que motim é crime. Punido com até oito anos de prisão. Até o cauteloso general e deputado federal Roberto Peternelli (PSL-SP) transparecia constrangimento diante do comportamento do marido da deputada. “Temos de nos preocupar, pois todo brasileiro deve cumprir os preceitos legais em todos os sentidos.” Antes, o destino do general Gonçalves Dias servia de alerta ao coronel Aginaldo. Agora, o de Jair Bolsonaro lhe serve de exemplo. E o exemplo – como sabem os militares – arrasta.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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