Reprodução/ Governo de Sergipe
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Diretor da Força Nacional elogiou amotinados: ‘Vocês são gigantes’

Marido da deputada Carla Zambelli (PSL), coronel Aginaldo de Oliveira participou de assembleia com PMs paralisados e exaltou ‘coragem’ do movimento

Marcelo Godoy e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2020 | 23h21
Atualizado 03 de março de 2020 | 10h35

Enviado ao Ceará para garantir o policiamento em meio ao motim da Polícia Militar, o diretor da Força Nacional de Segurança Pública, coronel Aginaldo de Oliveira, dividiu palanque com as lideranças do movimento e elogiou os revoltosos. Vídeos publicados nas redes sociais mostram Oliveira chamando os amotinados de “gigantes” e “corajosos” durante uma assembleia no batalhão dos revoltosos. Policiais militares são proibidos de fazer motim.

“Os senhores se agigantaram de uma forma que não tem tamanho. É o tamanho do Brasil que vocês representam”, disse o diretor da Força Nacional. “Vamos conseguir. Sem palavras para dizer o tamanho da coragem que vocês têm e estão tendo ao longo desses dias.” 

Recém-casado com a deputada federal Carla Zambelli (PSL -SP), que integra a base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, o coronel Oliveira é subordinado ao secretário nacional de Segurança Pública, general Theophilo Gaspar de Oliveira, que foi derrotado nas eleições pelo governo do Ceará. Apoiado por Ciro e Cid Gomes, Camilo Santana (PT) foi reeleito em primeiro turno. 

Na assembleia que decidiu pelo fim do motim no domingo, Oliveira discursou ao lado do principal líder do movimento, o ex-deputado federal Cabo Sabino, e do advogado dos policiais amotinados, o coronel Walmir Medeiros. O diretor da Força exaltou o fato de o motim ter alcançado seus objetivos. 

“Só os fortes conseguem atingir os seus objetivos. E vocês estão resistindo, vocês estão atingindo objetivos”, ele disse. “Acreditem: vocês são gigantes, vocês são monstros, vocês são corajosos. Demonstraram isso ao longo desses dez, 11, 12 dias em que estou aqui, dentro deste quartel, em busca de melhorias para a classe, que vão conseguir.” O motim durou 13 dias.

Em nota, a Força Nacional afirmou que “seu comandante, que é membro da Polícia Militar, fez um discurso interno para os policiais, parabenizando-os pelo fim da paralisação e por não condicioná-lo à exigência de benefícios, como a anistia.” 

Generais ouvidos pelo Estado demonstraram espanto e repúdio à atuação do coronel. Um classificou o discurso como “inacreditável”. Outro lembrou o também colega, o general de divisão Marco Edson Gonçalves Dias, que comandava a 6.ª Região Militar quando recebeu um bolo de familiares de PMs amotinados, em 2012.

“Isso é uma provocação, um populismo do coronel querendo angariar simpatia para futuras eleições”. O oficial general classificou o comportamento do chefe da Força Nacional de “corporativismo sem compromisso”. E desabafou: “não se pode exigir disciplina onde nunca teve”. Por fim, o general completou: “Não há nada tão ruim que não possa piorar”. 

Deputado federal, o general Roberto Peternelli (PSL-SP) foi cauteloso. Disse que o caso deve ser analisado hoje pelo general Theophilo. “É um contexto sensível. Vamos ver os detalhes. Temos de nos preocupar, pois todo brasileiro deve cumprir os preceitos legais em todos os sentidos.”

Assista:

Mortes

Entre o início da paralisação de PMs e o último dia 26, foram registrados 220 assassinatos. O número de assassinatos durante o mês de fevereiro foi o maior dos últimos cinco anos

Por causa da paralisação, cerca de 2,8 mil homens do Exército e da Força Nacional circulam pela capital cearense e por cidades do Interior para reforçar a segurança nas ruas. Ao todo, 230 policiais militares respondem a processos administrativos e foram afastados por 120 dias. Os agentes estão fora da folha de pagamento e podem ser expulsos da corporação. 

Chefe tanto do general Thophilo quanto do coronel Oliveira, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, afirmou que o fim do motim ocorreu “sem radicalismo” e que “prevaleceu o bom senso”. “Recebo com satisfação a notícia sobre o fim da greve dos policiais no Ceará. O governo federal esteve presente, desde o início, e fez tudo o que era possível dentro dos limites legais e do respeito à autonomia do Estado. Prevaleceu o bom senso, sem radicalismos. Parabéns a todos”, escreveu o ministro. 

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