EFE/Stephanie Lecocq
EFE/Stephanie Lecocq

'Comentários de militares brasileiros são intoleráveis', diz líder parlamentar europeu

Para deputado e ex-ministro espanhol, declarações nas redes sociais nos últimos dias por parte de alguns militares relembra 'o pior da história latino-americana'

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2018 | 15h11

GENEBRA - Os comentários nas redes sociais de militares brasileiros, fazendo sugestões sobre decisões judiciais no País, são “intoleráveis." Quem faz o alerta é o deputado europeu Ramón Jáuregui, ex-ministro do governo socialista de Jose Luis Zapatero e ex-negociador do conflito basco. 

Em entrevista ao Estado, o líder da bancada de quase 200 deputados no Parlamento Europeu afirmou que a crise no Brasil preocupa a Europa e pediu que o momento seja utilizado para “refundar” o sistema político nacional. Eis os principais trechos da entrevista, concedida por telefone:

Como o sr. avalia os últimos acontecimentos no Brasil?

Antes de mais nada, é importante que se diga que está causando na Europa uma enorme preocupação as manifestações de militares brasileiros nas redes sociais. Comentários de militares brasileiros são intoleráveis numa questão política e judicial. Não lhes corresponde. Da parte da Europa, não podemos entender esse tipo de ingerências no jogo politico de um país que vive um Estado de Direito.

Como foi recebido por seu grupo a decisão do STF, no Brasil, em relação ao pedido de habeas corpus de Lula?

Estamos preocupados com a possibilidade de que o povo brasileiro seja privado de uma eleição plena e por conta de uma judicialização da política brasileira. Respeitamos as decisões dos tribunais, mas tememos que o povo brasileiro fique privado de eleição livre. Isso deveria ser considerado por parte dos tribunais, na hora de adotar as medidas judiciais. Pode ocorrer que uma intervenção judicial excessiva acabe privando certos direitos.

+++Supremo nega habeas corpus a Lula: 6 a 5

Mas se um político é condenado por corrupção, qual deve ser então a atitude do Supremo Tribunal?

O Brasil está recebendo uma lição histórica a favor da luta contra corrupção e a favor de um sistema politico brasileiro que se depure de toda uma série de privilégios à classe política, falta de filtros e controles para evitar delitos. O que ocorre no Brasil é bom para a democracia. Mas ela não pode perturbar os direitos políticos. O Judiciário não pode impedir direitos democráticos. 

Diante da situação do Brasil, como a Europa avalia o papel do País no cenário internacional?

Vemos com enorme preocupação. O Brasil é um ator fundamental na América do Sul. Essa situação também nos afeta, já que o acordo comercial entre Mercosul e Europa está pendente dessa crise interna brasileira. O Brasil é chamado a ser protagonista e em conflitos de vizinhos, como na Venezuela. Mas não está jogando esse papel por conta de sua crise interna.  

Qual seria então uma solução para o País?

Renovar o contrato social e seu sistema político. Hoje, à beira do ponto do caos, o que vemos  é a manifestação de militares, que relembra o pior da história latino-americana e que achávamos que ja tinha sido superado há 20 ou 30 anos. Essa deve ser uma oportunidade para criar um novo sistema. Nisso, as próximas eleições serão fundamentais. Mas não é o Judiciário que deve recompor sociedade, são os partidos com seu povo. O sistema político brasileiro precisa se refundar. 

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