ISAC NOBREGA/PR–20/2/2019
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Com Aliança indefinido, PSL espera reaproximação de bolsonaristas e quer neutralizar radicalismos

Expectativa de dirigentes do PSL é que a reunificação comece a se consolidar ao longo das próximas semanas

Jussara Soares e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2020 | 10h20

BRASÍLIA - Diante da incerteza da criação do Aliança pelo Brasil, deputados do PSL entusiastas da nova sigla gestada para acolher bolsonaristas fazem um movimento de reaproximação com a legenda comandada pelo deputado federal Luciano Bivar (PE), que serviu de abrigo para Jair Bolsonaro se lançar candidato a presidente em 2018. A expectativa de dirigentes do PSL é que a reunificação comece a se consolidar ao longo das próximas semanas.

Nove meses após Bolsonaro dizer para um apoiador "esquecer" o PSL e desencadear a crise que culminou no racha do partido, a cúpula da legenda que tem 53 deputados tem adotado o discurso de que não quer briga com ninguém e que deseja neutralizar o radicalismo das alas antagônicas: bolsonaristas e bivaristas. Os extremos são representados pela deputada Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP) de um lado e, de outro, pela deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) e Júnior Bozzella (PSL-SP). Os representantes dos dois grupos costumam trocar acusações nas redes sociais.

A senha para a reconciliação, porém, foi dada há duas semanas em uma ligação de Bolsonaro, que deixou o PSL em novembro de 2019, para o presidente da legenda. No telefonema descrito como cordial e protocolar por interlocutores de ambos, o presidente pediu uma avaliação de Bivar para a crise política .

Segundo o Estadão apurou, não houve um pedido explícito de apoio por parte de Bolsonaro, mas foi encarado no PSL como um gesto claro de uma tentativa de reaproximação. Pressionado por dezenas de pedidos de impeachment e investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente tenta construir uma base no Congresso e atraiu partidos do Centrão em troca de cargos na estrutura federal.

Pessoas próximas a Bivar, no entanto, afirmam que a conversa não significa que a legenda está de volta ao governo, mas admitem que o tempo definirá os termos da relação. Um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro e atualmente rompido com o governo, o deputado Julian Lemos (PSL-PB) disse que o telefonema foi um "estalo de consciência" do presidente para recuperar os ataques feito a Bivar.

"Bivar foi extremamente injustiçado assim como todos os outros deputados. Nunca é tarde para reconhecer erros e é um gesto do presidente. Agora isso (a ligação) não quer dizer nada além do que nós vivemos: um partido independente, deputados independente voltado com o Brasil com consciência e convicção, não com o governo", disse Lemos.

A costura para uma recomposição entre bolsonoristas e bivaristas teve a participação do deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), que tem atuado como um líder informal do governo na Câmara, o vice-presidente do PSL, Antonio de Rueda, e do senador Flávio Bolsonaro (RJ), que após a ruptura do PSL com o governo se filiou aos Republicanos. O presidente Bolsonaro segue sem partido.

O contato, no entanto, só foi possível após o PSL tirar a deputada Joice Hasselmann da liderança da legenda e entregar o comando da bancada para Felipe Francischini (PR). Ex-líder do governo no Congresso, a deputada se tornou uma das principais críticas do governo. Partiu dela denúncias que turbinaram a CPI das Fake News sobre como operariam os apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais. Francischini, considerado moderado e com bom diálogo com as duas alas da legenda, assumiu o posto com a missão justamente de reintegrar os dissidentes.

O deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), que perdeu a vice-liderança do governo na semana passada, admite que há uma reaproximação entre bolsonaristas, grupo do qual faz parte, e bivaristas. "Estamos tentando ter um discurso mais uníssono. Há uma reaproximação sim", disse. O Estadão apurou que os deputados Filipe Barros, Luiz Lima, Daniel de Freitas e Coronel Chrisóstomo seriam alguns dos que avaliam reconciliar com o partido. A principal reclamação é a demora do Aliança em se viabilizar.

Com a movimentação, Silveira afirmou já ter pedido para que a suspensão de atividades partidárias, impostas como punição pelo PSL, seja cancelada. Ao todo 14 parlamentares foram punidos por tentar afastar Bivar da presidência da legenda.

"Falei para liderança (do governo) que caso haja uma reaproximação nada mais justo do que suspender o processo de bloqueio de atividades partidárias que estamos sofrendo. Eu e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) recebemos punição de um ano. Mas aí, vamos pedir para cancelar, porque se reaproximou, acabou", disse.

Reação

A reaproximação do governo Bolsonaro é vista com desconfiança por parte do parlamentares que durante o racha ficaram ao lado de Bivar. Em mensagem enviada ao grupo dos parlamentares do PSL, o senador Major Olímipio (SP) ameaçou deixar o partido caso a reunificação se concretize. "Eu disse no grupo de parlamentares do PSL: se isto acontecer, sentirei muita saudade do partido. TCHAU QUERIDOS!", disse em nota divulgada à imprensa.

Presidente do diretório do PSL em São Paulo, o deputado federal Júnior Bozzela escreveu uma carta aberta a Bolsonaro. "O PSL não perdeu o seu valor, sua moral e nem a independência, continuamos sempre votando a favor do Brasil sem precisar de toma lá, da cá. Bolsonaro um determinado dia disse: 'Esquece o PSL, tá ok?'. Hoje ele volta implorando perdão a esse mesmo PSL. Perceberam quem é o traidor 'arrependido'?", escreveu.

Em entrevista ao Estadão, Bozzella afirma que aceita a reconciliação se os dissidentes assinarem uma carta renunciando a criação de um novo partido e que retirem assinatura de ações contra o PSL. "É essa mania de xingar em público e pedir desculpa no particular não vai colar. O partido tem uma posição clara, racional, de diálogo, de respeito às instituições. E é isso que temos que preservar", disse.

O deputado afirmou ter alertado que a criação do Aliança era uma falácia. "Eu cansei de alertar que os advogados do presidente e amigos do filho do presidente estavam levando o presidente ao precipício, ao erro. Deputados por oportunismo ou conveniência acharam por bem seguir esse caminho. Hoje por arrependimento podem querer se reaproximar, mas isso tem um custo", disse, enfatizando que é preciso um pedido de desculpas em público.

Julian Lemos também sinaliza que a reconciliação não será fácil diante da troca de acusações nas redes sociais . "Certamente há ressentimento devido ao nível de injustiças praticados pelo próprio presidente como por seus filhos em relação aos parlamentares. A insatisfação que existe é baseada nos ataques desproporcionais e levianos. A realidade é que nunca deixamos de sair do lugar que sempre estivemos em apoiar o Brasil", disse ao Estadão.

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