Centrão e ‘núcleo camuflado’ travam disputa por controle do Ministério da Saúde

CPI fecha o cerco a Bolsonaro, vasculha ordens da Casa Civil e Miranda fala em ‘mensalão’

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 07h43

Caro leitor,

CPI da Covid escancarou a disputa de poder entre o Centrão e os militares que orbitam em torno do presidente Jair Bolsonaro, muitos deles agindo no submundo das informações reservadas. Se antes a briga era entre os generais e a ala ideológica do governo, agora o confronto de vida ou morte é entre o “núcleo camuflado” de farda e o grupo político que há anos dá as cartas no Ministério da Saúde.

A prisão do ex-diretor do Departamento de Logística do ministério Roberto Ferreira Dias, nesta quarta-feira, 7, também jogou os holofotes sobre novos dossiês com acusações de corrupção, que vão muito além da compra de vacinas. As denúncias passam agora pela Casa Civil da Presidência, que até hoje serviu como escudo para blindar Bolsonaro. Nesta temporada, no entanto, a crise mudou de patamar.

“Toda CPI tem um ponto de inflexão”, disse o ex-senador Delcídio do Amaral, presidente da CPI dos Correios, que investigou o mensalão no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005. “Naquela época, foram duas inflexões: o depoimento do Roberto Jefferson e o do Duda Mendonça. Roberto era o grande líder político e Duda, o marqueteiro que elegeu o Lula. Com todo o respeito, mas, do jeito que está hoje, não roda. É muita fuleiragem. A CPI da Covid pegou o segundo escalão”.

Preso em novembro de 2015, quando era líder do governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio foi absolvido pela Justiça Federal  quatro anos depois. Acusado de tentar impedir a delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró para atrapalhar as investigações da Lava Jato, ele também foi cassado pelo Senado, com votos do seu próprio partido na ocasião, o PT. Ex-petista, Delcídio preside hoje o PTB de Mato Grosso do Sul e pretende concorrer a deputado federal, em 2022. Jefferson, que teve o mandato cassado após a CPI dos Correios, virou seu amigo.

“Há também um mensalão no Ministério da Saúde, só que ninguém está observando isso”, afirmou o deputado Luis Miranda (DEM-DF), pivô da CPI da Covid e alvo de um dossiê preparado pelo governo Bolsonaro. Miranda é o homem que diz ter informações para “explodir a República”, usa colete à prova de bala e instalou um detector de metais na entrada de sua casa, em Brasília. Foi ele que esteve com Bolsonaro em 20 de março, no Palácio da Alvorada, e levou a tiracolo o irmão Luis Ricardo, chefe de importação do Departamento de Logística.

Os dois denunciaram ao presidente a existência de uma rede de cobrança de propinas, além da “pressão atípica” para que o ministério pagasse US$ 45 milhões, de forma antecipada, a uma offshore situada no paraíso fiscal de Cingapura. O dinheiro seria para um lote da vacina indiana Covaxin, com prazo de validade perto do vencimento. Em Nova Delhi há suspeitas de evasão fiscal no negócio.

Após o escândalo, o Ministério da Saúde suspendeu o contrato com a Precisa Medicamentos, representante do laboratório Bharat Biotech que intermediou as tratativas para a compra do imunizante. O Estadão apurou que tudo será cancelado e haverá uma “faxina” no ministério, na tentativa de estancar a crise. Nesta quinta, 8, por exemplo, o demitido foi o diretor do Departamento de Imunização, Lauricio Monteiro Cruz.

No depoimento de Dias, que saiu da CPI preso e acabou soltou após pagar fiança de R$ 1.100, as certezas do presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), entraram no radar das aflições do Planalto.

Ao mencionar o dossiê de malfeitos preparado pelo ex-diretor, quando ele percebeu que seria rifado pelos militares, Aziz citou as exigências da Casa Civil. Lembrou, ainda, que o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, detestava Dias, um ex-sargento da Aeronáutica. “O senhor recebeu várias ordens da Casa Civil, por e-mail, lhe pedindo para atender. Eram (termos do tipo) “gente nossa”,“essa pessoa é nossa”. Não foi agora, não. É de todo o tempo em que o senhor esteve no cargo”, afirmou Aziz.

A ressalva de que as ordens eram contínuas foi proposital. A CPI caminha para empurrar na fogueira o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, que era ministro da Casa Civil quando Dias entrou na Saúde, em 2019. Detalhe: quem indicou o diretor de Logística foi o ex-deputado Abelardo Lupion (DEM), então assessor especial da Casa Civil e compadre de Onyx.

O apadrinhamento, no entanto, teve o aval de Ricardo Barros (Progressistas-PR), expoente do Centrão e hoje líder do governo na Câmara. Tanto Lupion quanto Dias trabalharam na equipe de Cida Borghetti, mulher de Barros, quando ela era governadora do Paraná.

O líder do governo ainda resiste, mas, se depender do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), já está fora. À época em que Barros era titular da Saúde, Lira – então líder da bancada – chegou a ir ao ministério, certa vez, tirar satisfações, aos gritos, sobre o motivo da falta de liberação de emendas para os correligionários. Até hoje os dois travam uma luta fratricida pelo poder, mas Barros sempre investiu no “feudo” da Saúde, enquanto Lira ficou com o território da Educação.  

Ao que tudo indica, não há acordo possível  entre o Centrão e os militares camuflados na Saúde. Diante dessa briga, o cerco se fecha contra Bolsonaro no momento em que ele não consegue apoio para aprovar o voto impresso no Congresso e ameaça rejeitar o resultado da eleição de 2022, caso as urnas não lhe confiram o segundo mandato. “Na fraude, não”, disse ele, criando uma justificativa para a possível derrota. “A democracia está ameaçada por alguns de toga”.

Um atento observador da cena política, porém, aconselhou senadores do G7 – grupo da CPI que abriga a oposição e os independentes – a separar o joio do trigo, e não jogar os militares no “colo” da ala ideológica do governo.

A dúvida que permanece é: por que o ministro da Defesa, Braga Netto, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica soltaram aquela nota de reprimenda a Aziz, que citou o “lado podre” das Forças Armadas, em vez de punir os corruptos e aloprados?

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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