Alan Santos/PR/AFP
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Bastidores: caso Bachelet aumenta temor no Planalto de protestos em discurso de Bolsonaro na ONU

Às vésperas de estreia do presidente na Assembleia Geral, Planalto e Itamaraty se esforçam para 'tentar consertar o estrago'

Tânia Monteiro e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 09h30

BRASÍLIA – As declarações de  Jair Bolsonaro em relação à ex-presidente do Chile Michelle Bachelet aumentaram o temor, no Palácio do Planalto, de protestos no momento do discurso do presidente brasileiro na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Bolsonaro faz sua estreia na abertura da Assembleia da ONU no dia 24 de setembro - tradicionalmente, é o Brasil que abre a reunião. Bachellet é atual alta-comissária para Direitos Humanos da ONU.  

Interlocutores do presidente afirmam que, por causa das inúmeras frentes de batalha abertas por Bolsonaro intencionalmente, representantes de vários países podem se levantar e sair do plenário da assembleia, no momento do seu discurso. A atitude representaria um desgaste muito grande para a imagem do País. 

Esse comportamento já está sendo esperado por parte de países como Venezuela, Cuba e até a França. Há preocupações de que essa demonstração de insatisfação possa se ampliar em decorrência dos posicionamentos e ataques de Bolsonaro a diversos países. 

Como contraponto, o governo brasileiro está articulando agendas bilaterais para que Bolsonaro não deixe de ter protagonismo e fique isolado no encontro. O presidente deve fazer discurso nacionalista, em defesa da soberania da Amazônia e do País, falando de ações realizadas e advertindo que não admitirá intromissões em questões internas.

O Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores estão se esforçando para “tentar consertar o estrago feito” com os ataques a Bachelet, considerados "um tiro no pé". Uma das maiores preocupações é que a fala de Bolsonaro arranhe até mesmo a relação dele com o atual presidente chileno, Sebastián Piñera.

Piñera foi o principal defensor de Bolsonaro durante a reunião do G-7, quando o presidente da França, Emmanuel Macron, e outros chefes de Estado criticaram a atitude do presidente brasileiro em relação ao combate das queimadas na Amazônia.

Bolsonaro tem sido aconselhado a moderar suas afirmações para evitar problemas diplomáticos como esse. Seus interlocutores concordam, muitas vezes, com o alvo, mas não com a forma como o presidente dispara as críticas. Para eles, com essas falas, Bolsonaro acaba enfraquecendo seu governo.

Uma sugestão dada ao presidente foi para que, em vez de postar pessoalmente críticas mais contundentes, terceirize o serviço, para se preservar.  Auxiliares de Bolsonaro trocaram mensagens mostrando Bachelet apoiando uma manifestação em que parte da plateia pedia “Lula Livre”.  

Entenda o caso

A ex-presidente do Chile e atual alta-comissária para Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, em entrevista em Genebra, na Suíça, havia dito que o “espaço democrático” no Brasil estava encolhendo. “Nos últimos meses, observamos (no Brasil) uma redução do espaço cívico e democrático, caracterizado por ataques contra defensores dos direitos humanos, restrições impostas ao trabalho da sociedade civil.”

Em resposta, Bolsonaro atacou a alta-comissária e o pai dela, Alberto Bachelet, que foi morto pela ditadura de Augusto Pinochet. “(Bachelet) Investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos)”. Disse ainda que o Chile “só não é uma Cuba” por causa do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende em 1973, e que “deu um basta à esquerda” no país, “entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época”, referindo-se a Alberto Bachelet. Michelle também foi torturada no regime Pinochet.

As declarações causaram mal-estar no Chile. E até o presidente Sebastián Piñera, aliado de Bolsonaro, disse que não compartilha da “alusão feita a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, num assunto tão doloroso quanto a morte de seu pai”.

A diplomacia chegou a discutir a divulgação de um comunicado, mas, diante do amplo rechaço de setores de esquerda e direita no Chile, Piñera optou por um pronunciamento. “É de público conhecimento meu compromisso permanente com a democracia, a liberdade e o respeito aos direitos humanos em todo tempo, lugar e circunstâncias”, disse.

 

 

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