Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro quebra tradição de antiguidade e coloca general Paulo Sérgio para comandar Exército

Paulo Sérgio substitui Edson Pujol, demitido por Bolsonaro com os outros dois chefes militares, que rejeitaram a tentativa de uso político das Forças Armadas; Baptista Jr. assume a FAB e Almir Garnier, a Marinha

Felipe Frazão e Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 17h05
Atualizado 01 de abril de 2021 | 17h43

BRASÍLIA – Um dia depois de demitir a cúpula das Forças Armadas, o presidente Jair Bolsonaro foi obrigado a recuar para conter a crise e nomeou os novos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica quebrando uma tradição de optar pelo oficial mais antigo para comandar a tropa. Na tentativa de apaziguar os ânimos, Bolsonaro apostou em uma solução intermediária e avalizou a seleção de nomes apresentada pelo novo ministro da Defesa, Braga Netto.  Bolsonaro não respeitou o critério da antiguidade no Exército e na Marinha, mas o princípio foi obedecido na Aeronáutica.

O presidente escolheu o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira como novo comandante do Exército. Paulo Sérgio substitui Edson Pujol, demitido na terça-feira junto com os comandantes da Aeronáutica e da Marinha. As dispensas foram motivadas pela recusa dos militares de politizar as Forças Armadas, como queria Bolsonaro. Foi a primeira vez na história que um presidente trocou a cúpula militar do País no meio do mandato.

Para a Marinha o indicado foi o almirante de esquadra Almir Garnier, atual secretário-geral do Ministério da Defesa. Na Força Aérea, o brigadeiro Baptista Júnior, antes do Comando de Apoio, era o favorito e o segundo mais antigo no Alto Comando. Ele demonstra nas redes sociais ser afinado ao governo, compartilhando mensagens ligadas a grupos de direita. Logo após o anúncio, Bolsonaro postou uma foto com Braga Netto e os três novos comandantes nas redes sociais.

A apresentação da nova cúpula das Forças Armadas ocorreu no aniversário de 57 anos do golpe militar de 1964, que levou à ditadura. Após dizer que a data deveria ser “celebrada”, Braga Netto destacou que as Forças Armadas se mantêm fiéis às suas missões constitucionais de defesa da democracia, “não faltaram no passado e não faltarão sempre que o País precisar”. Foi mais um discurso para desfazer a impressão de que, ao trocar o comando, Bolsonaro teria o objetivo de promover atos golpistas.

“Neste dia histórico, reforço que o maior patrimônio de uma Nação é a garantia da democracia e da liberdade do seu povo”, afirmou Braga Netto. Antes no comando da Casa Civil, Braga Netto substituiu o general Fernando Azevedo e Silva no Ministério da Defesa. Azevedo também foi demitido por Bolsonaro, um dia antes da dispensa dos comandantes, por não querer se envolver em questões políticas.

Ao escolher Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira para comandar o Exército, Bolsonaro repetiu atitude da ex-presidente Dilma Rousseff, que quebrou a tradição de optar pelo oficial mais antigo para comandar a tropa. Além de ser o terceiro na lista de antiguidade, Paulo Sérgio não era a primeira opção de Bolsonaro.

O general contrariou o presidente em recente entrevista ao jornal Correio Braziliense, na qual apontou a possibilidade de uma terceira onda de covid-19 no País e defendeu o isolamento social. Bolsonaro é crítico às restrições impostas por governadores e prefeitos como forma de conter a propagação da doença.

Pesou a favor de Paulo Sérgio, porém, o fato de ter um perfil apaziguador, hábil no trato com subordinados e um estilo “um manda, outro obedece”, como definiu certa vez o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde que teve a gestão marcada apenas pelo cumprimento de ordens do presidente.

Nos bastidores, o ex-comandante do Exército e atual assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Eduardo Villas Bôas, é apontado como outro fiador da nomeação. O novo comandante do Exército também é próximo do ex-ministro da Defesa, que deixou o cargo por vários motivos, entre os quais o de se recusar a trocar Edson Pujol, com que Bolsonaro nunca teve boas relações, e a confrontar decisões do Supremo Tribunal Federal.

Preterido na escolha, o general mais antigo na cúpula do Exército, José Luiz Freitas, elogiou a indicação do colega pelas redes sociais. O segundo na lista de antiguidade era o general Marcos Antonio Amaro dos Santos, chefe do Estado-Maior do Exército, que cuidou da segurança de Dilma. Santos também foi chefe da Casa Militar no governo da petista. 

Na Marinha, Almir Garnier constava como segunda da lista. O primeiro era o almirante de esquadra Alípio Jorge Rodrigues da Silva, comandante de Operações Navais. Na Aeronáutica, Carlos Almeida Baptista Junior, que demonstra ser afinado a Bolsonaro nas redes sociais, era o primeiro no critério de antiguidade.

Quem são os novos comandantes das Forças Armadas

Almirante era o 2º na lista de antiguidade

O almirante de esquadra Almir Garnier Santos ocupava o cargo de secretário-geral do Ministério da Defesa. Na Marinha, era o segunda da lista de antiguidade. O primeiro era o almirante de esquadra Alípio Jorge Rodrigues da Silva, comandante de Operações Navais. 

General chefiava cargo administrativo

O general de Exército Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira era o chefe do Departamento-Geral do Pessoal, órgão que faz a administração de “recursos humanos” do Exército. Até o ano passado, chefiava o Comando Militar do Norte, criado em março em de 2013.

Brigadeiro é ‘afinado’ com o presidente

O brigadeiro Carlos Almeida Baptista Junior demonstra ter discurso afinado ao do presidente Jair Bolsonaro. Nas redes sociais, o novo comandante da Aeronáutica compartilha mensagens ligadas a grupos de direita. Ele era o primeiro no critério de antiguidade.

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