Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

31 de março tem defesa da democracia e atos pró-golpe esvaziados

Atos ocorrem em meio à intervenção do presidente Jair Bolsonaro nas Forças Armadas

Caio Sartori, Marcelo Chello, Matheus Lara e Rayssa Motta, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 14h24
Atualizado 31 de março de 2021 | 18h09

O aniversário de 57 anos do golpe de 1964 foi marcado nesta quarta-feira, 31, por manifestações em defesa da democracia e por atos pró-intervenção militar esvaziados nas principais capitais do País. Os atos ocorrem em meio à intervenção do presidente Jair Bolsonaro nas Forças Armadas ao demitir o ministro da Defesa e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes criticaram as comemorações do golpe militar e lembraram abusos da ditadura – o período, que foi de 1964 até 1985, é marcado pelo fim das eleições diretas, pelo fechamento do Congresso, por censura, tortura e assassinatos praticados pelo Estado brasileiro.

“Só pode sustentar que não houve ditadura no Brasil quem nunca viu um adversário do regime que tenha sido torturado, um professor que tenha sido cassado ou um jornalista censurado. Tortura, cassações e censura são coisas de ditaduras, não de democracias”, afirmou Barroso em postagem no Twitter.

Também nas redes sociais, Gilmar Mendes disse que “ditadura não se comemora’. “O dia 31/03 não comporta a exaltação de um golpe que lançou o País em anos de uma ditadura violenta e autoritária. Ao contrário: é momento de exaltar o valor da nossa democracia conquistada com suor e sangue. Viva o Estado de Direito”, afirmou.

Na terça-feira, 30, o novo ministro da Defesa, o general Braga Netto, disse, em nota, que o golpe de 1964 deve ser “compreendido e celebrado”.

Presidenciáveis como Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL) e Luciano Huck (sem partido) também fizeram questão de se pronunciar. “Rupturas institucionais, como o golpe de 64, são retrocessos inaceitáveis”, escreveu Huck. Partidos de espectros diferentes destacaram que o autoritarismo pós-1964 foi resultado das decisões dos militares. “O movimento militar de 1964 foi um golpe de Estado e assim está registrado na história”, publicou o PSDB. “Os que negam o autoritarismo instalado pela ditadura são os que hoje negam a catástrofe do combate à pandemia”, escreveu o PT.

Apesar de a hasthtag #Viva31demarco e do termo ‘Viva 64” aparecerem nos trending topics do Twitter nesta quarta-feira, críticas à ditadura  foram maioria. Até 13h, cerca de 170 mil tweets com a hashtag #DitaduraNuncaMais foram publicados, segundo números da própria plataforma. Menos de 90 mil publicaram a tag que celebra o golpe. Ulysses Guimarães e trechos de seu discurso na promulgação da Constituição em 1988 também estão entre os temas mais comentados desta quarta.

Atos esvaziados

Manifestantes se aglomeraram para pedir intervenção militar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Bate-boca, insultos e até tapas foram registrados durante aos atos. Nos últimos dias, mensagens de grupos bolsonaristas convocando manifestações em todo o País circularam nas redes sociais, mas, até o início da tarde desta quarta, não havia registro de grandes manifestações.

Em São Paulo, o ato ocorreu na frente do Comando Militar do Sudeste, ao lado da Assembleia Legislativa do Estado. Um grupo de manifestantes tentou forçar a entrada dentro no quartel e foi contido pelos militares. O ato começou por volta das 9h e reuniu cerca de 100 manifestantes, muitos sem máscara e sem respeitar o distanciamento social recomendado para evitar a propagação do coronavírus. Eles defendiam intervenção militar com Bolsonaro no poder e gritavam palavras de ordem contra o comunismo.

O grupo ainda questionou a eficácia das vacinas contra a covid-19 e defendeu o uso de medicamentos sem eficácia comprovada. Um segundo grupo de manifestantes que se identificou como ligado à igreja católica puxou um minuto de silêncio em respeito à morte do policial militar baiano que foi morto durante um surto no qual tentou atirar contra seus próprios colegas. Um dos manifestantes afirmou que ele “seu sua vida pelo povo”.

No Rio, o ato aconteceu na orla de Copacabana. Defensores de uma nova intervenção insultaram e agrediram um jovem que contestava a manifestação. Ele foi cercado e empurrado, chegou a levar tapas aos gritos de “vai pra Cuba”, “maconheiro” e outras ofensas de caráter homofóbico. Uma das faixas no ato, que reuniu cerca de 100 pessoas no fim da manhã, pedia que Bolsonaro acionasse as Forças Armadas para “auxiliar o povo na defesa da liberdade e das garantias constitucionais”. Apesar de motoristas buzinarem em apoio aos manifestantes, muitas pessoas o contestaram. Bolsonaro foi chamado de “genocida”, e gritos pró-democracia foram ouvidos. 

Outras capitais também registraram atos esvaziados. Em Belém, a Polícia Militar dispersou os manifestantes que se aglomeravam em frente ao Quartel-General. Em Palmas, sete apoiadores de Bolsonaro compareceram em frente ao 22º Batalhão de Infantaria, na zona rural.

Em Natal, o ato se deu em frente à sede do 16º Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército (16RI), onde pelo menos 30 pessoas se reuniram para orar, entoar cânticos evangélicos e cantar o hino nacional.

Em Porto Alegre, um grupo de aproximadamente 100 pessoas realizou uma manifestação pedindo intervenção militar na rua 7 de Setembro, no cruzamento entre os prédios da sede do Terceiro Comando do Exército e o Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul (TCE/RS). Distante cerca de 400 metros, um grupo de aproximadamente 50 pessoas fazia uma manifestação contrária a quem pedia intervenção. O grupo representava cerca de 20 movimentos de esquerda, que batizaram a ação de “contra ato”.

Cerca de 250 manifestantes se reuniram em frente ao 38° Batalhão de Infantaria, em Vila Velha, na Região Metropolitana da Grande Vitória. Um trio elétrico foi usado pelos militantes, que estavam vestidos com camisa verde e amarela, da seleção brasileira e de apoio ao presidente. Na capital gaúcha, cerca de 100 manifestantes se reuniram próximo ao Terceiro Comando do Exército e, perto dali, um grupo de 50 pessoas fazia um “contra-ato”, em oposição à comemoração do golpe. 

Contrariando uma decisão judicial que impede a realização de manifestações no período da quarentena restritiva em Curitiba, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro se reuniram em frente ao 20º Batalhão de Infantaria Blindada (BIB) para celebrar o aniversário do golpe militar de 1964. No final da manhã, cerca de 30 pessoas se encontraram em frente ao 20º BIB, na região norte de Curitiba. Na parte da tarde, um grupo reduzido saiu em carreata para cumprir um itinerário que passou pelo 5º Grupo de Artilharia de Campanha e pelo 5º Batalhão Logístico do Exército Brasileiro, ambos na região sul da capital paranaense. 

Em Belo Horizonte, uma carreata saiu de ruas próximas ao Estádio Mineirão, Região Norte da capital, e seguiu até o centro da cidade. Os apoiadores do presidente defendem “intervenção militar com Bolsonaro no poder”, conforme faixas e bandeiras que ostentam. Reclamam também dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do fechamento do comércio de Belo Horizonte por conta de medidas contra a propagação do novo coronavírus. 

Em Fortaleza, apesar da manifestação convocada nos grupos de WhatsApp bolsonaristas locais, com os dizeres “intervenção para salvar a nossa nação” e uma faixa escrita “Intervenção com Bolsonaro no poder”, apenas algumas poucas pessoas foram ao local marcado, a Catedral Metropolitana, em meio ao clima chuvoso. /COLABORARAM LAILTON COSTA, RICARDO ARAÚJO, EDUARDO AMARAL, MATHEUS BRUM, LEONARDO AUGUSTO, ANGELO SFAIR e TUNAY PEIXOTO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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