Adriano Machado/ Reuters
Adriano Machado/ Reuters

Bolsonaro volta a ameaçar democracia e diz, sem provas, que processo eleitoral é fraudulento

Presidente também critica Barroso por atuar junto ao Congresso contra PEC do voto impresso

Sofia Aguiar, Matheus de Souza, Pedro Caramuru e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 15h04
Atualizado 19 de julho de 2021 | 19h10

O presidente Jair Bolsonaro voltou a ameaçar a democracia no País e disse, sem apresentar nenhuma prova, que o processo eleitoral usado hoje, com a urna eletrônica, é fraudulento. 

Nesta segunda-feira, 19, em encontro com apoiadores pela manhã, Bolsonaro reforçou que sua prioridade é a adoção do “voto auditável” e, novamente, fez críticas ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luis Roberto Barroso, mesmo após conversa com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, na semana passada, organizada para que os ânimos entre os Poderes fossem pacificados.

Em ataque ao seu possível concorrente nas eleições de 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro declarou que “as mesmas pessoas que tiraram Lula da cadeia e o tornaram elegível vão contar os votos dentro do TSE de forma secreta”.

Segundo o chefe do Executivo, suas declarações endereçadas ao presidente do TSE, feitas nas últimas semanas, não têm o objetivo de ofendê-lo, mas, sim de “mostrar a realidade”. “Acham que estou ofendendo o Barroso, estou mostrando a realidade”, afirmou. “Barroso foi para dentro do Parlamento fazer reunião com parlamentares. Acabou a reunião e o que vários líderes partidários fizeram? Trocaram os deputados da comissão especial para votar contra o parecer do Felipe Barros, que é o relator (da PEC do voto impresso), para não ter voto impresso”, disse.

De acordo com Bolsonaro, após o encontro, diversos parlamentares que eram a favor do voto impresso mudaram de opinião sobre o tema. Ainda sobre o tema, o presidente voltou a afirmar que “eleições não auditáveis não é eleição, é fraude”. Em conversa com apoiadores, Bolsonaro também ampliou os questionamentos sobre o uso de urna eletrônica e levantou a possibilidade de se ter fraudes nas eleições para deputado federal. Segundo o presidente, se for disputar a reeleição de 2022, ele entrega a faixa presidencial para “qualquer um”, contanto que as eleições sejam limpas.

Barroso tem afirmado que foi ao parlamento em agenda pública e amplamente divulgada, mediante o convite de parlamentares, inclusive da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), aliada do presidente e autora da proposta de voto impresso. A sessão foi organizada pelo Presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e foi transmitida ao vivo pelo canal da Câmara no YouTube.

Corrupção na Saúde 

O presidente também saiu hoje em defesa do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, investigado pela CPI da Covid no Senado por irregularidades na compra de vacinas no Ministério da Saúde durante seu tempo à frente da pasta. O presidente sustenta a tese de que seu governo continua, há dois anos e meio, sem registrar desvios e que inventaram o crime de “corrupção por pensamento” sobre seu ex-ministro, sob a alegação de que Pazuello teria pensado em se corromper.

Na semana passada, Bolsonaro havia dito que conversa com o ex-ministro quase diariamente e manteve que ele tem a consciência “tranquilíssima”. “Essa CPI aí dos três patetas - três patetas não, né? Três otários. Os ‘Três Patetas’ quando eu era moleque assistia muito eles e dava muita risada - tenta de toda maneira colar: ‘Mas o Pazuello conversou com empresários!’. Se tivessem tratando de corrupção (no encontro), não ia ter vídeo, pessoal”, argumentou o presidente, reforçando os ataques ao presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), ao vice-presidente Randolfe Rodrigues (REDE-AP) e ao relator Renan Calheiros.

Segundo imagens obtidas pela CPI da Covid, Pazuello gravou um vídeo com empresários se comprometendo a comprar doses da Coronavac por preço três vezes maior que o praticado pelo Instituto Butantan. De acordo com Bolsonaro, apesar de o ex-ministro ter se comprometido a assinar memorando de entendimento, a negociação não prosperou porque os representantes comerciais se tratavam de estelionatários.

“Eu converso quase todos os dias com empresário. Se é crime, eu sou criminoso”, emendou o presidente sobre as acusações. Durante o encontro, Bolsonaro destacou dispositivos apresentados por Omar Aziz e irmão de Calheiros, o deputado federal Renildo Calheiros (PCdoB-PE) que facilitaria a contratação de vacinas, sem licitação ou aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O chefe do Executivo, ao comentar sobre 2022, voltou a atacar seus opositores, como o PT, e declarou que não há “sede de poder” da sua parte com relação à presidência, afirmando inclusive que a cadeira presidencial teria “criptonita” - segundo as histórias em quadrinhos, mineral que enfraqueceria o Super-Homem. “Posso não saber o que de bom o PT vai fazer para vocês, mas tenho certeza e posso falar o que de mal esse pessoal vai fazer se voltar”, concluiu.

No Twitter, provocação a Randolfe

Na tarde desta segunda, no Twitter, o presidente voltou a atacar a CPI da Covid. O presidente compartilhou um vídeo em que Randolfe pede a autorização do uso vacina Covaxin. "Olha quem queria comprar a Covaxin sem licitação e sem a certificação da Anvisa", escreveu. "Randolfe, Omar e Renildo Calheiros, via emendas, tudo fizeram para que governadores e prefeitos pudessem comprar as vacinas a qualquer preço, com o presidente pagando a conta, obviamente." 

Randolfe respondeu: "É lógico que eu queria vacina o mais rápido possível. Salvar vidas, pra gente, não é brincadeira e não é algo que se negocie com intermediários. Queria a Janssen, a Covaxin, a AstraZeneca, a CoronaVac, a Pfizer... Nossa diferença é grande: eu queria VACINA! Vocês queriam PROPINA!"

 

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