Wilton Junior/Estadão
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'Propina é pelado na piscina': Bolsonaro defende Pazuello por reunião com intermediária de vacina

Ex-ministro da Saúde recebeu representantes de uma empresa que pretendia intermediar a venda de 30 milhões de doses da Coronavac; presidente também criticou a condução da CPI da Covid e foi rebatido pelo senador Omar Aziz

Brenda Zacharias, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 12h22
Atualizado 19 de julho de 2021 | 16h50

O presidente Jair Bolsonaro voltou a negar irregularidades na compra de vacinas por parte do Ministério da Saúde, conforme denúncias recentes, e a defender o ex-ministro Eduardo Pazuello e o ex-número 2 da pasta, o coronel Elcio Franco. As afirmações foram feitas na manhã deste domingo, 18, após o presidente receber alta médica e deixar o Hospital Vila Nova Star, onde estava internado desde a quarta-feira, 14. Na saída, ele parou para conversar com a imprensa por cerca de meia-hora.

A denúncia comentada por Bolsonaro diz respeito ao fato de Pazuello ter recebido representantes de uma empresa que pretendia intermediar a venda ao governo de 30 milhões de doses da Coronavac. A vacina do laboratório chinês Sinovac já está em uso no País graças à parceria com o Instituto Butantan. Segundo Bolsonaro, o fato de o ex-ministro ter gravado um vídeo com os representantes já seria um indicativo de regularidade da situação, e minimizou a situação dizendo que Brasília é o "paraíso dos lobistas".

"Se eu estivesse na Saúde, eu teria apertado a mão daqueles caras todos. O receber (os representantes)... ele não estava sentado à mesa. Geralmente, teria uma fotografia dele sentado à mesa e negociando. E se fosse propina, (Pazuello) não daria entrevista, meu Deus do céu, não faria aquele vídeo. Geralmente quando se fala em propina, é pelado e dentro da piscina", disse o presidente. 

A compra não foi concretizada. Segundo Bolsonaro, duas condições foram dadas por ele às negociações das vacinas: "passar pela Anvisa e só pagar quando chegar".  Também de acordo com o presidente, o coronel da reserva Elcio Franco, que era secretário-executivo do ministério na época, agiu bem na intermediação. "Não tem um centavo nosso despendido com essas pessoas", completou. "Vocês acham que no bolo, naquelas reuniões do Planalto, chega um cara (e diz): 'Pô, eu tenho uma vacina' e apresenta para o ministro… Eles nem dão bola pro cara. Brasília é o paraíso dos lobistas, dos espertalhões".

"Vocês sabiam que o orçamento diário da saúde é de R$ 500 milhões? Pode estar fazendo besteira? Pode. A gente fica grato se alguém apresentar algo que a gente possa corrigir. Agora, nos acusar, (acusar) a mim de corrupção por algo que não compramos, não pagamos, isso é má fé", disse.

Sobre as denúncias de atraso na compra de vacina, ele voltou a repetir que "não havia vacina" em fevereiro e em março e defendeu a distribuição atual dos imunizantes à população por parte do governo federal. "A primeira vacina foi (aprovada) em dezembro, no Reino Unido. O Brasil começou a aplicar (vacinas) no mês seguinte. Estamos lá na frente no tocante à vacina. E no que depender de mim, a vacinação é não obrigatória e ponto final". 

CPI da Covid

Novas possibilidades de cura da covid-19 e a origem da pandemia foram sugeridos por Bolsonaro como os principais assuntos a serem tratados pela CPI da Covid. A comissão do Senado Federal, instalada no final de abril, supostas irregularidades na condução da pandemia por parte do governo. “Se aparecer corrupção no meu governo, vou ser o primeiro a buscar uma maneira de apurar e deixar na mão da Justiça para que seja apurado”, afirmou o presidente.

A Polícia Federal abriu inquérito no último dia 12 de julho para averiguar se Bolsonaro cometeu o crime de prevaricação por supostamente não ter comunicado aos órgãos de investigação indícios de corrupção nas negociações para compra da vacina indiana Covaxin pelo Ministério da Saúde. As denúncias foram apresentadas pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) à CPI da Covid. Ao Estadão, Bolsonaro chegou a dizer que não pode ser enquadrado no crime por não ser funcionário público. "Eu entendo que a prevaricação se aplica a servidor público. Não se aplicaria a mim. Mas qualquer denúncia de corrupção, eu tomo providência. Até a do Luís Lima (Luis Miranda), mesmo conhecendo toda a vida pregressa dele, a vida atual dele, eu conversei com o Pazuello”, afirmou.

Neste domingo, o presidente da comissão, o senador Omar Aziz (PSD-AM), voltou a acusar Bolsonaro de ter prevaricado ao não investigar suspeitas de corrupção na compra de vacinas. "O presidente mentir é normal, ele é costumaz nisso. Ele prevarica, ele desfaz fatos e cria versões. Ele está internado no hospital, mas está agredindo as pessoas. Ele tenta se vitimizar o tempo todo, mas a gente não vê na boca do presidente uma palavra de solidariedade ao povo brasileiro. Você só vê ódio”, disse o senador em entrevista à CNN Brasil

Omar Aziz reforçou a avaliação de que Eduardo Pazuello mentiu à CPI ao afirmar que em nenhum momento teria negociado diretamente a compra de vacinas. Ele citou o vídeo de março deste ano, no qual o general promete a intermediários a aquisição de 30 milhões de doses da Coronavac a um preço superior ao contratado com o Instituto Butantan.

“O general Pazuello mentiu nacionalmente. Ele mentiu na CPI dizendo que não tratava desse assunto, e depois ele é pego na mentira. Então o presidente (Bolsonaro) acha que mentir não é nada. No Brasil, um ministro da Saúde pode mentir, não tem problema porque o presidente o perdoa, passa a mão por cima. E mantém no gabinete ao lado dele o general Pazuello e o coronel Elcio (Franco), que estavam negociando vacinas. Foi o próprio Pazuello que disse que não. A mentira é absorvida pelo mito”, ironizou Aziz.  

O presidente da CPI reafirmou que há “fortes indícios” de corrupção em negociações de compras de vacinas com preços superfaturados. Segundo ele, a comissão também vai investigar a compra de materiais hospitalares. “Os indícios são muito fortes. Não podemos prejulgar e dizer quem é o responsável, mas vamos chegar lá. O fato mais grave é que o presidente Bolsonaro foi alertado e não tomou nenhuma providência”, completou.

Para Aziz, a questão em jogo na CPI não seria apenas se o governo é corrupto ou não. “Não é só isso. A corrupção em plena pandemia é um fato gravíssimo. Mas o pior são as vidas que se perderam pela brincadeira de gabinete paralelo. Essas pessoas não podem ter morrido em vão, elas morreram por omissão, porque (no governo) não acreditaram na ciência, porque o Brasil não quis comprar vacina de laboratório sério, perdeu tempo se reunindo com Precisa, Dominghetti, Joãozinho, Mariazinha”, acrescentou. / COM EDUARDO RODRIGUES, DO ESTADÃO

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