Brenda Zacharias/ Estadão
Brenda Zacharias/ Estadão

Bolsonaro recebe alta e deixa hospital após tratar obstrução intestinal em SP

De acordo com boletim divulgado pela assessoria de comunicação do hospital, ele seguirá com acompanhamento ambulatorial da equipe médica assistente

Brenda Zacharias, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 09h41
Atualizado 18 de julho de 2021 | 15h40

O presidente Jair Bolsonaro recebeu alta médica neste domingo, 18, no quinto dia de internação. Ele tratava um quadro de obstrução intestinal no Hospital Vila Nova Star, na zona sul de São Paulo, e vinha apresentando melhora gradativa desde a última quinta-feira. Ainda de acordo com a nota divulgada pela assessoria, Bolsonaro seguirá com acompanhamento ambulatorial da equipe médica assistente.

O presidente saiu pela porta da frente do hospital, pouco antes das 10h. Bolsonaro usava máscara ao deixar o hospital, mas retirou a proteção para conversar com a imprensa. Durante meia-hora, ele comentou sobre seu estado de saúde, voltou a criticar medidas de isolamento contra a covid-19 e citou um novo medicamento que, afirma, pode ser um novo tipo de tratamento para a doença. Ele também voltou a defender o voto impresso.

O presidente menciou que pediria uma investigação sobre a proxalutamida - medicamento que vem sendo alardeado em mensagens enganosos que repercutem os resultados de uma pesquisa clínicaque ainda não foi detalhada em artigo científico ou analisada por cientistas independentes. "O que me surpreende é que a gente vê o mundo, os países, investindo em remédios, para curar o covid. Se você fala aqui em cura do covid, você passa a ser criminoso. Você não pode falar em cloroquina, ivermectina, e tem uma coisa que eu já acompanho há algum tempo, e nós temos que estudar aqui no Brasil, chama-se proxalutamida", afirmou.

Bolsonaro disse que a droga ainda está sendo estudada, por isso não está no mercado, mas que alguns países já teriam alcançado melhoras por meio de seu uso. "Isso existe no Brasil de forma não ainda comprovada cientificamente, de forma não legal, mas que tem curado gente. Eu quero ver se eu pego o nome do órgão lá que cuida desse assunto, (...) vamos ver se a gente faz um estudo sobre isso aí, para a gente apresentar uma possível alternativa. Nós temos que tentar!", disse.

O remédio já havia sido mencionado pelo presidente em uma de suas tradicionais lives semanais, em abril. "Já chegou à Anvisa a proxalutamida. É um medicamento que é desenvolvido conjuntamente com os Estados Unidos. Não é só nosso não, tá? Em conjunto com os pesquisadores americanos, de modo então que tenhamos então um remédio, mais cedo ou mais tarde, um remédio eficaz para combater aí a Covid", disse.

Apesar de ter sido um dos maiores apoiadores do tratamento precoce contra a covid-19, por meio de medicamentos que depois se provaram sem eficácia contra a doença, como cloroquina e ivermectina, o presidente disse ainda que "não errou" na resposta à pandemia. "Com todo respeito, eu não errei nenhuma ainda. Até quando lá atrás eu zerei os impostos da vitamina D. Nós não erramos nada no tocante a isso aí. Não é chute, é estudo."

Ao mesmo tempo em que se colocou como um defensor de buscar tratamentos para a doença, o presidente afirmou ter tido acessos a dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) que comprovam que "temor" e "pânico" são a segunda causa de agravamento da doença, o que motivou novas críticas ao isolamento social e ao lockdown adotado por prefeitos e governadores.

Um dos pontos criticados por Bolsonaro foi ao fechamento de igrejas - na coletiva, o presidente estava acompanhado do pastor Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus. "É um refúgio. A pessoa está apavorada e procura um padre, um pastor. Fecharam tudo a troco de quê?", questionou.

Ele também questionou a eficácia da Coronavac. "A Coronavac, ao que tudo indica, está com uma eficácia muito baixa. Olha o Chile, até o governador daqui (João Doria) pegou pela segunda vez, apesar de ele dizer que estava respeitando todos os protocolos, segundo ele diz", afirmou Bolsonaro. O governador tucano voltou a ter diagnóstico positivo para a doença na última quinta-feira, e está em isolamento.

Mais à frente, na entrevista, Bolsonaro voltou a citar o caso de Doria para criticar as medidas de isolamento. "Olha o governador de São Paulo, diz ele (estar) seguindo todos os protocolos: cumprimentando de cotovelo, máscara 24 horas por dia, duas doses da Coronavac, e foi reinfectado", afirmou Bolsonaro. A reinfecção pela doença é possível mesmo após tomar as duas doses dos imunizantes que, segundo estudos, são capazes de diminuir a chance de agravamento dos casos.

A recuperação do presidente

Bolsonaro foi internado na última quarta-feira, 14, após sentir fortes dores na região do abdômen. Ele também se queixava de crises de soluço há pelo menos dez dias. De acordo com diagnóstico médico, ele sofreu uma obstrução no tubo digestivo por causa de dobra do intestino, o que impedia a passagem adequada de alimentos.

O médico-cirurgião Antonio Luiz Macedo, que acompanha o presidente desde 2018, quando foi vítima de um ataque a faca, já havia adiantado a previsão da alta na tarde de ontem, ao chegar no hospital. "O sistema digestivo de Bolsonaro está funcionando, já há passagem de alimentos, e está sem obstruções", informou.

Em entrevista ao Estadão, o médico-cirurgião explicou que o quadro é "potencialmente grave", mas que a situação de Bolsonaro foi controlada rapidamente. O presidente foi transferido de Brasília para São Paulo para que o médico pudesse acompanhá-lo de perto, além da maior oferta de recursos para o tratamento. Uma nova cirurgia, porém, foi logo descartada pela equipe. "Novas cirurgias abririam espaço para novas obstruções", afirmou Macedo.

O processo de recuperação do presidente, no entanto, deve avançar cuidadosamente nos próximos dias. A equipe médica ainda irá definir a progressão da alimentação do presidente: a dieta deve passar de cremosa (consumida com colher) para pastosa (consumida com garfo), sem incluir alimentos fermentativos, que formam gases. 

Uma sonda neogástrica foi utilizada no presidente para levar alimentos e hidratação diretamente ao estômago. Ela foi retirada na quinta-feira, e desde então a alimentação via oral tem sido reintroduzida na rotina de Bolsonaro. 

Macedo afirmou também que outras recomendações a Bolsonaro incluam mastigar bem a comida, fazer refeições leves e praticar exercícios regularmente, como caminhadas. Também segundo o médico, a depender da avaliação da equipe, Bolsonaro estaria apto para voltar ao trabalho amanhã.

O próprio presidente descreveu o que motivou sua internação aos jornalistas, na saída do hospital."Comecei a passar mal depois de uma cirurgia de implante. E realmente é complicado saber a origem disso. Alguns dias depois agravou a crise de soluço, e parecia que estava pegando fogo o estômago. A causa disso era uma obstrução intestinal, porque a aderência é comum em quem já sofreu cirurgia, como eu sofri, após a facada do ex-psolista Adélio lá em Juiz de Fora", disse.

E completou: "Tive que me submeter a uma dieta, fiz o que tinha que ser feito. Queria ir embora desde o primeiro dia, mas não me deixaram ir embora. Espero daqui a uns 10 dias estar comendo aí um churrasquinho de costela."

Questionado sobre a sua recuperação, Bolsonaro disse que volta a despachar normalmente nesta segunda-feira, 19. No entanto, não garantiu seguir todas as recomendações médicas de alimentação e de atividade física e disse não ser "exemplo" nesse quesito.

Repercussão

Os filhos de Bolsonaro comemoraram a alta por meio de publicações em redes sociais. O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) publicou foto do pai em um corredor de hospital e escreveu na legenda: "Superado mais um dolorido obstáculo que pode ocorrer novamente a qualquer momento se não for seguida uma rotina rígida e regrada, já que tudo mudou para sempre após a tentativa de assassinato pelo ex-filiado ao PSOL". O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também postaram homenagens ao pai e compartilharam trechos da entrevista coletiva. 

A primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou vídeo ao lado do marido já no avião de volta à Brasília. Na madrugada, ela já havia publicado uma foto de apoiadores na frente do hospital. "Populares orando na frente do hospital. Só Deus para retribuir todo esse carinho por nós", escreveu.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, escreveu em rede social no fim da manhã que, caso Bolsonaro tivesse priorizado a ciência e a medicina na condução da pandemia, assim como fez com o próprio tratamento, “centenas de milhares de vidas teriam sido salvas”.

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