Bolsonaro não comanda nem uma patrulha na guerra à covid-19, dizem coronéis

Eles comparam o presidente com o capitão Sobel, o polêmico personagem de 'Band of Brothers'

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 10h14

Caro leitor,

A epidemia do coronavírus vê irromper um novo dissenso entre militares. Pouco a pouco se sucedem e aumentam as críticas à capacidade do presidente Jair Bolsonaro de lidar com a crise. Ainda há uma maioria que o apoia e vê o capitão como melhor do que qualquer “esquerdista”. Ainda que o termo seja usado para designar os governadores Wilson Witzel (Rio) ou João Doria (São Paulo).

“E o Lula? Com ele seria pior”, perguntou um coronel da Aeronáutica. O bolsonarismo é assim: sempre vai lembrar do ex-presidente. É que sem Lula não há Bolsonaro. Há ainda os militares que receberam cargos no governo e com eles salários, importância e benesses que vão além de uma vaga coberta na garagem. Essa turma só desembarcará no dia em que Bolsonaro deixar a Presidência. E olhe lá. Dali, quase nenhuma crítica aparece.

Mas começam a se consolidar lideranças alternativas a Bolsonaro entre os apoiadores do presidente. Seu ex-ministro Santos Cruz é apenas o mais conhecido. Pouco depois da desastrada entrevista que Bolsonaro concedeu com uma máscara cobrindo sua orelha, lá foi Santos Cruz tuitar condenando a “politicagem, fanatismo, fanfarronice”.

O general pedia que o governo liderasse. Querer que Bolsonaro lidere alguma coisa é como pedir ao capitão Sobel, de Band of Brothersque consiga conduzir sua patrulha ao ponto pré-determinado. Sobel cria picuinhas com os subordinados. É desconfiado. Pensa que todos querem lhe passar a perna. Não ouve ninguém. Sempre quer punir alguém pelos seus erros.

Sobel não sabe liderar. O que seriam problemas de caráter na vida civil assumem outra dimensão durante a guerra. Ali é necessário confiar em quem lidera, que deve saber como fazê-lo. O chefe será, no terreno, responsável pela vida de seus subordinados. Na série, estes dão um jeito de remover Sobel. Preferem a liderança do tenente Winters.

“Conheço os generais de Bolsonaro. São todos excelentes líderes e administradores. Dentro dos quartéis”, disse um coronel.  Mas eles também estariam “perdidos” no Planalto em funções civis. Enquanto eles e Bolsonaro se preocupavam com o samba-enredo da Mangueira no carnaval, a epidemia de coronavírus fazia milhares de mortes na China. No dia 13 de fevereiro, o jornal publicava que o surto da doença estava apenas começando fora da China.

E o que fizeram os homens do Estado-Maior do Planalto? Algum plano de contenção da doença nas fronteiras? Alguma barreira sanitária foi criada nos portos e aeroportos? Houve compras de emergência ou estímulo à produção de equipamentos como respiradores, máscaras, aventais, luvas, óculos para os profissionais de saúde ou simplesmente testes para a população? Com qual cenário os assessores presidenciais trabalhavam? Era só uma “gripezinha”...

“Não se prepararam para o pior cenário”, disse o coronel Glauco Carvalho, da PM paulista. Por 15 anos ele foi oficial de Estado-Maior em São Paulo. Enfrentou emergências como os ataques do Primeiro Comando da Capital. Trabalhou na assessoria parlamentar da PM em Brasília, onde conheceu o então deputado Jair Bolsonaro. Glauco conclui: “Ele é incapaz de liderar.”

A paciência de Glauco acabou depois da entrevista na qual o presidente chamou a covid-19 de “gripezinha”. A insistência em dividir o País, atacando governadores que compreenderam a gravidade da situação, em nome da esperança de ser reeleito em 2022, mostra a compreensão que Bolsonaro tem do momento.  E a importância que dá às vidas de seus concidadãos.

Ao vê-lo na TV sem saber colocar uma máscara no rosto, outro coronel – este do Exército – desabafou para amigos: “Se estivesse no Planalto, entrava na sala do capitão, que não consegue comandar uma patrulha, e lhe dava um esporro.” Glauco mandou aos amigos uma mensagem: diante de Bolsonaro, sentia-se “envergonhado” de ser militar.

Ele e outros militares veem o tempo escoar. Eles prestam atenção às manifestações espontâneas que surgiram contra o capitão. A população em quarentena está com os nervos à flor da pele. Por enquanto, ela voltou seu descontentamento contra Bolsonaro. Os coronéis acham que o rastro de mortes que a covid-19 deixará no País fará de Bolsonaro – para quem tudo não passava de “histeria” – um pária. E suas instituições podem pagar um preço alto pelo apoio que deram ao capitão.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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