Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Bolsonaro expulsa do Alvorada mulher que o questiona sobre mortes por covid-19

Presidente ignora pergunta sobre os mais de 38 mil mortos pela doença e manda mulher que diz ter votado nele se retirar e cobrar respostas de "seu governador'"

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2020 | 09h44
Atualizado 10 de junho de 2020 | 15h31

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro mandou uma mulher se retirar da frente do Palácio da Alvorada, na manhã desta quarta-feira, 10, após ela o questionar sobre as mais de 38 mil mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil. "Cobre do seu governador. Sai daqui", disse ele à mulher, que é integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e se misturou entre os apoiadores do presidente. Após ouvir a cobrança, Bolsonaro voltou a minimizar a pandemia e afirmou que "as mortes estão havendo no mundo todo, não apenas pela covid".

"Nós temos hoje 38 mil mortos por causa do covid. E, assim, não são 38 mil estatísticas, são 38 mil famílias que estão morrendo nesse momento, que estão chorando. O senhor, como chefe da Nação, eu votei no senhor, fiz campanha para o senhor, acho até que o senhor me conhece. E eu sinto que o senhor traiu a nossa população", disse a mulher, que levou um cartaz com o número de mortos e se identificou como Cristiane Bernart.

O Movimento Brasil Livre (MBL) ganhou projeção nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e chegou a apoiar a eleição de Bolsonaro. Depois, no entanto, rompeu com o presidente. Formada em Letras, Bernart é assessora no gabinete do vereador de São Paulo Fernando Holiday (Patriota), um dos líderes do MBL. Em post no Twitter, Holiday disse que dispensou ela do trabalho hoje para que ela participasse de manifestação e descontará o salário.

 

Ao cobrar Bolsonaro no Alvorada, Bernart afirmou que a população está morrendo, mas Bolsonaro ficou em silêncio e se afastou dela, dando a palavra para outras pessoas. Apoiadores tentaram abafar a fala dela.  Diante da insistência, o presidente disse à manifestante parar de falar ou, então, sair do local. "Se você quiser falar, sai daqui, já foi ouvido. Cobre do seu governador. Sai daqui", declarou o presidente mais uma vez. A mulher, no entanto, permaneceu no local, uma área cercada em que os apoiadores costumam aguardar a saída do presidente da residência oficial.

A conversa do presidente no Alvorada foi transmitida ao vivo pelo canal de YouTube "Cafézinho com Pimenta", do militar reformado Winston Lima, mas o vídeo foi retirado do ar pouco depois. Lima é um dos alvos do inquérito das fake news, no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro também não transmitiu a interação com apoiadores em "live" no Facebook, como costuma fazer diariamente.

Após mandar Bernart deixar o local, o presidente voltou a minimizar as mortes por coronavírus ao dizer que os óbitos acontecem no mundo todo, e não apenas pela covid-19. "Aquela figura falando abobrinha ali. Vem usar uma coisa séria, as mortes, para fazer demagogia aqui, todos nós respeitamos e temos compaixão pelo pessoal que perdeu um familiar, não importa a circunstância", disse.

"Mortes estão havendo no mundo todo, não é apenas a covid. Agora, querer culpar a mim... Tem muita gente morrendo de fome, depressão, suicídio, uma política feita apenas de um lado", disse Bolsonaro.

Esta não é a primeira vez que o presidente demonstra incômodo ao ser cobrado pelas mortes causadas pela doença no País. No fim de abril, ao ser questionado por um jornalista sobre o fato de o Brasil ter superado a China em número de vítimas, Bolsonaro respondeu com um "e daí?". Antes disso, já havia dito não ser "coveiro" para comentar os óbitos.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem minimizado os efeitos da pandemia e, por diversas vezes, chegou a tratá-la como "gripezinha". Ele também é crítico a medidas de isolamento social, considerada por organismos de saúde a maneira mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Nos últimos dias, o presidente também tem adotado a narrativa de responsabilizar governadores e prefeitos pela crise, distorcendo uma decisão do Supremo Tribunal Federal para atribuir a eles a função de conduzir as ações de enfrentamento. Diferentemente do que diz o presidente, a decisão da Corte assegurou aos Estados e municípios autonomia para tomar medidas que tenham como objetivo tentar conter a propagação da doença, mas não exime a União de realizar ações e de buscar acordos com os gestores locais

 

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