José Dias / Presidência da República
José Dias / Presidência da República

Bolsonaro pede desculpas ao STF e diz que vídeo com leão e hienas foi ‘erro’

Presidente afirma que não pode responsabilizar o filho Carlos pela publicação: 'A responsabilidade final é minha. Tem mais gente que tem a senha'

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 09h41
Atualizado 29 de outubro de 2019 | 17h16

RIAD, ARÁBIA SAUDITA – O presidente Jair Bolsonaro afirmou ao Estado que a publicação em sua conta no Twitter em que se compara a um leão sendo atacado por hienas foi um  “erro” e, por isso, pede desculpas.

No vídeo, divulgado na segunda-feira, 28, os animais que ameaçam o leão levam o símbolo de instituições, como o Supremo Tribunal Federal, a Organização das Nações Unidas (ONU), o seu partido, PSL, e siglas de oposição – entre as quais o PT e o PCdoB -, além da imprensa. A postagem foi apagada cerca de duas horas depois diante de forte repercussão negativa.

“Me desculpo publicamente ao STF, a quem porventura ficou ofendido. Foi uma injustiça, sim, corrigimos e vamos publicar uma matéria que leva para esse lado das desculpas. Erramos e haverá retratação”, disse o presidente durante viagem à Arábia Saudita.

No filme postado na segunda-feira, o rei da selva se alia a outro leão, chamado “conservador patriota”, parte para o contra-ataque e vence seus inimigos.

“Vamos apoiar o nosso presidente até o fim. E não atacá-lo. Já tem a oposição para fazer isso!”, dizem os letreiros sobrepostos às imagens da fuga. A montagem se encerra com a transição de imagens da bandeira do Brasil para a de Bolsonaro de braços abertos. A trilha sonora épica dá espaço a uma gravação do presidente repetindo o seu lema de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

O presidente afirmou que o vídeo foi publicado em sua conta sem o devido cuidado e que orientou sua equipe a evitar este tipo de conteúdo. “O vídeo não é meu, esse vídeo apareceu, foi dada uma olhada e ninguém percebeu com atenção que tinham alguns símbolos que apareciam por frações de segundos. Depois, percebemos que estávamos sendo injustos, retiramos e falei que o foco (nas redes sociais) são as nossas viagens.”

Questionado se o autor da postagem foi o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que já admitiu ter acesso às contas do pai nas redes sociais, o presidente evitou responsabilizá-lo.  “Não se pode culpar o Carlos. A responsabilidade final é minha. O Carlos foi um dos grandes responsáveis pela minha eleição e é comum qualquer coisa errada em mídias sociais culpá-lo diretamente. A responsabilidade é minha, tem mais gente que tem a senha e não sei por que passou despercebido essa matéria aí”, afirmou.

Presidente em exercício, Hamilton Mourão disse nesta terça-feira, 29, em Brasília que não assistiu ao vídeo. “Acho que foi alguém que postou. Alguém que tem acesso às redes sociais dele, não sei quem. E ele, obviamente, quando viu, tirou”, afirmou. Questionado se seria representado como leão ou hiena no vídeo, Mourão desconversou: “Não vi. Está bom?”.

‘Atrevimento presidencial parece não encontrar limites’, diz decano

Ao comentar o vídeo, o decano do Supremo, ministro Celso de Mello, disse em nota que “o atrevimento presidencial parece não encontrar limites”. “É imperioso que o senhor Presidente da República - que não é um ‘monarca presidencial’, como se o nosso País absurdamente fosse uma selva na qual o leão imperasse com poderes absolutos e ilimitados - saiba que, em uma sociedade civilizada e de perfil democrático, jamais haverá cidadãos livres sem um Poder Judiciário independente, como o é a magistratura do Brasil”, disse o decano na nota.

Nesta terça-feira, o ex-líder da bancada do PSL na Câmara deputado Delegado Waldir (PSL-GO) acredita que o presidente Bolsonaro apenas se desculpou ao Supremo pela postagem do vídeo que associava a corte a hienas para “salvar seus filhos”.

“Eu vi que ele pediu desculpas para o STF. É porque ele depende do Supremo para salvar os filhos dele. Aos demais (citados no vídeo), ele não pediu desculpas”, disse Waldir ao Estadão/Broadcast. /COLABOROU CAMILA TURTELLI

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