Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Bolsonaro critica juiz do caso Flávio e se exalta com jornalistas

Na saída do Alvorada, presidente sugere ainda que filha do magistrado é funcionária fantasma; com respostas agressivas, Bolsonaro diz que repórter 'tem uma cara de homossexual terrível'

Mateus Vargas, Felipe Frazão e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 13h32
Atualizado 21 de dezembro de 2019 | 13h28

BRASÍLIA –  O presidente Jair Bolsonaro criticou nesta sexta-feira, 20, o Ministério Público do Rio e o juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau por causa da operação de busca e apreensão em endereços ligados ao senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), seu filho mais velho, na última quarta-feira. Bolsonaro também reagiu com irritação ao ser questionado por jornalistas sobre suspeitas em torno de Flávio e atacou a imprensa, na entrada do Palácio da Alvorada. Associações de jornalistas repudiaram a atitude do presidente

Flávio é investigado no inquérito que apura movimentações financeiras atípicas por parte do policial militar aposentado Fabrício Queiroz. A suspeita é a de que Queiroz, assessor de Flávio quando o atual senador era deputado estadual, tenha comandado a prática de “rachadinha” – repasse de parte do salário do servidor ao político – no gabinete da Assembleia.

Ao ser questionado se Flávio teria cometido um deslize, Bolsonaro se exaltou. “Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”, disse ele a um repórter. 

Em seguida, após o presidente afirmar que era o responsável por um empréstimo de R$ 40 mil destinado a Queiroz, outro jornalista perguntou se ele teria o comprovante. “Oh, rapaz, pergunte para a tua mãe o comprovante que ela deu ao teu pai, está certo?”, respondeu Bolsonaro, antes de dizer ter feito o empréstimo para justificar depósito de Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Com dedo em riste, Bolsonaro também mandou jornalistas ficarem “quietos” mais de uma vez, e cobrou respostas dos repórteres sobre pontos da investigação do MP. “Uma pergunta: o processo é segredo de Justiça ou não é? Respondam!”, afirmou, elevando o tom de voz.

Irritado, Bolsonaro acusou o MP do Rio de proteger o governador Wilson Witzel (PSC) e afirmou que, “pelo que parece”, uma filha de Itabaiana é funcionária “fantasma” do governo fluminense. “Você já viu o MP do Estado do Rio de Janeiro investigar qualquer pessoa, qualquer corrupção? E olha que o Estado mais corrupto do Brasil é o Rio de Janeiro”, disse. “Vocês já perguntaram para o governador Witzel por que a filha do juiz Itabaiana está empregada com ele? Pelo que parece, não vou atestar aqui, é fantasma. Já foram em cima do MP ver se vai investigar o Witzel?”.

Bolsonaro também criticou a decisão de abril em que Itabaiana quebrou o sigilo de 86 pessoas e nove empresas ligadas ao antigo gabinete de Flávio na Alerj. O presidente disse que foram cumpridos mandados de busca e apreensão em casas de pessoas que "não tinham nada a ver" e rebateu as acusações de que o seu filho teria lavado dinheiro em uma loja de chocolate.

“Acusaram ele (Flávio) de estar ganhando mais na casa de chocolate. O que acontece, quem leva mais cliente para lá, ele leva um montão de gente importante, ganha mais. É mesma coisa chegar para o, deixa eu ver, o Neymar e (perguntar) ‘por que está ganhando mais do que outros jogadores?’. Porque ele é o mais importante. Não é comunismo”, disse Bolsonaro sobre o filho primogênito.  

O Estado apurou que o temor de Bolsonaro e de sua família tem ligação com a troca de advogado de Queiroz –Paulo Klein anunciou que não defendia mais o ex-PM. O receio é que a mudança esteja relacionada com a intenção do ex-assessor de fazer delação premiada. Agora, uma das estratégias traçadas pela defesa de Flávio e por aliados do presidente é tentar macular a investigação do MP fluminense ao levantar a suspeita de que o procedimento tem fins políticos.

Witzel afirma que não interfere no trabalho de investigação policial

O governador do Rio, Wilson Witzel, afirmou em nota que respeita as instituições, não interfere no trabalho de investigação policial, nem sobre o Ministério Público. O texto ressalta ainda que a nomeação de Natália Nicolau na Casa Civil foi feita no dia 1° de abril “15 dias antes da distribuição eletrônica do processo de Flávio Bolsonaro ao Juízo de Direito da 27° Vara Criminal, onde atua o pai da servidora”.

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