Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro convoca empresários a ‘jogar pesado’ contra Doria para evitar lockdown

Em reação, governador afirma que o presidente 'despreza vidas': 'Saia da bolha de ódio e comece a ser um líder, se for capaz'

Jussara Soares e Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 14h30
Atualizado 15 de maio de 2020 | 10h39

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro pediu nesta quinta-feira, 14, para empresários “jogarem pesado” com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), para evitar o lockdown – fechamento total de todas as atividades – no Estado como medida de combate ao coronavírus.  Em videoconferência promovida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Bolsonaro disse que há “uma guerra” e uma motivação política de tentar quebrar a economia para atingir o seu governo.

“O que parece que está  acontecendo parece uma questão política, tentando quebrar a economia para atingir o governo”, disse o presidente. 

Bolsonaro criticou as medidas de lockdown que passaram a ser consideradas por Doria, um dos seus principais adversários políticos. São Paulo tem 54.296 casos confirmados de novo coronavírus e 4.315 mortes. O Brasil tem 188.974 casos de covid, com 13.149 vítimas fatias. Apesar disso, Bolsonaro defende o fim do distanciamento social, contrariando medidas adotadas por autoridades governamentais e de saúde ao redor do mundo.

 “Um homem está decidindo o futuro de São Paulo, o futuro da economia do Brasil. Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra. É o Brasil que está em jogo, se continuar o empobrecimento da população daqui a poucos seremos iguais na miséria”, disse Bolsonaro.

Doria reagiu: “Hoje, mais uma vez, o presidente da República perde a chance de defender a saúde e a vida dos brasileiros. São Paulo está lutando para proteger vidas". O governador disse que Bolsonaro "despreza vidas".  "Ele prefere fazer comícios, andar de jet-ski, treinar tiros e fazer churrasco. Enquanto isso, milhares de brasileiros estão morrendo todos os dias. Acorde para a realidade presidente Bolsonaro. Saia da bolha de ódio e comece a ser um líder, se for capaz.”

O governador de São Paulo disse lamentar que o presidente da República, em vez de trabalhar pela saúde do povo, "esteja mais preocupado em atender um pequeno grupo de empresários ligados à Fiesp". "Gostaria que o Brasil tivesse um líder que liderasse o combate ao coronavírus, a luta pela vida, o respeito pela ciência, medicina e saúde. Um presidente que fosse solidário, visitando hospitais de campanha, cidades que estão em colapso." Doria deixou ainda um "convite" a Bolsonaro: "Em vez de pedir para jogar pesado contra São Paulo, jogue a favor do Brasil".

Como mostrou a Coluna do Estadão nesta quinta-feira, empresários já haviam cobrado na quarta em reunião com Doria um novo e consistente plano de saída do isolamento. O governador falou em uma estratégia a ser elaborada para evitar recaídas, mas não definiu prazo para o fim total do isolamento.

Campanha

Pouco antes da fala do presidente, o secretário especial de Comunicação, Fábio Wajngarten, pediu também aos empresários que façam campanha contra o lockdown, destacando a perda de vidas e de empregos. “Pressionem os governadores, pressionem os governos a quem de direito. A Presidência da República está com vocês. O presidente Bolsonaro trabalha para vocês. O governo trabalha para vocês, a Presidência, aqui em Brasília. Pressionem a quem de direito, por favor”, disse, pedindo que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, lidere o movimento.

Bolsonaro defendeu a abertura rápida do mercado e providências imediatas para evitar consequências como possibilidade de “caos”, “saques” e “desobediência civil.” Segundo o presidente, neste caso não adiantará convocar as Forças Armadas porque não haverá militares suficientes para atuar na Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

“Lá na frente, eu tenho falado até com o ministro Fernando (Azevedo e Silva), da Defesa, os problemas vão começar a acontecer, de caos, saques de supermercado, desobediência civil. Não adianta querer convocar as Forças Armadas que não vamos ter gente para tanta GLO. Não existe gente para tanta GLO. E o povo vai estar na rua, em grande parte, por estar passando fome. E homem com fome não tem razão, ele perde a razão”, disse.

Bolsonaro citou o decreto no qual incluiu academias, salões de beleza e barbearia como serviços essenciais. Na semana passada, o presidente já havia incluído a construção civil e atividades industriais.

“Tem governador falando que não vai cumprir. Eles estão partindo para a desobediência civil. Se alguém não concorda com um decreto meu tem dois caminhos: um projeto de decreto legislativo no Congresso, para tornar sem efeito o meu decreto, ou ação na Justiça, e não ‘não vão cumprir’”, disse.

O que diz o Ministério Público

No entendimento de assessores jurídicos do Ministério Público Federal ouvidos pelo Estadão, o decreto não pode ser ignorado, mas governadores e prefeitos têm o direito de editar novos atos administrativos justificando não ser possível cumprir a determinação por causa da situação calamitosa em suas regiões – risco de falta de leitos de UTI, por exemplo.

Para integrantes do MPF, a decisão do Supremo deixou claro que, se o governo federal mandar fechar tudo para evitar a propagação do vírus, gestores locais não podem reabrir. Mas quando Bolsonaro libera atividades, cabe a cada gestor analisar a situação local. O presidente, contudo, disse na terça-feira, 12, que a Advocacia-Geral da União (AGU) pode ir à Justiça cobrar o cumprimento.

 

 

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