Cesár Itiberê/PR
Desde 1982, após João Figueiredo discursar na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, todos os presidentes do País - com exceção de Itamar Franco - usaram a tribuna pelo menos uma vez. Por tradição, o Brasil abre os debates na ONU. Cesár Itiberê/PR

Na ONU, Bolsonaro vai rebater crítica ambiental

Fala do presidente tratará de ações para combater queimadas na Amazônia em resposta a ataques da comunidade internacional

Beatriz Bulla e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2019 | 15h43
Atualizado 22 de setembro de 2019 | 13h27

WASHINGTON E BRASÍLIA - Apesar da promessa de um discurso “conciliatório”, o presidente Jair Bolsonaro deve aproveitar sua fala na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira, 24, para enviar recados à comunidade internacional. A estreia do brasileiro na organização terá respostas às críticas – na visão do governo, indevidas – feitas à política ambiental de Bolsonaro e à condução do combate às queimadas na Amazônia.

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Desde a campanha eleitoral Bolsonaro foi classificado pela imprensa estrangeira como um populista de extrema-direita, com descrição dos episódios de retórica do brasileiro e sua visão a respeito de proteção ambiental. A pressão se intensificou em agosto, com a divulgação de dados sobre aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia no ano de 2019, e levou a um embate público entre Bolsonaro e o presidente francês, Emmanuel Macron.

Itamaraty e militares sabem que o momento é de “baixar a poeira” e, portanto, evitar novas polêmicas. Por isso, a linha a ser seguida pelo presidente será a adotada no pronunciamento na TV feito após a intensificação dos protestos internacionais sobre a Amazônia. A previsão é de que Bolsonaro repita que o governo brasileiro não tolera crimes ambientais, defenda a soberania no País, envie recados a Macron e indique que as queimadas na floresta tropical não atraíram a atenção da comunidade internacional em governos anteriores – sugerindo que há má vontade com sua gestão. O governo também deve trazer dados para repetir o argumento de que as queimadas estão na média de anos anteriores.

A ideia é tentar reverter a imagem de que as queimadas foram produzidas pelo governo Bolsonaro, segundo um diplomata, e abrir caminho para oportunidades econômicas na região. No discurso, o presidente deve indicar que o conceito de desenvolvimento sustentável existe com a contribuição do Brasil e que o País está aberto a iniciativas de desenvolvimento da região com cooperação do setor privado.

Bolsonaro vai citar no discurso a Operação Acolhida, de recebimento de refugiados venezuelanos. O programa, encabeçado pelos militares, tem boa recepção na comunidade internacional. Uma ala do governo trabalhava para que o foco do discurso fosse esse, com ideia de virar a apresentação para uma pauta positiva – mas o predomínio da fala será sobre a nova gestão de Bolsonaro e as respostas sobre a situação ambiental.

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O presidente já afirmou que não pretende “apontar o dedo” para outros chefes de Estado em sua fala na ONU. “Nós temos que falar do patriotismo nosso, da questão da soberania, do que o Brasil representa para o mundo, sempre aberto, um país cujo povo é bem recebido em qualquer lugar. Aqui também tem formação de gente do mundo todo”, disse Bolsonaro anteontem, a jornalistas. “A ideia é fazer um pronunciamento falando de quem nós somos, nossas potencialidades, o que mudou também. Não tem mais aquela questão ideológica.”

Em paralelo, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem feito um périplo por redações de veículos de imprensa estrangeira, em Washington e Nova York, e representará o País na Cúpula do Clima, na qual o Brasil não terá direito a discurso. O governo quer ocupar todos os espaços em que o tema da Amazônia puder ser levantado, para tentar rebater críticos.

“O motivo dessa missão é esclarecer sobre o que de fato está acontecendo no Brasil. Desmistificar essa falsa ideia de que houve um desmonte do sistema ambiental, de que houve flexibilização da legislação ou da fiscalização, de que o Brasil não se importa com meio ambiente. É um discurso de esclarecimento e de oportunidades”, afirmou Salles, em Nova York, ao Estado.

O texto a ser lido por Bolsonaro foi discutido pelo presidente com o chanceler Ernesto Araújo, o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, e Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. O assessor para assuntos internacionais do Planalto, Filipe Martins, também participou da elaboração do discurso. 

Preocupados com o tom que o presidente adotará perante à comunidade internacional, a bancada ruralista enviou o senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) como um emissário na interlocução com o Planalto, para assegurar que o presidente não criará novos atritos que possam ficar no caminho das negociações comerciais do País.

Discurso de Bolsonaro deve conter críticas à esquerda

O presidente pretende fazer críticas a Cuba e Venezuela durante sua fala, com a visão de que governos de esquerda nesses países levaram à corrupção e ao sofrimento da população. Um dia antes da abertura da Assembleia-Geral, Araújo irá representar o Brasil em encontro do Grupo de Lima e em reunião que poderá ativar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar)

O pacto, da época da Guerra Fria, pode permitir, no limite, uma intervenção militar na Venezuela. Militares e diplomatas brasileiros, no entanto, concordaram que o País seguirá se opondo ao uso de força. Há previsão, no entanto, de que, junto com Colômbia, o Brasil proponha a criação de uma estrutura formal para liberar a aplicação de sanções políticas e econômicas ao chavismo por parte dos países signatários do Tiar.

Durante os últimos dias, assessores discutiram também a duração do discurso, considerando que a fala não pode ser tão curta como o pronunciamento feito no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, mas também que o presidente não se sai bem em discursos lidos.

Após cirurgia, Bolsonaro terá agenda restrita

Em recuperação após passar por uma cirurgia, o presidente terá agenda restrita durante a passagem de três dias pelos Estados Unidos, mas vai se reunir com o presidente americano Donald Trump para um jantar. Não há expectativa de outros encontros bilaterais na viagem.

Bolsonaro escolheu alguns dos ministros mais próximos para acompanhá-lo na viagem. Entre eles, o general Heleno, considerado um de seus principais conselheiros, e o chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. A primeira-dama Michelle Bolsonaro integrará a comitiva, além de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e indicado para assumir a embaixada do Brasil em Washington. O senador Nelsinho Trad (PSD-MS) também estará na viagem.

Passagem pela Assembleia deve ser marcada por protestos

A previsão de protestos e boicotes já dissuadiu Bolsonaro da ideia de visitar Nova York em maio. Agora, em meio a uma crise de imagem considerada nos bastidores por diplomatas como uma das mais sérias dos tempos recentes, Bolsonaro aceitou enfrentar os manifestantes para fazer o discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU.

Pelo menos dois protestos de rua estão convocados para recepcionar o presidente do Brasil em Nova York. O primeiro está previsto para a segunda-feira à tarde, quando Bolsonaro desembarca nos Estados Unidos. O ato “cancele, Bolsonaro” deve acontecer a partir das 18h (horário de Brasília), no Bryant Park, próximo aos hotéis onde as delegações estrangeiras se hospedam durante a Assembleia.

A manifestação está sendo convocada pelos movimentos Defend Democracy in Brazil, New York Climate Save Movement e Climate Save Movement. Na manhã do dia seguinte, ativistas também ligados à defesa da causa ambiental organizam protestos nas ruas próximas à sede da ONU, onde Bolsonaro estará discursando.

Dentro do plenário da Assembleia-Geral, Bolsonaro deve ser alvo de boicote de delegações como a cubana. Diplomatas do país discutiram nos últimos dias a possibilidade de a missão de Cuba na ONU não compareça no momento do discurso de Bolsonaro. 

Não seria a primeira vez que isso aconteceria durante discurso do Brasil. Quando o ex-presidente Michel Temer abriu a Assembleia-Geral da ONU logo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, países da América Latina protestaram: chefes de Estado da Costa Rica, Venezuela, Equador e Nicarágua saíram do recinto quando o presidente brasileiro começava seu discurso. Representantes de Cuba e Bolívia nem chegaram a entrar no local. /COLABORARAM MATEUS VARGAS e PAULO BERALDO, DE NOVA YORK, A CONVITE DA ONU

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Na ONU, jovens pedem 'justiça climática' e renovação política

Mil pessoas participam de evento na sede da Organização das Nações Unidas para chamar atenção para mudanças do clima; secretário-geral fala em 'momento de mudança'

Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2019 | 14h46

NOVA YORK - Cerca de mil jovens dos cinco continentes se reúnem neste sábado, 21, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, para pressionar políticos a adotarem ações imediatas para reduzir as consequências das mudanças climáticas. O evento acontece um dia após a greve global do clima, que mobilizou milhões de pessoas em 130 países. 

Participam da ação ainda empreendedores, executivos, diplomatas e representantes da maior parte dos 193 Estados-membros da ONU. Na segunda, a instituição é palco da cúpula global do clima e, na terça, da Assembleia Geral das Nações Unidas, principal encontro de líderes mundiais. 

Na abertura do evento, a ativista sueca Gretha Thunberg, uma das líderes das manifestações, exaltou os resultados da greve do clima. "Mostramos que estamos unidos e que nós somos imparáveis", afirmou, sob aplausos. 

O secretário-geral das Nações Unidas, o português Antônio Guterres, defendeu a necessidade de paz entre as pessoas e o planeta, dizendo que as mudanças climáticas têm criado mais conflitos ao redor do mundo ao forçarem migrações e tornarem regiões improdutivas. Segundo ele, graças ao movimento já há impacto na atuação de cidades, governos e do setor privado. "Ainda estamos perdendo a corrida, a mudança climática está correndo mais rápido que nós, mas há uma mudança e, largamente, devido a vocês", afirmou ao se dirigir aos jovens. 

Jovens sentados à mesa

O Estado entrevistou jovens diferentes regiões do planeta no evento e, de todos, ouviu sobre a necessidade de os políticos serem responsabilizados pelas consequências da crise do clima e implementarem mudanças concretas. Também pediram mais participação dos jovens nos processos de tomada de decisão e na política. 

"Queremos mais jovens sentados à mesa tomando decisões. Cada estado de cada país precisa de jovens em alinhamento com as políticas locais", disse o norte-americano Jaylen Boone, observador da Associação das Nações Unidas dos EUA, para quem a renovação política é crucial. "As mudanças climáticas já estão aqui: agora é uma questão de justiça climática". 

São semelhantes as palavras de Mirana Andriarisoa, que viajou quase 14 mil quilômetros de Madagascar até Nova York. Em seu país, oito em cada dez habitantes trabalham na zona rural, o que aumenta a vulnerabilidade a secas, enchentes, tempestades e extremos climáticos. "Madagascar tem sido muito afetado e as pessoas estão ficando mais pobres", disse ela, sobre a nação de 25 milhões de habitantes localizada no continente africano. "Os países desenvolvidos são muito mais responsáveis pelas mudanças climáticas, então eles precisam tomar atitudes imediatas. Precisamos de ações mais sérias e de justiça climática". 

Um documento da Federação Internacional da Cruz Vermelha (IFCR) divulgado na quinta-feira estimou que o número de pessoas precisando de ajuda humanitária por causa de mudanças climáticas pode chegar a 200 milhões por ano em 2050 se nada for feito. Intitulado 'O custo de não fazer nada', o estudo mostra ainda que, nos próximos onze anos, os custos anuais podem chegar a US$ 20 bilhões.

'Nossa casa está pegando fogo' 

A espanhola María Laín Hernandez Ballesteros, que faz mestrado em cooperação internacional no seu país, reforçou uma das mensagens mais repetidas nas marchas de sexta: 'nossa casa está pegando fogo' e 'não há planeta B'. "É agora ou nunca. As decisões dos políticos vão determinar o nosso futuro e estamos aqui para falar diretamente com eles", afirmou. "É muito importante que haja novos políticos e que as gerações mais novas sejam ouvidas nas decisões". Hoje, há 1,8 bilhão de jovens no mundo, o maior número da história. 

Eleala Avanitele, voluntária da Federação Internacional da Cruz Vermelha em Tuvalu, país formado por ilhas na Oceania, diz que as nações insulares são as mais afetadas pelas mudanças climáticas, em especial por causa da elevação do nível do mar. "Queremos mostrar que a mudança climática é uma realidade nos nossos países, é a nossa vida diária. Só estamos pedindo respeito e ajuda". 

"Em Bangladesh, somos as vítimas inocentes das mudanças climáticas, um dos dez países mais vulneráveis a eventos climáticos. É uma população enorme (183 milhões de habitantes) e os extremos climáticos são muito sérios para nós. Precisamos mudar essa realidade", afirmou Tassin Udin, de 21 anos, que pede união dos jovens contra a falta de atitude dos políticos. 

Mudança e conscientização

Marafi Dafaalla, representante da organização Arab Youth Climate Movement no Qatar, diz que existem movimentos em seu país para aumentar a conscientização sobre desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas. O trabalho de seu grupo é a ir a universidades e escolas para falar com jovens sobre o tema. Ela diz, inclusive, que parte da classe política tem apoiado essas medidas. "Fomos convidados pelo ministério do Meio Ambiente do Qatar para representar a juventude, eles nos apoiam e têm feito esforços para isso". 

*O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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