Adriano Machado / Reuters
Adriano Machado / Reuters

Bastidores: Bolsonaro se sentiu traído e disse ter obsessão em nomear amigo para PF

A auxiliares, presidente afirmou ter sido 'apunhalado' pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, que suspendeu nomeação de Alexandre Ramagem para a PF

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 08h21

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse ter sido “apunhalado” e “traído” pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para o comando da Polícia Federal. A interlocutores do Palácio do Planalto, Bolsonaro deixou clara uma “obsessão” em encontrar uma forma de nomear o delegado amigo da família para o cargo.

Em sua decisão, Moraes disse que havia indícios de desvio de finalidade na escolha de Ramagem. O magistrado citou declaração do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro de que Bolsonaro queria uma pessoa de “contato pessoal” dele no comando da PF por conta de inquéritos envolvendo os filhos.

Os auxiliares do Planalto afirmaram que Bolsonaro estava certo que não enfrentaria resistência em nomear um amigo de seus filhos para chefiar a PF. O presidente disse à sua equipe que o ministro do Supremo feriu a independência dos Poderes, uma observação que reiterou na cerimônia de discurso de posse dos dois novos ministros no Planalto, André Mendonça (Justiça e Segurança Pública), e José Levi (Advocacia Geral da União).

Em conversas reservadas ao longo da tarde, o presidente, os ministros militares e o setor jurídico do Planalto disseram estar surpresos porque apostavam que a escolha de José Levi para a AGU seria entendida como uma moeda de troca, um acordo de paz, com o Supremo. Isso porque Levi tem ligações com o ministro Gilmar Mendes e, principalmente, com Alexandre de Moraes. O novo ministro da AGU foi secretário executivo de Moraes na pasta da Justiça durante o governo de Michel Temer. Por isso, o clima no Planalto era de irritação de neófitos que tinham levado uma “pancada”.

Nas conversas com auxiliares, Bolsonaro repetia que “tudo foi feito dentro dos critérios da Lei”. Lembrou que Alexandre Ramagem é delegado de carreira e preenche os requisitos para o cargo. Mas nada falou sobre as críticas recebidas pelo governo pela proximidade de sua família com o delegado.

Ao longo da semana, porém, circulou nas redes sociais foto de Ramagem numa festa com o vereador Carlos Bolsonaro, filho 02 do presidente. O delegado foi responsável pela segurança do então candidato à Presidência após o atentado em Juiz de Fora, em setembro de 2018. Estava no comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) por indicação dos filhos do presidente.

A decisão de Moraes ainda acabou com uma expectativa no Planalto de que o noticiário com críticas a Bolsonaro “esfriaria”. Para não desmobilizar a “tropa” do Palácio, o presidente disse aos interlocutores que é ele quem “manda” e que a Advocacia-Geral da União vai recorrer.

Bolsonaro e seus auxiliares também não esconderam a irritação com uma comparação, no noticiário e nas redes sociais, entre a atual crise e dramas vividos por outros presidentes. Em 2016, o ministro Gilmar Mendes impediu a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil por Dilma Rousseff. Dois anos depois, a ministra Cármen Lúcia, à frente da Corte, suspendeu a posse de Christiane Brasil para a pasta do Trabalho no governo Temer. Logo, Bolsonaro não pode ser assertiva em dizer que o ato de Moraes é uma perseguição ou interferência inédita do Judiciário em nomeações do Executivo.

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