Antonio Lacerda/EFE
Antonio Lacerda/EFE

Bastidores: Aprovação maior a Bolsonaro se deve a mudança de tom, avaliam ministros

Para auxiliares, melhora nos índices de popularidade do presidente se dá pelo novo discurso, sem declarações incendiárias, além do pagamento do auxílio emergencial

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 18h37

BRASÍLIA – A melhora nos índices de popularidade de Jair Bolsonaro foi avaliada por alguns dos seus principais auxiliares no Palácio do Planalto como resultado direto não apenas do auxílio emergencial de R$ 600, mas também da mudança de tom do presidente. Segundo integrantes do alto escalão do Executivo ouvidos em caráter reservado pelo Estadão, a pesquisa do Datafolha reforça o discurso adotado internamente de que o presidente, sem declarações incendiárias e próximo ao Centrão, encontrou um caminho para tocar o governo e pensar no projeto de reeleição.

Após elevar a tensão com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal no início do ano, Bolsonaro foi convencido a construir uma trégua para evitar o agravamento da crise que o ameaça com dezenas de pedidos de impeachment. O presidente também é pressionado por investigações na Corte que fecham o cerco contra aliados e familiares e o caso da “rachadinha” no gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro envolvendo seu primogênito, o atual senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). 

A estratégia construída no Planalto para arrefecer a beligerância na Praça dos Três Poderes incluiu interromper declarações à imprensa na porta do Palácio da Alvorada. Os ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral), André Mendonça (Justiça) e Fábio Faria (Comunicações) atuaram para convencer Bolsonaro de que suas declarações impediam que as ações de governo fossem exaltadas.

“Gosto de falar, mas vi que estava fazendo errado. Por quê? Às vezes eu ficava dez minutos, 20 minutos, uma hora conversando. Pegavam cinco segundos de falas minhas e no dia seguinte era só pancadaria”, disse Bolsonaro na live semanal de quinta-feira, 13.

Outra medida foi se distanciar de apoiadores mais radicais e mostrar disposição ao diálogo. Um dos argumentos é que, ao buscar a moderação, Bolsonaro poderia trazer de volta eleitores que votaram nele contra o PT, mas passaram a reprovar a gestão.

Com isso, a chamada ala ideológica diminuiu a influência nas decisões de governo. A orientação do presidente para a família e até mesmo assessores mais próximos é fugir das polêmicas nas redes sociais. A expectativa de alguns auxiliares é que o indicador favorável ajude a consolidar este novo cenário no centro do poder.

De acordo com o levantamento do Datafolha divulgado nesta quinta-feira, 37% dos brasileiros consideram a gestão de Bolsonaro ótima ou boa, ante os 32% registrados na pesquisa de junho. É o melhor índice de aprovação popular desde o início do mandato. 

Apesar de o presidente frequentemente questionar a credibilidade de institutos de pesquisa, dessa vez o índice positivo foi comemorado no governo por indicar que Bolsonaro cresceu mesmo após o Brasil superar as 100 mil mortes por coronavírus com o enfrentamento à pandemia criticado por autoridades sanitárias. Há três meses o Ministério da Saúde é conduzido interinamente pelo general Eduardo Pazuello, que assumiu o comando da pasta após dois médicos, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, se demitirem por divergências com Bolsonaro.

Caso Queiroz

Outra leitura feita nos bastidores é que o presidente tem conseguido desviar das revelações do caso das rachadinhas envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz, seu amigo de longa data. O levantamento realizado via telefone com 2.065 pessoas entre os dias 11 e 12 ocorreu uma semana após extratos bancários de Queiroz indicaram depósitos de 21 cheques que somam R$ 72 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, entre 2011 e 2016. A revelação foi feita pela revista digital Crusoé e confirmada pelo Estadão. Na quinta, 13, o ministro Felix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), revogou a prisão domiciliar de Queiroz e de sua mulher, Márcia Aguiar.

Para auxiliares do Planalto, a pesquisa também reforçou que há ainda mais espaço para Bolsonaro avançar no que até recentemente era considerado um reduto lulista no Nordeste, única região do País que em que perdeu no segundo turno de 2018. Por lá, a rejeição ao presidente caiu 17 pontos porcentuais – de 52% para 35%. 

Após o auxílio emergencial, o governo prepara o lançamento do Renda Brasil, programa assistencial com a marca de Bolsonaro para substituir o Bolsa Família. O porcentual de aprovação do presidente entre os que receberam o auxílio é de 42%, acima da média nacional.

Apesar da promessa de manter o teto de gastos, Bolsonaro deverá seguir investindo em agenda positiva em viagens ao Nordeste acompanhando principalmente dos ministros Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, e de Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional. Com a chegada do Centrão à base do governo, o presidente também deverá seguir aparecendo ao lado de parlamentares nestas visitas.

Para Entender

Calendário Estadão

As datas, definições partidárias, candidaturas e a cobertura especial do jornal das campanhas pelo País e nos Estados Unidos

 

Tudo o que sabemos sobre:
Jair BolsonaroDatafolha

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.