Capítulo 36

Aumentam as razões do otimismo dos generais com o governo Bolsonaro

Festas e cerimônias sugerem revelações ao general Ramos sobre a reeleição em 2022 e o governo

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 10h29

Caro leitor,

Os generais estão otimistas. Depois das tormentas, eles voltaram a acreditar que o governo de Jair Bolsonaro pode dar certo. A pausa nas redes sociais do incontrolável Carlos, a pacificação da relação conflituosa com o ministro Sérgio Moro, um PIB maior do que o esperado e um aumento de 40% nos vencimentos por meio da reforma da Previdência foram suficientes para que o ministro Luiz Eduardo Ramos começasse a fazer planos: uma vitória em 2022 no primeiro turno.

Sim. É isso mesmo. O general já prevê a continuidade do governo e se anima a cada acolhida popular ao presidente depois de um ano conturbado. Ramos faz planos. E tem sonhos à luz do dia. A última epifania sobre o sentido profundo da articulação política ocorreu-lhe após Moro ser aclamado durante um show de Roberto Carlos.

Como 2 e 2 são 5, o ministro revelou seu plano às repórteres Tânia Monteiro e Vera Rosa: Moro deve ser o candidato a vice-presidente, mandando de vez para a reserva a figura do colega e general Hamilton Mourão. Nenhuma novidade na flagrante falta de cerimônia com o vice militar, pois, de fato, este não é um governo verde-oliva – como, aliás, os generais sempre disseram -, mas de Bolsonaro, de sua família e amigos.

Recentemente, Moro emplacou na Superintendência da PF, no Rio, o homem que o presidente tentara vetar para promover um delegado ligado ao bolsonarismo que cuidasse do caso do senador e filho Flávio. Bolsonaro cedeu quando viu o tamanho do estrago que o desembarque do ministro da Justiça poderia causar ao governo e porque a turma da PF que queria ver o ministro pelas costas escolheu – até agora – o lado errado na briga interna do PSL, ao lado de Luciano Bivar.

Crítica. É verdade que os generais da ativa e da reserva esperavam mais de Bolsonaro. Apesar disso, acreditam que alguma moderação pode surgir do governo. Entendem o desânimo do general Santa Rosa, que deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos e revelou um Bolsonaro cercado no Planalto por um entourage radical, formado por jovens que difundem o ódio e isolam o presidente, que se liberta das amarras desse círculo íntimo somente quando deixa os palácios e cumprimenta os populares.

Mas, ainda que repudiem as intrigas palacianas, as misérias que rondam os pequenos poderes nos gabinetes, a disputa por uma vaga na garagem protegida do sol e por um espaço na agenda do chefe para vê-lo sorrir das tilápias de seu secretário da Pesca, os generais discordam da roupa suja lavada em público pelo colega. “Santa Rosa não devia ter feito o que fez”, disse um deles, que passou pelo Comando Militar do Oeste.

Outro  general – muito gentil – tem a expectativa de que tudo se pacifique. "O presidente não tinha quadros para preencher todos os cargos e foi buscá-los no Exército", disse. Nenhum deles prestara atenção na nomeação para a Secretaria de Cultura de um terraplanista, de quem vê no rock uma coisa do diabo e nos Beatles, simples conspiração comunista. Se o povo precisa de pão e circo, eis a turma que se exibe debaixo da lona. Depois de uma ala militar, o governo parece inaugurar uma ala psiquiátrica...

Um dos oficiais lembrou, no entanto, que, no passado, o presidente Medici manteve no governo o sociólogo Gilberto Freyre, o marechal Castello Branco contara com o apoio de Raquel de Queiroz e João Figueiredo fizera de Eduardo Portella ministro da Educação. Hoje, tem-se o dançarino Abraham Weintraub, que se diverte ofendendo a honra do marechal Deodoro da Fonseca...

É aí que a realidade atropela o discurso de Ramos. Em artigo ao Estado, o ministro afirmou que o governo coloca em cargos comissionados pessoas indicadas por parlamentares segundo critérios de moralidade e de qualificação profissional e acadêmica. Ramos silencia sobre as indicações de Olavo de Carvalho, Eduardo e Carlos Bolsonaro para as pastas da Educação e Relações Exteriores e para a Secretaria de Cultura. Os critérios ali parecem ser outros...

O general tem orgulho das festas e aclamações. Elas garantem epifanias para libertar o seu fluxo de consciência. Foi o que lhe ocorreu ao publicar no Twitter o filme em que ele, os generais Mourão e Fernando Azevedo e Silva (ministro da Defesa) e Jair Bolsonaro caminham pelo pátio Tenente Moura, na Academia Militar das Agulhas Negras. A imagem revela não só a presença militar no Executivo. Exibe um governo de amigos. Bons e velhos amigos, todos contemporâneos de academia.

Os militares estão à vontade. E satisfeitos. Mais do que o aumento de salário que ninguém teve no País, nenhum deles sonhava que, depois de 30 anos, suas cerimônias recuperassem o antigo prestígio. Eis o que garante no Brasil a posse da Presidência. Enquanto isso, aos que perguntam, como o general Santa Rosa, qual o significado dos pesos que Bolsonaro coloca na balança das instituições da República, o entourage radical do Planalto responde como o gaulês Breno aos romanos: “Isso significa: Ai dos vencidos!”    

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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