Adriano Machado/ Reuters
Adriano Machado/ Reuters

Após posse de Bolsonaro, presença de militares no governo mais que dobra

Número de militares em cargos civis no governo federal passou de 2.765, em 2018, para 6.157, em 2020

Paula Reverbel e Vinicius Valfré, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 20h49

Desde o início do governo Jair Bolsonaro (sem partido), o número de militares que ocupam cargos civis no governo federal mais do que dobrou, de acordo com um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) realizado a pedido do ministro Bruno Dantas. Segundo o relatório divulgado nesta sexta-feira (17), a quantidade de militares – tanto da ativa quanto da reserva – passou de 2.765, em 2018, para 6.157, em 2020. 

Nesse mesmo período, o número de militares que ocupam cargos comissionados cresceu de 1.934 para 2.643. Esse grupo inclui os membros da ativa ou da reserva que ocupam cargos na Presidência da República, na Vice-Presidência da República e no Ministério da Defesa. O vice-presidente é o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB) e o titular da Defesa é o também general da reserva Fernando Azevedo.

O levantamento também mostra que uma boa parte do crescimento – 1.969 – é referente à contratação temporária, feita por meio de edital em maio deste ano, de inativos para trabalharem no INSS. O objetivo das contratações foi a redução da fila de benefícios à espera de concessão. Até 7 mil homens da reserva seriam chamados para ajudar na vazão da demanda.

O número de militares que acumulam cargos de profissionais da saúde passou de 718, em 2018, para 1.249, em 2020. A pesquisa usou o mês de março como referência e só considerou os militares que recebem remuneração referentes aos cargos civis que ocupam. Procurado, o Planalto não quis comentar o tema.

O levantamento foi repassado nesta sexta-feira (17) a todos os gabinetes do TCU, mas não há processo tratando do tema. Se algum ministro quiser tomar uma providência complementar ao levantamento, deverá fazer uma solicitação adicional. 

Pressão

A presença de militares, especialmente da ativa, tem gerado desconforto entre generais das Forças Armadas. Na visão deles, o distanciamento que a instituição precisa ter da atividade política fica prejudicado pela participação de membros da ativa na gestão Bolsonaro. Diante do quadro, há pressão para que o general Eduardo Pazuello, atualmente no comando do Ministério da Saúde, opte entre ir para a reserva ou sair do cargo de ministro interino.

A mesma pressão foi exercida sobre o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, cuja transferência para a reserva foi publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira. Ele é responsável pela articulação política do governo.

O desconforto com Pazuello se agravou diante de uma fala do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes de que o Exército está se associando a um “genocídio”, ao se referir ao tratamento que o governo tem dado à pandemia do coronavírus

A hipérbole incomodou as Forças Armadas. Durante a semana, Mourão havia cobrado uma retratação de Gilmar: "Se ele tiver grandeza moral, tem de se desculpar".  Na terça-feira, 14, Azevedo acionou um artigo da Lei de Segurança Nacional sobre em representação à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ministro. No dia seguinte, em um gesto para apaziguar os ânimos, Gilmar falou por telefone com o ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello. Nesta sexta, no entanto, o vice-presidente afirmou que dava o episódio como encerrado.

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