Sergio Lima/AFP
O presidente Jair Bolsonaro Sergio Lima/AFP

Após demitir Mandetta, Bolsonaro ataca Maia: ‘Parece que intenção é me tirar do governo’

Para presidente, deputado que comanda Câmara trama contra sua gestão e quer ‘enfiar a faca’

Jussara Soares e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 20h37
Atualizado 17 de abril de 2020 | 10h06

BRASÍLIA – Após demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), o presidente Jair Bolsonaro confrontou nesta quinta-feira, 16, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Disse, em entrevista à rede de TV CNN, que sua atuação é “péssima” e insinuou que o parlamentar trama contra o seu governo. Em resposta, Maia afirmou que não vai atacar Bolsonaro.

“O sentimento que eu tenho é que ele não quer amenizar os problemas. Ele quer atacar o governo federal, enfiar a faca. Parece que a intenção é me tirar do governo. Quero crer que esteja equivocado”, disse Bolsonaro. 

Horas antes da entrevista do presidente à CNN, Maia havia assinado uma nota conjunta com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) em defesa de Mandetta, também filiado ao seu partido. “O trabalho responsável e dedicado do ministro foi irreparável. A sua saída, para o País como um todo, nesse grave momento, certamente não é positiva e será sentida por todos nós”, escreveram os dois parlamentares.

No dia anterior, a Mesa Diretora da Câmara deu prazo de 30 dias para que Bolsonaro apresente à Casa o resultado dos seus exames para covid-19. Bolsonaro fez os exames para detectar o novo coronavírus em 12 e 17 de março, após voltar de missão oficial nos Estados Unidos. Nas duas ocasiões, o presidente informou, via redes sociais, que os testes deram negativo para a doença, mas não exibiu cópia do resultado.

Apesar dos ataques feitos, Bolsonaro disse, durante a entrevista, que não está rompendo com o Congresso e que está disposto a dialogar com os parlamentares. “O Brasil não merece o que o senhor Rodrigo Maia está fazendo. Péssima atuação. Não estou rompendo com o Parlamento, não. Muito pelo contrário.”

Bolsonaro acusou o presidente da Câmara de conduzir o País ao caos com medidas econômicas “escandalosas”, como a ajuda emergencial aos estados e municípios. Ele ainda criticou a votação virtual na Câmara, adotada após a pandemia do coronavírus. “Parece que a intenção é outra, que ele está conduzindo o País para o caos. Estas medidas são escandalosas. Esta forma de votação pela internet impede um debate melhor.”

Maia ainda foi acusado de querer assumir a Presidência. “Lamento muito a posição do Rodrigo Maia, que resolveu assumir o papel do executivo. Ele tem que me respeitar como chefe do Executivo”, disse. 

Bolsonaro ‘joga pedras e o Parlamento vai jogar flores’, afirma Maia

Maia reagiu às críticas, também em entrevista à CNN: “O presidente ataca com um velho truque da política, com a demissão ele quer mudar o tema”, afirmou Maia, que disse não ter intenção de prejudicar o governo. “O presidente não vai ter ataques (de minha parte). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores”, completou.

Maia afirmou que havia conversado mais cedo com os ministros da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e da Casa Civil, Braga Netto, e que tem votado as propostas com o apoio da equipe do governo. “Nunca deixei de dialogar com o quadro técnico (do governo)”, disse Maia. “Mas o governo transforma as decisões a favor do governo em confronto político”, completou. 

Maia lembrou que o governo também comemorou a vitória da garantia de renda mínima a trabalhadores informais. O presidente da Câmara afirmou, ainda, que pediu aos integrantes do Executivo que ofereçam propostas à crise do novo coronavírus. “Precisamos de uma pauta. Tomar cafezinho não resolve neste momento”.

Na avaliação do presidente da Câmara, ainda há a necessidade de discutir a destinação de recursos a Estados e municípios.

Mais cedo, as cúpulas da Câmara e do Senado relataram temor de que a demissão prejudique o combate ao novo coronavírus no País. Além disso, parlamentares cobraram do novo ministro, Nelson Teich, a adoção de uma agenda científica.

“A maioria das brasileiras e dos brasileiros espera que o presidente Jair Bolsonaro não tenha demitido Mandetta com o intuito de insistir numa postura que prejudica a necessidade do distanciamento social e estimula um falso conflito entre saúde e economia”, diz a nota conjunta dos presidentes da Câmara e do Senado.

No Congresso, há temor de que a troca na equipe causem confusão no combate à pandemia. “Eu só lamento que, no momento de grave crise no Brasil e no mundo, essa substituição eventualmente cause um pouco de distúrbio no conjunto de atos que estão sendo tomados”, afirmou o vice-presidente do Senado, Antonio Anastasia (PSD-MG), desejando em seguida sucesso ao substituto.

Na oposição, parlamentares fizeram críticas a Bolsonaro. / COLABORARAM DANIEL WETERMAN e VINÍCIUS VALFRÉ

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Demissão pode favorecer carreira política de Mandetta, dizem analistas

Substituto é oncologista e se reuniu com o presidente e ministros nesta manhã

Julia Lindner, Jussara Soares e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h05
Atualizado 16 de abril de 2020 | 20h14

BRASÍLIA – Após semanas de desavenças, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta quinta-feira, 16. O oncologista Nelson Teich vai assumir o cargo. A saída foi confirmada por Mandetta nas redes sociais. “Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso País”, postou.

Teich se reuniu com o presidente pela manhã, quando, segundo interlocutores do presidente, causou boa impressão. O médico foi consultor da área de saúde na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, e é fundador do Instituto COI, que realiza pesquisas sobre câncer.

Em seu currículo em redes sociais, o oncologista também registra ter atuado como consultor do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, entre setembro do ano passado e março deste ano. Teich e Vianna foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.  

A escolha de Teich foi considerada internamente no governo como uma vitória do secretário de Comunicação da Presidência,  Fábio Wajngarten, e do empresário bolsonarista Meyer Nigri, dono da Tecnisa. Os dois foram os principais apoiadores de seu nome para o cargo.

Teich teve o apoio da classe médica e contou a seu favor a boa relação com empresários do setor da saúde. O argumento pró-Teich no Ministério da Saúde é o de que ele trará dados para destravar debates “politizados” sobre a covid-19. A avaliação, porém, é de que ele pode enfrentar dificuldades diante da falta de expertise política, principalmente ao lidar com governadores que se opõe a Bolsonaro.

O oncologista já havia sido cotado para comandar a Saúde no início do governo, mas perdeu a vaga para Mandetta, que havia sido colega de Bolsonaro na Câmara de Deputados e tinha o apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM-GO), agora seu ex-aliado, e do atual ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Em artigo publicado no dia 3 de abril em sua página no LinkedIn, o escolhido para a Saúde critica a discussão polarizada entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, afirma ele no texto.

Mandetta agradece e deseja boa sorte a sucessor

Em mensagem no Twitter em que anunciou sua demissão, Mandetta agradeceu a oportunidade de gerenciar o Sistema Único de Saúde (SUS) e planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus. “Agradeço a toda a equipe que esteve comigo no MS e desejo êxito ao meu sucessor no cargo de ministro da Saúde. Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso país”, postou.

Desde o início da crise do coronavírus, Mandetta e presidente vinham se desentendendo sobre a melhor estratégia de combate à doença. Enquanto Bolsonaro defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, o agora ex-ministro manteve a orientação da pasta para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do titular da Saúde segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Os dois também divergiram sobre o uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. Mandetta, por sua vez, sempre pediu cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus.

As últimas atitudes do ex-auxiliar elevaram a temperatura do confronto e, na visão de auxiliares, o estopim da nova crise foi a entrevista dada por Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Na terça-feira, em entrevista da série Estadão Live Talks, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que Mandetta “cruzou a linha da bola” quando disse, no domingo, que a população não sabe se deve acreditar nele ou em Bolsonaro. “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Nenhum cavaleiro pode cruzar na frente da linha da bola”, explicou o vice. “Ele fez uma falta. Merecia um cartão”, continuou Mourão.

Auxiliares do presidente observam que Bolsonaro só não dispensou o ministro antes porque fazia um cálculo pragmático. Interlocutores dos dois lados afirmavam que tanto Mandetta como Bolsonaro estavam calculando a melhor forma de troca no ministério. Ambos queriam fugir do ônus da mudança de comando da saúde em plena covid-19. 

Candidato é bom pesquisador, mas não conhece o SUS, disse Mandetta

Sem citar o nome do oncologista  Teich, que havia se reunido mais cedo com Bolsonaro, Mandetta afirmou que o então candidato à sua vaga é bom pesquisador, mas não conhece o SUS.

Mandetta disse que a sua equipe poderia ajudar na transição e até mesmo compor a próxima gestão da pasta. “Ajuda ai, Denizar, fica um tempo aí, se a pessoa te pedir. Cada um ajude com o que puder ajudar”, disse Mandetta, dirigindo-se ao atual secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Denizar Vianna.

Vianna e Teich foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.

TV ESTADÃO: Mandetta ‘cruzou a linha da bola’ e ‘merecia cartão’, diz Mourão

Maia e lideranças se solidarizam com demissão de Mandetta

A Câmara dos Deputados teve reação imediata à demissão do Luiz Henrique Mandetta a frente do Ministério da Saúde. Durante a sessão virtual, realizada nesta tarde para votar a ampliação do auxílio-emergencial, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou seu microfone para “deixar sua homenagem” ao colega de partido.

“Aproveito, e tenho certeza que falo em nome da maioria da Câmara dos Deputados, no momento em que o ministro Mandetta anuncia que foi demitido pelo presidente da República, a nossa homenagem à sua dedicação, ao seu trabalho, sua competência, sua capacidade”, disse Maia no plenário. “Mandetta deixa um legado, uma estrutura para que o Brasil, o governo federal, Estados e os municípios, tenham condições de atender da melhor forma possível a sociedade brasileira”, disse.

O líder do Cidadania, Arnaldo Jardim (SP), corroborou as palavras de Maia e disse que o ministro honrou o cargo. “Espero que não se demita a Ciência, que não se demita o critério objetivo para enfrentar essa pandemia”, disse.

Em nota, o líder do PSB, Alessandro Molon (RJ), fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “A demissão de Mandetta não passa de um acerto de contas por parte de um chefe que, no auge de sua mediocridade, não tolera um auxiliar se destacando mais do que ele. Um comportamento irresponsável de quem está mais preocupado com sua reeleição do que em salvar as vidas dos brasileiros”, disse Molon.

Também em nota, o PSDB disse que a troca de comando no Ministério da Saúde é um movimento temerário de Bolsonaro, no momento em que o País parece estar ingressando na fase na crítica da pandemia.  “O fundamental agora é perseverar nas políticas de distanciamento social, consideradas até o momento as melhores iniciativas identificadas por todo o mundo para enfrentar o novo coronavírus – mesmo que sejam medidas combatidas pelo próprio presidente”, diz o partido no texto.

Secretário de Estado da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann Ferreira falou em relação “amistosa” com o Ministério da Saúde e comentou, nesta quinta-feira, 16, a saída de Mandetta do ministério. “Isso não nos compete se deve ou não trocar ministro do governo federal. Do ponto de vista de opinião, posso dizer que é uma perda para todos nós”, afirmou. /COLABORARAM CAMILA TURTELLI, MARLLA SABINO E BRUNO RIBEIRO

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Bastidores: Bolsonaro está exausto, dizem interlocutores

Para assessores, momento é ‘tenso’ porque presidente sofre pressão de diversos setores da economia em meio à pandemia e a panelaços

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 20h54

BRASÍLIA – A troca do ortopedista Luiz Henrique Mandetta pelo empresário e oncologista Nelson Teich trouxe alívio ao Palácio do Planalto. Mas a sensação foi curta, reconheceram interlocutores do governo. O presidente Jair Bolsonaro não esconde, segundo esses mesmos auxiliares, a “exaustão” neste momento de pandemia e de panelaços.

No pronunciamento para anunciar a troca de ministros, na tarde desta quinta-feira, Bolsonaro chegou a enfrentar o Supremo Tribunal Federal (STF) ao defender novamente uma flexibilização do isolamento e o retorno na “normalidade” o mais “breve” possível. Um dia antes, na quarta-feira, a Corte decidiu, que os governadores e os prefeitos têm autonomia para decretar o isolamento.

Um dos assessores do presidente disse que o momento é tenso porque o Palácio sofre pressão de setores diversos da economia para a “volta ao trabalho”. Bolsonaro, segundo o relato, continua “firme” e “atento” a essa demanda e convicto de que não se pode separar o combate à pandemia da manutenção dos empregos.

Diante de ataques de diferentes frentes, os auxiliares chegaram a comemorar até o fato de Bolsonaro ter deixado de lado o tom agressivo no pronunciamento desta quinta-feira. Havia pouco o que comemorar. A queda de braço entre Bolsonaro e Mandetta se arrastou pelas últimas semanas, provocando desgaste à imagem do presidente e do governo. Os auxiliares destacaram, porém, que não houve dificuldade de achar um novo nome para a pasta da Saúde.

Nelson Teich, que atua no setor privado, é um médico que chegou a ser cotado para o ministério no final de 2018. No governo de transição, o oncologista perdeu a indicação por um entendimento político. Mandetta, filiado ao DEM, contava com apoio de lideranças do partido, uma legenda que sempre flertou com Bolsonaro.

No Planalto, a torcida neste momento, é para que o empresário e médico, que não é primordialmente um gestor público, consiga, rapidamente, montar uma equipe eficiente. Os assessores do Palácio observam que o número de casos de atingidos pelo novo coronavírus aumenta de forma exponencial pelo País. E os panelaços continuam intensos.

A hora, de acordo com esses interlocutores, é de ver como será o “andar da carruagem” e como será a atuação do novo ministro. Os auxiliares relataram que Nelson Teich contará com apoio de outras pastas neste início de gestão. E isso teria ficado claro numa primeira reunião do novo ministro com o primeiro escalão do governo antes de ele ser anunciado para o cargo. A “transversalidade” de ações é a palavra de ordem no governo, disseram. Todos têm de trabalhar lado a lado.

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Bolsonaro demite Mandetta; Teich assume Saúde

Substituto é oncologista e se reuniu com o presidente e ministros nesta manhã

Julia Lindner, Jussara Soares e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h05
Atualizado 16 de abril de 2020 | 20h14

BRASÍLIA – Após semanas de desavenças, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta quinta-feira, 16. O oncologista Nelson Teich vai assumir o cargo. A saída foi confirmada por Mandetta nas redes sociais. “Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso País”, postou.

Teich se reuniu com o presidente pela manhã, quando, segundo interlocutores do presidente, causou boa impressão. O médico foi consultor da área de saúde na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, e é fundador do Instituto COI, que realiza pesquisas sobre câncer.

Em seu currículo em redes sociais, o oncologista também registra ter atuado como consultor do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, entre setembro do ano passado e março deste ano. Teich e Vianna foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.  

A escolha de Teich foi considerada internamente no governo como uma vitória do secretário de Comunicação da Presidência,  Fábio Wajngarten, e do empresário bolsonarista Meyer Nigri, dono da Tecnisa. Os dois foram os principais apoiadores de seu nome para o cargo.

Teich teve o apoio da classe médica e contou a seu favor a boa relação com empresários do setor da saúde. O argumento pró-Teich no Ministério da Saúde é o de que ele trará dados para destravar debates “politizados” sobre a covid-19. A avaliação, porém, é de que ele pode enfrentar dificuldades diante da falta de expertise política, principalmente ao lidar com governadores que se opõe a Bolsonaro.

O oncologista já havia sido cotado para comandar a Saúde no início do governo, mas perdeu a vaga para Mandetta, que havia sido colega de Bolsonaro na Câmara de Deputados e tinha o apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM-GO), agora seu ex-aliado, e do atual ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Em artigo publicado no dia 3 de abril em sua página no LinkedIn, o escolhido para a Saúde critica a discussão polarizada entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, afirma ele no texto.

Mandetta agradece e deseja boa sorte a sucessor

Em mensagem no Twitter em que anunciou sua demissão, Mandetta agradeceu a oportunidade de gerenciar o Sistema Único de Saúde (SUS) e planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus. “Agradeço a toda a equipe que esteve comigo no MS e desejo êxito ao meu sucessor no cargo de ministro da Saúde. Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso país”, postou.

Desde o início da crise do coronavírus, Mandetta e presidente vinham se desentendendo sobre a melhor estratégia de combate à doença. Enquanto Bolsonaro defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, o agora ex-ministro manteve a orientação da pasta para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do titular da Saúde segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Os dois também divergiram sobre o uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. Mandetta, por sua vez, sempre pediu cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus.

As últimas atitudes do ex-auxiliar elevaram a temperatura do confronto e, na visão de auxiliares, o estopim da nova crise foi a entrevista dada por Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Na terça-feira, em entrevista da série Estadão Live Talks, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que Mandetta “cruzou a linha da bola” quando disse, no domingo, que a população não sabe se deve acreditar nele ou em Bolsonaro. “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Nenhum cavaleiro pode cruzar na frente da linha da bola”, explicou o vice. “Ele fez uma falta. Merecia um cartão”, continuou Mourão.

Auxiliares do presidente observam que Bolsonaro só não dispensou o ministro antes porque fazia um cálculo pragmático. Interlocutores dos dois lados afirmavam que tanto Mandetta como Bolsonaro estavam calculando a melhor forma de troca no ministério. Ambos queriam fugir do ônus da mudança de comando da saúde em plena covid-19. 

Candidato é bom pesquisador, mas não conhece o SUS, disse Mandetta

Sem citar o nome do oncologista  Teich, que havia se reunido mais cedo com Bolsonaro, Mandetta afirmou que o então candidato à sua vaga é bom pesquisador, mas não conhece o SUS.

Mandetta disse que a sua equipe poderia ajudar na transição e até mesmo compor a próxima gestão da pasta. “Ajuda ai, Denizar, fica um tempo aí, se a pessoa te pedir. Cada um ajude com o que puder ajudar”, disse Mandetta, dirigindo-se ao atual secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Denizar Vianna.

Vianna e Teich foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.

TV ESTADÃO: Mandetta ‘cruzou a linha da bola’ e ‘merecia cartão’, diz Mourão

Maia e lideranças se solidarizam com demissão de Mandetta

A Câmara dos Deputados teve reação imediata à demissão do Luiz Henrique Mandetta a frente do Ministério da Saúde. Durante a sessão virtual, realizada nesta tarde para votar a ampliação do auxílio-emergencial, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou seu microfone para “deixar sua homenagem” ao colega de partido.

“Aproveito, e tenho certeza que falo em nome da maioria da Câmara dos Deputados, no momento em que o ministro Mandetta anuncia que foi demitido pelo presidente da República, a nossa homenagem à sua dedicação, ao seu trabalho, sua competência, sua capacidade”, disse Maia no plenário. “Mandetta deixa um legado, uma estrutura para que o Brasil, o governo federal, Estados e os municípios, tenham condições de atender da melhor forma possível a sociedade brasileira”, disse.

O líder do Cidadania, Arnaldo Jardim (SP), corroborou as palavras de Maia e disse que o ministro honrou o cargo. “Espero que não se demita a Ciência, que não se demita o critério objetivo para enfrentar essa pandemia”, disse.

Em nota, o líder do PSB, Alessandro Molon (RJ), fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “A demissão de Mandetta não passa de um acerto de contas por parte de um chefe que, no auge de sua mediocridade, não tolera um auxiliar se destacando mais do que ele. Um comportamento irresponsável de quem está mais preocupado com sua reeleição do que em salvar as vidas dos brasileiros”, disse Molon.

Também em nota, o PSDB disse que a troca de comando no Ministério da Saúde é um movimento temerário de Bolsonaro, no momento em que o País parece estar ingressando na fase na crítica da pandemia.  “O fundamental agora é perseverar nas políticas de distanciamento social, consideradas até o momento as melhores iniciativas identificadas por todo o mundo para enfrentar o novo coronavírus – mesmo que sejam medidas combatidas pelo próprio presidente”, diz o partido no texto.

Secretário de Estado da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann Ferreira falou em relação “amistosa” com o Ministério da Saúde e comentou, nesta quinta-feira, 16, a saída de Mandetta do ministério. “Isso não nos compete se deve ou não trocar ministro do governo federal. Do ponto de vista de opinião, posso dizer que é uma perda para todos nós”, afirmou. /COLABORARAM CAMILA TURTELLI, MARLLA SABINO E BRUNO RIBEIRO

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Quem é Nelson Teich, novo ministro da Saúde do governo Bolsonaro

O oncologista Nelson Luiz Sperle Teich deixou o cargo menos de um mês após sua nomeação; médico e presidente Bolsonaro divergiram sobre uso da cloroquina

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h24
Atualizado 15 de maio de 2020 | 15h00

Menos de um mês após sua nomeação, o oncologista Nelson Teich deixou o comando do Ministério da Saúde do presidente Jair Bolsonaro após divergências sobre a administração da cloroquina, substância que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus. A cloroquina já pode ser utilizada em pacientes internados, mas Bolsonaro defende a mudança de protocolos para incentivar a utilização da substância mesmo em pacientes com sintomas leves. O médico substituiu Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta após semanas de embates públicos com o presidente e discordava dos mesmos pontos que Teich na condução da pandemia.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista inicialmente contava com o apoio da classe médica e mantinha boa relação com empresários do setor da saúde.

"Ele tem uma ótima reputação e ouvindo o que ele já falou parece que começou bem. Ele tem um enorme desafio pela frente e sucede um ministro que sempre teve nosso apoio. Todos queremos que ele tenha um desempenho tão bom ou ainda melhor que o do Mandetta. Quando ele enfatizou a importância de continuar baseado em evidencia cientírica e critérios técnicos já responde as expectativas que nós todos temos", disse à época Rubens Belfort Jr, presidente da Academia Nacional de Medicina.

Em um artigo publicado em 3 de abril no LinkedIn, Teich criticava a “polarização” entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, escreveu. 

Teich não é defensor do isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas com doenças graves são colocadas em quarentena. O modelo é defendido por Bolsonaro e foi um dos principais fatores de desgaste entre o presidente e o ministro Mandetta, que apostou no isolamento horizontal.

Teich tinha o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, e dos militares para ser ministro logo no início do mandato. Na ocasião, Bolsonaro acabou optando por Mandetta, que era, na verdade, um perfil mais político. Desde antes de assumir o posto, Teich era visto por colegas médicos como alguém que dificilmente vai se dobrar a decisões de Bolsonaro que não se amparam em critérios técnicos.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre o isolamento vertical?

Nelson Teich publicou três artigos sobre o coronavírus em sua página pessoal no LinkedIn. No texto mais recente, de 2 de abril, o oncologista defende o isolamento horizontal como a “melhor estratégia no momento” no combate à pandemia. 

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento. Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, escreveu Teich.

Teich vê “fragilidades” no isolamento vertical, modelo defendido por Bolsonaro em que apenas idosos e pessoas com doenças graves ficariam em quarentena. O médico ressalta, no entanto, que nenhum dos modelos seria o ideal e defende um “isolamento estratégico”.

“Estamos falando aqui do uso de testes em massa para covid-19 e de estratégias de rastreamento e monitorização, algo que poderia ser rapidamente feito com o auxílio das operadoras de telefonia celular”, afirmou.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre a cloroquina?

Em um dos textos no LinkedIn, o oncologista menciona a cloroquina como uma esperança no tratamento da doença, mas não se posiciona sobre a forma como a substância deve ser usada.

Em 2016, em entrevista ao site Medscape, Teich criticou a liberação da venda da fosfoetanolamina, que ficou conhecida como a “pílula do câncer”, mas disse que o uso de substâncias sem eficácia comprovada é um direito do paciente.

“É uma decisão política e populista que quebra um processo estruturado de avaliação de medicamentos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: você, como médico, está lá para orientar o paciente. Se ele quer fazer uso da substância é um direito dele. (...) Usar algo que não tem comprovação científica é uma escolha individual”, afirmou o oncologista.

Teich, no entanto, defende que o custo da aquisição de um medicamento sem comprovação científica deve ser arcada pelo paciente.

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Mídia internacional repercute demissão de Mandetta

Jornais destacaram conflitos entre ministro da Saúde e Bolsonaro

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h43

Veículos estrangeiros repercutiram a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, comunicada pelo presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira, 16.

Com o título Bolsonaro demite popular ministro da Saúde após disputa sobre resposta ao coronavírus, o jornal britânico The Guardian afirmou que, enquanto o ministro defendia o isolamento social, o 'presidente de extrema-direita' minimizou o impacto do coronavírus. Para a publicação, a demissão de Mandetta tem ‘potencial para causar uma grande revolta pública’. 

O americano Washington Post também destacou a disputa entre Mandetta e Bolsonaro. Na matéria Bolsonaro despede o ministro da Saúde, Mandetta, após diferenças sobre a resposta ao coronavírus, o jornal narra os embates entre ministro e presidente — destacando a declaração de Bolsonaro de que o vírus seria apenas “uma gripezinha”. “O esforço (de Bolsonaro) para reiniciar a economia  iniciou um confronto direto com Mandetta, que se tornou uma voz de resistência dentro do governo”, afirmou o jornal. 

Na matéria Bolsonaro demite ministro da Saúde após conflito em política sobre vírus, o Bloomberg afirma que Mandetta 'com treinamento médico, se recusou a se curvar às exigências do líder brasileiro'. A matéria firma que Mandetta ganhou destaque durante os briefings diários do Ministério da Saúde e das inúmeras entrevistas que deu para veículos de comunicação. 

O argentino Clarín considerou a medida ‘esperada’, já que o presidente vinha mantendo ‘curtos-circuitos’ com Mandetta ‘há várias semanas’. “A medida era esperada, mas envolve enormes riscos políticos e de saúde”, diz a publicação, “já que se espera que o país entre no momento mais agudo da pandemia de coronavírus em breve”.

O jornal também destacou reações locais, com panelaços em diferentes cidades do Brasil. 

 

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Congresso reage à demissão de Mandetta e teme piora na pandemia

Parlamentares cobraram do novo ministro, o médico oncologista Nelson Teich, a adoção de uma agenda técnica; Governadores lamentam mudança na pasta

Daniel Weterman, Camila Turtelli, Daniel Galvão e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 18h27
Atualizado 16 de abril de 2020 | 20h02

SÃO PAULO E BRASÍLIA – O Congresso reagiu à troca no Ministério da Saúde com críticas ao presidente Jair Bolsonaro e elogios a Luiz Henrique Mandetta. A demissão fez os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), divulgarem pela primeira vez uma nota conjunta. As cúpulas das duas Casas relataram temor de que a saída de Mandetta prejudique o combate ao novo coronavírus no País.

Além disso, parlamentares cobraram do novo ministro, Nelson Teich, a adoção de uma agenda científica. “O trabalho responsável e dedicado do ministro foi irreparável. A sua saída, para o País como um todo, nesse grave momento, certamente não é positiva e será sentida por todos nós”, afirmaram Maia e Alcolumbre. Os dois fazem parte do mesmo partido do ex-ministro.

A demissão ocorreu após os presidentes da Câmara e do Senado ficarem ao lado de Mandetta na orientação sobre isolamento social, tema de disputa entre o ex-ministro e Bolsonaro. “A maioria das brasileiras e dos brasileiros espera que o presidente Jair Bolsonaro não tenha demitido Mandetta com o intuito de insistir numa postura que prejudica a necessidade do distanciamento social e estimula um falso conflito entre saúde e economia”, diz a nota. 

No documento, os parlamentares manifestam expectativa de que o novo titular da pasta dê continuidade ao bom trabalho que vinha sendo desempenhado pelo Ministério da Saúde. Os dois fizeram apelo por um trabalho com base na ciência. “A vida e a saúde dos brasileiros devem ser sempre nossa maior prioridade.” 

No Congresso, há temor de que a troca na equipe cause uma confusão no combate à pandemia. “Eu só lamento que, no momento de grave crise no Brasil e no mundo, essa substituição eventualmente cause um pouco de distúrbio no conjunto de atos que estão sendo tomados”, afirmou o vice-presidente do Senado, Antonio Anastasia (PSD-MG), desejando em seguida sucesso ao substituto.

Nos últimos dias, Mandetta desabafou com o senador e primo Nelsinho Trad (PSD-MS), relatando cansaço e pressão no cargo e vendo sua demissão como certa. Trad tentou reverter a situação e apelou para um acerto com o presidente Jair Bolsonaro, o que não ocorreu. “O Mandetta acertou mais do que errou. Qualquer professor passaria ele de ano. Não vai faltar para ele convite”, disse o senador.

O presidente do DEM, partido de Mandetta, ACM Neto, emitiu nota para defender o posicionamento do ex-ministro durante a crise, em linha com a Organização Mundial da Saúde (OMS). “Não temos dúvidas que o ex-ministro Mandetta ainda contribuirá muito para a vida pública nacional”, diz a nota. ACM ainda mandou um recado para Nelson Teich, esperando “que o novo ministro possa pautar as suas decisões em critérios técnicos e científicos” para evitar um crescimento desenfreado do vírus.

Na oposição, parlamentares fizeram críticas a Bolsonaro, mas também ironizaram o histórico do ex-ministro. “A demissão de Mandetta não passa de um acerto de contas por parte de um chefe que, no auge de sua mediocridade, não tolera um auxiliar se destacando mais do que ele”, disse o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon.

Nas redes sociais, o deputado Jorge Solla (PT-BA) publicou uma mensagem do ex-ministro quando era deputado federal e votou pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. “És responsável por tudo que cativar”, escreveu o parlamentar petista. O líder do PSL no Senado, Major Olimpio (SP), afirmou que, se o novo ministro Nelson Teich persistir na defesa do isolamento para todas as pessoas “não vai durar 30 dias no cargo ou terá que rasgar o seu diploma.”

Governadores lamentam saída de Mandetta

A saída de Luiz Henrique Mandetta foi lamentada por governadores. Chefes dos Executivos estaduais que defendem medidas de isolamento social, ao contrário do que prega o presidente Jair Bolsonaro, cobraram que Nelson Teich siga as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) no combate à pandemia.

O paulista João Doria (PSDB) disse que a demissão de Mandetta foi uma “perda para o Brasil”. “Espero que (Teich) siga procedimentos técnicos e atenda às recomendações da OMS.” O tucano Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, lembrou a “competência e dedicação exemplar” do antigo ministro. Para Ronaldo Caiado (MDB), de Goiás, Mandetta cumpriu sua missão, apesar de todas as “limitações” da pasta.

Em São Paulo, embora as declarações oficiais sejam de lamento, a avaliação dos gestores da saúde de Estado é a de que há pouco que o governo Bolsonaro possa fazer para alterar, ou até atrapalhar, a forma como a pandemia vem sendo combatida com troca de ministros.

O entendimento é que os recursos financeiros da União de que o Estado de São Paulo precisava para enfrentar a doença já foram transferidos, e a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reafirmou a autonomia para estados e municípios definirem as polícias de Saúde já serve como barreira para eventuais ataques à política de isolamento, pivô dos atritos entre Mandetta e Bolsonaro.

O secretário de Estado da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, também lamentou ontem a saída de Mandetta. Questionado sobre a troca no ministério e a indicação de Teich, respondeu ao Estado: “Não o conheço”. Na sequência, Germann completou: “E olha que estou aqui (na Saúde) há 30 anos”.

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Novo ministro da Saúde já propôs escolha entre tratar adolescente ou idosa com doença crônica

Escolhido por Bolsonaro, Nelson Teich afirmou, ano passado, que ‘dinheiro é limitado’ e questionou em quem investir na gestão de atendimentos

Mateus Vargas e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 18h29
Atualizado 17 de abril de 2020 | 10h03

BRASÍLIA – Escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para suceder a Luiz Henrique Mandetta (DEM) como ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich afirmou no ano passado que, na gestão do sistema de atendimentos, é preciso fazer escolhas. Como exemplo, Teich questionou em quem vale investir: uma idosa, com doença crônica e complicações, ou um jovem que tem “a vida inteira pela frente” (vídeo abaixo, a partir de 4m40s).

“Como você tem o dinheiro limitado. Você vai ter de fazer escolhas. Vai ter de definir onde vai investir. Eu tenho uma pessoa mais idosa, que tem doença crônica, avançada. E ela tem uma complicação. Para ela melhorar, eu vou gastar praticamente o mesmo dinheiro que vou gastar para investir num adolescente que está com problemas. Mesmo dinheiro que vou investir. É igual. Só que essa pessoa é um adolescente, que tem a vida inteira pela frente. A outra é uma pessoa idosa, que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”, disse Teich, sem concluir.

O oncologista ainda não tomou posse no cargo, mas foi anunciado nesta quinta-feira, 16, por Bolsonaro ao comando da Saúde. Ele assumirá a pasta após semanas de disputa entre o presidente e Mandetta, em plena crise da covid-19.

Na mesma fala em que propôs escolher tratar uma idosa ou um adolescente, Teich disse que há dois pontos “importantíssimos” na gestão da saúde. “O dinheiro é limitado e você tem de trabalhar com essa realidade. A segunda coisa, as escolhas são inevitáveis. Quais vão ser as escolhas que você vai fazer? Depois que você tem esse conhecimento de quanto dinheiro você tem e qual a necessidade que você tem de sanar, aí você aloca esse dinheiro”, disse.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e doutor em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista conta com apoio da classe médica e mantém boa relação com empresários do setor da saúde. A expectativa é de que Teich traga dados que destravem debates “politizados” sobre a covid-19.

Em outro vídeo, Teich critica embate entre Mandetta e Bolsonaro

Em outro vídeo, o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, trata de forma crítica a situação política provocada pelo embate entre seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente Jair Bolsonaro. “Eu acho que tem duas coisas que as muito ruins em relação a isso. Primeiro, é você não ter uma liderança, eu digo (no) País, que você perceba uma tranquilidade, você perceba um equilíbrio”, disse. “E ai não estou falando especificamente do presidente ou do Mandetta, eu estou falando da situação, porque numa situação como essa em que se trabalha com enorme incerteza, modelos matemáticos, análises, tudo é extremamente incerto.”

As declarações foram dadas num bate papo promovido por uma empresa privada do setor de saúde, que foi divulgado no canal do YouTube. Nessa conversa, Teich ponderou que havia um falso dilema entre a defesa da economia e a da saúde num tempo de “extrema crise”. “A saúde e a economia não são antagônicas. Foi criada uma situação em que investir na saúde é (como se) não estivesse investindo na economia e vice versa. São cooperativas”, afirmou. “Você vive uma época de guerra com informação demais, que nem sempre é de qualidade.”

Ao insistir no conflito entre Mandetta e Bolsonaro, o novo ministro disse que as informações são “confusas”. “Esse conflito, onde você coloca um contra o outro, quando deveriam estar abraçados, levando esse negócio juntos e passando o máximo de tranquilidade possível, é ruim não só pela mensagem que é mandada à sociedade, mas é ruim porque, provavelmente, você não tem a cooperação máxima possível”, ressaltou. “É muito ruim.”

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