Adriano Machado/REUTERS
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Após Bolsonaro citar ‘equívoco’, Ramos diz que presidente falou de PF em contexto diferente de Moro

Em entrevista ao 'Estadão', ministro da Secretaria de Governo disse que presidente Jair Bolsonaro foi 'induzido ao erro' ao apontar 'equívoco' em seu depoimento à Polícia Federal

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2020 | 15h30

BRASÍLIA - O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, disse nesta quarta-feira, 13, que o presidente Jair Bolsonaro foi “induzido ao erro” ao apontar “equívoco” em seu depoimento à Polícia Federal. Em entrevista ao Estadão, o ministro reafirmou que o órgão de investigação foi citado na reunião ministerial de 22 de abril, mas em um contexto diferente do que o ex-ministro Sérgio Moro apontou, de que houve cobrança para trocar o comando. O presidente, por sua vez, tem dito que em nenhum momento houve menção à PF durante o encontro.

Segundo Ramos, Bolsonaro não se referia a Moro e à PF quando mencionou, na reunião ministerial do dia 22 de abril, a troca de sua segurança no Rio de Janeiro. Ao Estadão, o ministro alegou que Bolsonaro, falando como um exemplo de que poderia interferir em todas as pastas, citou a mudança da chefia da segurança pessoal, portanto, sobre o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiada pelo ministro Augusto Heleno.

“Ele usou como exemplo: ‘Lá no Rio de Janeiro a minha segurança pessoal, que é do Gabinete de Segurança Institucional, se eu quisesse trocar o chefe eu trocaria. Se não resolvesse eu trocaria o ministro’. E o ministro é o general Heleno”, disse Ramos.

A declaração de Ramos ocorre após Bolsonaro, pela manhã, ter dito que o auxiliar “se equivocou” ao dizer no depoimento que o presidente havia mencionado a Polícia Federal na reunião de ministros.  “Ramos se equivocou. Mas como é reunião, eu tenho o vídeo. O Ramos, se ele falou isso, se equivocou”, contestou o presidente em declaração em frente ao Palácio da Alvorada.

O ministro-chefe da Secretaria de Governo alega que o presidente foi induzido ao erro pela pergunta dos jornalistas. Ramos justifica que mencionou a PF quando falava da cobrança do presidente sobre relatórios de inteligência de todos os órgãos do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), que inclui a PF, Abin, Forças Armadas e outros ministérios, como a Advocacia-Geral da União.

“A pergunta induziu ele (Bolsonaro) ao erro. Eu falo de Polícia Federal na hora que ele está reclamando dos relatórios de inteligência da Abin, das Forças Armadas e da Polícia Federal. Está no meu depoimento”, disse o ministro. “Ele entendeu na pergunta que eu tinha falado de Polícia Federal na hora que falou de substituição. Não é verdade.”, complementou.

Ramos, Heleno e o ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, foram ouvidos pela Polícia Federal na terça-feira, 12, em seus gabinetes no Palácio do Planalto. Eles foram ouvidos na condição de testemunhas no inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que apura as acusações de Moro de que Bolsonaro tentou interferir na PF.

Retificação

Ao final do depoimento de cinco horas, o chefe da Secretaria de Governo fez alterações em duas declarações, conforme mostrou o jornalista Rubens Valente, do UOL. As mudanças ocorreram justamente no ponto em que menciona a substituição do diretor-geral da Polícia Federal ou superintendente no Rio.

Na primeira versão, Ramos disse que o presidente não mencionou a troca na PF na reunião ministerial do dia 22 de abril e em qualquer outro momento. Depois, ao ler o depoimento ao final, o ministro pediu para substituir o tom assertivo pela informação de que não se lembrava.

De acordo com o Ramos, a alteração ocorreu por recomendação do advogado que o acompanhou, uma vez que não tinha certeza absoluta de que a substituição da PF havia sido mencionada.

“Foram cinco horas de depoimento. Acaba o depoimento, eles imprimem para eu ler e li junto com o advogado. O advogado falou assim: ‘Ministro, essa expressão que senhor colocou aqui é com certeza?’ Eu tinha botado 'não foi mencionado'.  Para mim, não foi mencionado.  E o advogado perguntou: o senhor tem 1000% (de certeza)? Eu disse que não. E ele falou:  ‘Então, em vez de não mencionado o senhor vai (colocar) ‘não se lembra’”, relatou.

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