Caio Sartori/Estadão
Caio Sartori/Estadão

Apesar do coronavírus, País registra atos pró-governo; presidente divulga manifestações

Bolsonaro chegou a publicar foto de protesto com faixas 'Fora Maia', 'SOS Forças Armadas' e 'Fora STF', mas apagou

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2020 | 11h42
Atualizado 15 de março de 2020 | 18h47

Apesar de o presidente Jair Bolsonaro ter recomendado, por causa da pandemia de coronavírus, o adiamento dos atos a favor do governo, que estavam previstos para este domingo, 15, no Brasil, manifestantes foram às ruas. Cidades como Brasília, Rio de Janeiro, Belém, Maceió, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Juiz de Fora, Campinas, Ribeirão Preto, Bauru, Jundiaí e Piracicaba já registram mobilizações, ainda que esvaziadas em algumas delas.

O próprio presidente deixou o Palácio da Alvorada e, em comboio, passou ao lado de ato em Brasília e depois cumprimentou apoiadores no Planalto. Ele foi orientado a ficar em isolamento até refazer testes para o coronavírus, como informou o Estado na sexta, 13. Bolsonaro não desceu do carro e só foi visto na volta, acenando para apoiadores que o aguardavam na residência oficial.

Bolsonaro compartilhou vídeos e fotos sobre as manifestações no Twitter. Em uma delas, sem autoria, era possível ler faixas 'Fora Maia', em referência ao presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), 'Fora STF' e 'SOS Forças Armadas'. Bolsonaro identificava a imagem como sendo de Maceió, Alagoas. A foto foi apagada da conta de Bolsonaro.

O primeiro vídeo compartilhado por Bolsonaro mostra motoqueiros vestidos de verde e amarelo em Belém, no Pará, e foi publicado originalmente na conta do deputado federal Éder Mauro (PSD-PA), com a hashtag #BolsonaroDay. Num segundo vídeo, em que a cidade e a autoria das imagens não são identificadas, pessoas aparecem em jet-skis empunhando bandeiras do Brasil. Outro vídeo mostra manifestantes no ato esvaziado em Brasília, onde a organização dos atos optou por promover uma carreta para evitar o contato próximo de pessoas.

No Rio de Janeiro, os manifestantes que ignoraram os pedidos para evitar aglomerações se reúnem num espaço de cerca de um quarteirão na praia de Copacabana. A maioria dos presentes são idosos, faixa etária mais suscetível às consequências do novo coronavírus.

Em cima do carro de som, o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ) minimizou os possíveis efeitos da proliferação do coronavírus em aglomerações. "O verdadeiro coronavírus que mata é a corrupção nesse país", disse ele, que quer o apoio de Bolsonaro para disputar a Prefeitura do Rio. 

Esse discurso, inclusive, foi endossado por mais de um participante. Em um dos carros, um homem usava essa retórica para convencer os manifestantes a assinarem fichas de filiação ao Aliança Pelo Brasil, partido que a família Bolsonaro pretende criar.

Os poucos que usam máscaras aproveitaram a ocasião para personalizá-las. A versão mais vista é uma com os dizeres "Canalhas Vírus: Congresso Nacional". Os cartazes dos manifestantes têm como alvo o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Um homem carrega um banner em que pede a destituição da Corte, a "limpeza total" do Parlamento e a instauração de um novo AI-5. Ele usa um boné dos Estados Unidos.

Já uma senhora próxima a ele levanta um cartaz de cartolina em que pede para o Exército assumir o País. Há no ato, inclusive, a réplica de um veículo militar no qual os manifestantes sobem para tirar fotos. 

Contra o Congresso, um dos cartazes mais comuns no Rio tem o rosto do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, com "F*da-se" escrito.

Outro alvo nesta manhã no Rio é o governador Wilson Witzel, ex-aliado e hoje inimigo político  de Bolsonaro. Do alto do carro de som, um representante do Movimento Brasil Conservador chamou Witzel de traidor e promoveu um "pisaço" numa bandeira com o rosto dele ao som da música tema do filme Tropa de Elite.

Por volta das 10h40, um morador de um prédio em frente ao ato pendurou na janela uma bandeira do PT. Os manifestantes viraram para o edifício, vaiaram e entoaram músicas contra o ex-presidente Lula e gritos de "Vai pra Cuba". A presença mais inusitada nesta manhã é a de um cavalo branco levado por um manifestante.

Em Belo Horizonte, manifestantes compareceram na Praça da Liberdade, na região Centro-Sul da cidade. Parte deles usava máscaras. A alameda central da praça, que tem cerca de 300 metros de comprimento e aproximadamente 15 de largura, chegou a ficar lotada no ápice da manifestação, por volta das 11h.

Fotos e cartazes com críticas aos presidentes do STF, Dias Toffoli, e da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM), foram colocadas na praça. O deputado tinha na foto a palavra "chantagista". O ministro, as  palavras "desprezível, um nada". Manifestantes posavam ao lado dos retratos de ambos, fazendo o gesto da "arminha".

O artista plástico Julio Hubner, 49 anos, que foi ao ato junto com a namorada, a turismóloga Adriana Borges, de 40 anos, disse que a manifestação é importante para deixar claro a indignação do povo brasileiro contra deputados e senadores. "O Congresso Nacional só pensa no próprio umbigo", afirmou.

Muitas pessoas também foram às ruas em cidades do interior de São Paulo. Em Campinas, os manifestantes se reuniram no Largo do Rosário e caminharam até a frente da prefeitura. Alguns jovens usavam máscaras, numa referência ao novo coronavírus. Não houve contagem oficial dos manifestantes, mas guardas municipais que estavam na área estimaram o público em cerca de 300 pessoas.

Em Ribeirão Preto, um grupo realizou uma caminhada pela Avenida 9 de Julho gritando palavras de ordem em apoio a Bolsonaro e contra o Congresso. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi o principal alvo. Em Piracicaba, manifestantes vestindo verde e amarelo se reuniram na Praça José Bonifácio, a principal da cidade, e fizeram um ato contra o Congresso e o STF.

Houve carreata de apoiadores de Bolsonaro na região central de Bauru. Os carros levaram balões verdes e amarelos e bandeiras do Brasil. Em Jundiaí, após se concentrar na Avenida 9 de Julho, um grupo saiu em carreata até a Vila Hortolândia. Até às 15 horas, não havia sido registrado incidente durante as manifestações. Em nenhuma cidade a Polícia Militar divulgou números de participantes nos atos.

Em Curitiba, simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro se reuniram na Boca Maldita. A Polícia Militar não fez estimativa de público, mas, segundo os organizadores, cerca de 10 mil pessoas passaram pelo local.

Entre elas estava a bancária aposentada Rosemeri Vasco Garcia, de 67 anos, que foi cobrar o Congresso por reformas. "Mesmo com o risco do coronavírus achei importante mostrar a insatisfação. Temos que fazer os políticos sentirem vergonha e fazer as reformas que precisamos", reclamou.

Paula Milani, que faz parte da organização da manifestação deste domingo na capital paranaense, o ato poderia ter sido muito maior, caso o presidente não tivesse pedido aos apoiadores para não participarem por conta do novo coronavírus. "Veio a direita raiz", disse Paula.

Em Recife, os manifestantes se reuniram em Boa Viagem. O servidor público José Francisco Pereira Sobrinho, de 60 anos, veio de São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife, para protestar pela direita e pela família conservadora. "Eu estou aqui nessa manifestação a favor do governo Bolsonaro e contra a chantagem do Congresso Nacional porque é uma prática em todos os parlamentos. Trocar emprego, trocar emendas parlamentares por aprovações na Câmara estadual, federal e de vereadores", afirma.

Segurando um cartaz contra o Supremo Tribunal Federal, o advogado Benjamim Martins Lopes, de 76 anos, reclama da corrupção na política brasileira. "Eu estou aqui protestando e apoiando o governo Bolsonaro, que precisa governar esse país legitimamente, sem esse golpe que está querendo derrubá-lo. Mas não vão conseguir porque nós, o povo, estamos aqui presentes para apoiá-lo".

Com uma máscara nas cores verde e amarela protegendo o rosto, Lopes não se mostra impressionado com o avanço do novo coronavírus em Pernambuco, onde há sete casos confirmados da doença Covid-19 até o momento. "Eu não estou preocupado com o coronavírus. A Organização Mundial da Saúde é um órgão comprometido com os laboratórios e todos os planos de saúde", sugere.

Centenas de pessoas também estiveram reunidas em Porto Alegre. Tradicional reduto bolsonarista da capital gaúcha, o Parcão foi palco de mais um ato marcado por faixas e cartazes que atacavam as instituições. Os organizadores do movimento estimavam público de 5 mil pessoas, porém a Brigada Militar não confirmou o número.

Em um carro de som, dois deputados estaduais endossavam o coro dos manifestantes. "A inconformidade do povo é com a chantagem que o Congresso está fazendo com o presidente Bolsonaro", disse Eric Lins, parlamentar do DEM, partido que comanda a Câmara dos Deputados e o Senado, alvos dos manifestantes.

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro também se reuniram em Manaus, em frente ao anfiteatro da Ponta Negra, na orla do Rio Negro. O primeiro sargento da Polícia Militar, Nadio, informou que mais de 100 pessoas estavam reunidas por volta das 16h. O militar comunicou também que o grupo aguarda a chegada de uma carreata. “Na carta apresentada dizia que a estimativa era de 10 mil pessoas”, disse.

Coordenador do Movimento Independente do Amazonas, William Santos, 30, disse que o objetivo principal da ação é pressionar o Congresso. “Quando o general Heleno disse ‘foda-se o Congresso’, entendemos como uma convocação indireta para pressionarmos o Congresso, que está travando pautas e bloqueando MPs”, alegou.

Em Fortaleza, o ato se concentrou na Praça da Imprensa, no bairro Dionísio Torres, área nobre da capital.

Mesmo com o pedido do presidente Jair Bolsonaro em adiar as manifestações por conta da disseminação do coronavírus, cearenses não se intimidaram e foram às ruas utilizando máscaras. O publicitário, Weyne Vasconcelos, torce por um país menos corrupto. “Eu estou aqui, porque sou a favor de um país mais justo e mais honesto. Estou torcendo para que esse governo dê certo”, disse.

A servidora pública, Margarete Santiago, decidiu participar do movimento em defesa do presidente e dos mais de 200 milhões de brasileiros. “Eu estou contando com quem votou e com quem não votou nele (Bolsonaro), porque nós somos, acima de tudo brasileiros. Nós temos que defender as nossas famílias”, declarou. A administradora Vera Sales disse que pensa no futuro do país. “Eu quero um país melhor para os meus netos e torço por um país constitucional”, afirmou.

"Desculpa, Jair, mas eu vou"

Em pronunciamento oficial na quinta-feira, 12, em meio às suspeitas de que havia contraído o coronavírus, Bolsonaro sugeriu que as manifestações fossem adiadas. Apesar do pedido, apoiadores do presidente iniciaram nas redes sociais um movimento "Desculpa, Jair, mas eu vou", convocando a população para as manifestações pró-governo em meio ao risco de disseminação do coronavírus entre os participantes.

Segundo o último levantamento disponibilizado pelo Ministério da Saúde neste sábado, 14, o Brasil tem, neste momento, 121 casos confirmados de pessoas com coronavírus, e outros 1.496 casos suspeitos. São Paulo lidera o ranking com 65 casos confirmados.

/ Wellington Bahnemann, Caio Sartori, Bruno Nomura, Matheus Lara, José Maria Tomazela e Bruno Tadeu, Leonardo Augusto, Lôrrane Mendonça, Lucas Rivas, Julio Cesar Lima e Vinícius Brito, Especiais para O Estado de São Paulo

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